Dr. Márcio GesterEndocrinologista · CRM-PA 14727 ← Início
Ilustração editorial em linha fina sobre fundo azul-marinho mostrando um raio de sol estilizado em âmbar atravessando camadas sobrepostas de pele em tons de azul-claro, com a camada mais densa filtrando parte da luz, e ao lado a silhueta esquemática de um osso íntegro. Sem pessoas, sem rostos, sem texto e sem marcas.

Pele mais escura precisa de mais sol e mais vitamina D?

Em resumo: a melanina reduz de verdade a produção de vitamina D na pele, e com o mesmo sol uma pessoa de pele mais escura chega a um exame mais baixo. O que quase não se conta é a outra metade. A proteína que carrega a vitamina no sangue também é menor, e a fração que de fato trabalha acaba parecida: 2,9 contra 3,1 ng/mL num estudo que mediu total e fração livre lado a lado 1. No mesmo estudo, a densidade óssea foi maior justamente no grupo com a vitamina D total mais baixa 1. E o paratormônio, que é o hormônio que sobe quando falta vitamina D, já chega ao piso num nível mais baixo em adultos negros 5,6. O risco maior aqui não é ficar sem sol, é ser tratado por um número calibrado em outra população.

Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 02/09/2026

Contexto: o que saiu na mídia

Entre 31 de agosto e 1º de setembro de 2026, várias reportagens brasileiras trataram do mesmo assunto: a melanina reduziria a produção de vitamina D e pessoas negras precisariam de mais sol. A primeira metade dessa frase está certa e tem física por trás. A segunda depende de uma coisa que as matérias não contam, e é ela que muda a conduta.

Por que a melanina interfere

A vitamina D não vem pronta da comida na maior parte das vezes. Ela começa na pele, quando a radiação ultravioleta B atinge uma molécula parente do colesterol e a transforma em pré-vitamina D3. A melanina absorve luz nessa mesma faixa, e é exatamente para isso que ela serve: proteger o material genético da célula. Ao fazer o seu trabalho, ela disputa os mesmos fótons com essa molécula. Com a mesma quantidade de sol, uma pele com mais melanina fabrica menos vitamina D por unidade de tempo.

Estudo em população indiana que mediu índice de melanina, exposição solar semanal e variantes genéticas encontrou o índice de melanina entre os poucos fatores que de fato previram o nível de vitamina D no sangue 10.

O mesmo estudo mostra o tamanho do que a pele não explica. Ele comparou grupos daquela população e o resultado contraria a expectativa: o grupo que tinha mais melanina e passava mais tempo ao sol terminou com a vitamina D mais baixa, e o grupo com menos melanina e menos sol terminou com a mais alta 10. Se o sol fosse o fator dominante, o grupo que tomava mais sol deveria compensar a pele mais pigmentada, e não compensou. Os autores atribuem a diferença ao ambiente e aos hábitos de cada grupo, que incluem alimentação e tipo de trabalho 10. Pele explica uma parte. O resto da vida da pessoa explica outra, e às vezes maior.

O número que aparece no exame

Se o objetivo for cravar um valor no exame de sangue, a pele mais escura exige mais entrada. Um modelo construído com 72 adultos na Califórnia, a 38 graus de latitude norte, estimou o consumo necessário para manter a 25-OH-vitamina D acima de 30 ng/mL: em torno de 1.300 UI por dia no inverno para pessoas de ascendência europeia com boa exposição solar, e de 2.100 a 3.100 UI por dia o ano todo para pessoas de ascendência africana com baixa exposição solar 4. A latitude faz parte do número: naquele lugar o inverno derruba a produção na pele durante meses.

O que o exame não mede

A vitamina D circula quase toda grudada numa proteína transportadora, e o exame de rotina soma as duas frações, a presa e a livre. Só a livre entra na célula e trabalha.

Um estudo mediu as duas frações separadamente em adultos americanos negros e brancos. A vitamina D total foi bem menor no grupo negro, 15,6 contra 25,8 ng/mL. A proteína transportadora também foi menor, e na mesma proporção: 168 contra 337 µg/mL, diferença explicada em boa parte por duas variantes do gene que produz essa proteína. O resultado é que a fração biodisponível, a que de fato age, ficou praticamente igual nos dois grupos, 2,9 contra 3,1 ng/mL 1. O mesmo trabalho mediu a densidade óssea, e ela foi maior no grupo com a vitamina D total mais baixa: 1,05 contra 0,94 g/cm² 1.

O osso, que é onde a conta fecha

Adultos negros têm vitamina D total mais baixa e menos fratura por fragilidade, não mais. Essa inversão é conhecida na literatura como paradoxo e tem explicações que não passam pela vitamina D: pico de massa óssea maior, mais massa muscular, remodelação óssea mais lenta, geometria favorável do fêmur, absorção intestinal de cálcio e conservação renal de cálcio superiores. O paratormônio mais alto, que num exame isolado assustaria, não se traduz em mais perda óssea nessa população 2,3.

O comportamento do paratormônio é o primeiro sinal disso, e ele é o hormônio que sobe quando falta vitamina D e é o melhor sinal de que o corpo está sentindo falta. Em adultos brancos ele continua caindo conforme a vitamina D sobe acima de 20 ng/mL. Em adultos negros a curva fica plana a partir desse valor, ou seja, o corpo já considerou suficiente 5. Um segundo estudo estimou esse ponto de saturação em torno de 20 ng/mL em afro-americanos contra cerca de 30 ng/mL em pessoas brancas 6.

O segundo achado é a densidade óssea. Num estudo com 1.773 adultos de quatro grupos, a associação entre vitamina D mais alta e osso mais denso apareceu em participantes brancos e chineses, e foi nula em negros e hispânicos 7. A densidade óssea foi a maior justamente no grupo negro 7.

O que isso muda na prática

Quem chega ao consultório com o exame marcado em vermelho costuma temer a falta de sol. O que eu vejo com mais frequência é o outro problema: um rótulo de deficiência que o osso daquela pessoa não confirma, e uma prescrição que não muda desfecho nenhum.

Na minha leitura, o dado do paratormônio é o que menos depende de opinião: quando o corpo tem pouca vitamina D, ele avisa subindo esse hormônio, e nas pessoas com pele mais escura esse aviso já cessa num nível mais baixo. Na minha prática, isso significa que eu não trato número, trato pessoa com motivo. Se há queixa, fator de risco, doença óssea, uso de corticoide, gravidez, pouca exposição solar real ou idade avançada, o exame entra e a reposição entra quando indicada. Fora disso, um valor entre 20 e 30 numa pessoa saudável raramente vira receita no meu consultório.

O outro lado também é verdadeiro: a capacidade de responder ao suplemento é igual. Quando cholecalciferol foi dado em doses variadas, a vitamina D total e a livre subiram proporcionalmente à dose, sem diferença entre os grupos 8. A diferença está na produção pela pele, não na resposta ao tratamento. Quando há indicação, o tratamento funciona igual.

Isso tem um limite que vale para qualquer cor de pele: os grandes ensaios que somaram mais de 30 mil participantes não encontraram benefício em suplementar quem já tinha nível suficiente, seja para prevenir câncer, evento cardiovascular, queda ou diabetes 9. Repor faz diferença em quem tem carência de verdade. Acima disso, o que sobra é custo.

O que diz a referência brasileira

As sociedades brasileiras de endocrinologia e de patologia clínica fixaram o desejável em acima de 20 ng/mL para a população saudável até 60 anos, e reservaram a faixa de 30 a 60 ng/mL para grupos de risco: idosos, gestantes e lactantes, pessoas com baixa exposição solar, quem tem osteoporose ou doença osteometabólica, quem convive com doença crônica e quem usa medicação que afeta o osso, como corticoide. Acima de 100 ng/mL há risco de intoxicação.

Essa régua brasileira e o achado internacional do paratormônio apontam para o mesmo lugar sem terem partido do mesmo lugar, e é isso que dá confiança nos dois. Muito laboratório ainda imprime 30 como piso para toda pessoa, e é dessa diferença silenciosa que nasce boa parte das prescrições de vitamina D que eu vejo chegando.

Morar em Belém muda alguma coisa

Muda, e a favor. Belém fica a pouco mais de 1 grau da linha do equador, e é por isso que o sol daqui não tem a estação fraca que os estudos de alta latitude descrevem. Para dar tamanho: nesta primeira semana de setembro a previsão do índice ultravioleta na cidade vai de 9 a 12, faixas classificadas como muito alta e extrema. Aquele modelo da Califórnia, a 38 graus, foi construído num lugar onde o inverno praticamente desliga essa produção. Aqui ele não desliga.

Só que sol disponível não é sol recebido. Trabalho em ambiente fechado, deslocamento de carro, roupa comprida e protetor solar, todos legítimos, cortam a exposição efetiva. E o vidro comum barra a faixa que produz vitamina D, então o sol do trajeto não conta. Isso vale para qualquer cor de pele e é a razão pela qual eu não uso "mas eu pego sol todo dia" como argumento para deixar de investigar quem tem motivo.

Em resumo, o que eu diria numa consulta

A melanina reduz mesmo a produção de vitamina D na pele, e isso não é opinião. O que não se segue disso é que toda pessoa de pele escura tenha deficiência ou precise de suplemento: a proteína transportadora também é menor, a fração que trabalha fica parecida, o paratormônio já chega ao piso num nível mais baixo, a densidade óssea é maior e a fratura é menos frequente. Nos estudos, a relação entre vitamina D e osso que existe em pessoas brancas não aparece em pessoas negras.

O que fazer com isso depende de onde você está, e as duas escolhas são legítimas. Se você tem motivo, e motivo aqui é idade avançada, gravidez, amamentação, osteoporose, doença crônica, uso de corticoide ou pouca exposição solar de verdade, dosar e repor quando indicado é conduta certa, e a reposição funciona igual. Se você é uma pessoa saudável cujo exame veio entre 20 e 30, existem dois caminhos defensáveis: tratar até chegar a 30, que é o que muito laudo sugere, ou não tratar e revisar o hábito de sol, que é o que a régua brasileira permite e o que o comportamento do paratormônio favorece. O primeiro custa dinheiro, cria uma rotina de cápsula e exames de controle, e traz uma tranquilidade que é real para quem precisa dela. O segundo poupa tudo isso e cobra conviver com um número que o laudo marcou em vermelho, o que não é pouco para quem fica pensando naquilo. Nenhum estudo mede quanto pesa para você olhar um exame marcado como alterado e não fazer nada. Eu costumo preferir o segundo caminho em pessoa saudável e sem queixa, e digo com todas as letras que isso é uma preferência minha, não uma recomendação: a decisão é de quem vai conviver com ela.

A frase para levar embora é curta. Cor de pele muda como o número aparece no exame, não necessariamente o que o seu osso precisa.

Quando procurar um endocrinologista

Vale marcar uma avaliação se você tem osteoporose ou já teve fratura sem trauma grande, se usa corticoide de forma prolongada, se está grávida ou amamentando, se tem doença renal, hepática ou intestinal que atrapalhe a absorção, se fez cirurgia bariátrica, se passa o dia inteiro sem exposição solar, ou se está tomando vitamina D por conta há meses sem saber por quê e sem controle. Dor óssea persistente, fraqueza muscular em cintura pélvica ou escapular e fratura por trauma pequeno pedem avaliação sem esperar. Este texto explica o que se sabe sobre o tema e não substitui uma consulta, nem serve para decidir dose de suplemento pela internet.


Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico nem o tratamento individualizado. Suplementos e medicamentos citados só devem ser iniciados, ajustados ou suspensos por decisão do médico que acompanha cada pessoa.

Se o seu exame de vitamina D veio marcado como alterado e você não sabe se aquilo pede tratamento, agende uma avaliação com um endocrinologista.

Leia também

Fontes científicas

  1. Powe C, Evans M, Wenger J, Zonderman A, Berg A, Nalls M, et al. Vitamin D–Binding Protein and Vitamin D Status of Black Americans and White Americans. New England Journal of Medicine. 2013;369(21):1991-2000. doi:10.1056/nejmoa1306357.
    https://doi.org/10.1056/nejmoa1306357 · PubMed 24256378
  2. Aloia J. African Americans, 25-hydroxyvitamin D, and osteoporosis: a paradox. The American Journal of Clinical Nutrition. 2008;88(2):545S-550S. doi:10.1093/ajcn/88.2.545s.
    https://doi.org/10.1093/ajcn/88.2.545s · PubMed 18689399
  3. Shieh A, Aloia J. Assessing Vitamin D Status in African Americans and the Influence of Vitamin D on Skeletal Health Parameters. Endocrinology and Metabolism Clinics of North America. 2017;46(1):135-152. doi:10.1016/j.ecl.2016.09.006.
    https://doi.org/10.1016/j.ecl.2016.09.006 · PubMed 28131129
  4. Hall L, Kimlin M, Aronov P, Hammock B, Slusser J, Woodhouse L, et al. Vitamin D Intake Needed to Maintain Target Serum 25-Hydroxyvitamin D Concentrations in Participants with Low Sun Exposure and Dark Skin Pigmentation Is Substantially Higher Than Current Recommendations. The Journal of Nutrition. 2010;140(3):542-550. doi:10.3945/jn.109.115253.
    https://doi.org/10.3945/jn.109.115253 · PubMed 20053937
  5. Gutiérrez O, Farwell W, Kermah D, Taylor E. Racial differences in the relationship between vitamin D, bone mineral density, and parathyroid hormone in the National Health and Nutrition Examination Survey. Osteoporosis International. 2010;22(6):1745-1753. doi:10.1007/s00198-010-1383-2.
    https://doi.org/10.1007/s00198-010-1383-2 · PubMed 20848081
  6. Wright N, Chen L, Niu J, Neogi T, Javiad K, Nevitt M, et al. Defining physiologically 'normal' vitamin D in African Americans. Osteoporosis International. 2011;23(9):2283-2291. doi:10.1007/s00198-011-1877-6.
    https://doi.org/10.1007/s00198-011-1877-6 · PubMed 22189572
  7. van Ballegooijen A, Robinson-Cohen C, Katz R, Criqui M, Budoff M, Li D, et al. Vitamin D metabolites and bone mineral density: The multi-ethnic study of atherosclerosis. Bone. 2015;78:186-193. doi:10.1016/j.bone.2015.05.008.
    https://doi.org/10.1016/j.bone.2015.05.008 · PubMed 25976951
  8. Alzaman N, Dawson-Hughes B, Nelson J, D'Alessio D, Pittas A. Vitamin D status of black and white Americans and changes in vitamin D metabolites after varied doses of vitamin D supplementation. The American Journal of Clinical Nutrition. 2016;104(1):205-214. doi:10.3945/ajcn.115.129478.
    https://doi.org/10.3945/ajcn.115.129478 · PubMed 27194308
  9. Bouillon R, Manousaki D, Rosen C, Trajanoska K, Rivadeneira F, Richards J. The health effects of vitamin D supplementation: evidence from human studies. Nature Reviews Endocrinology. 2021;18(2):96-110. doi:10.1038/s41574-021-00593-z.
    https://doi.org/10.1038/s41574-021-00593-z · PubMed 34815552
  10. Jonnalagadda M, Bhumkar S, Ozarkar S, Ashma R. Determinants of Vitamin D in Indian Populations: Understanding the Interplay of Skin Pigmentation, Sun Exposure, and Genetic Variants. American Journal of Human Biology. 2026;38(3). doi:10.1002/ajhb.70228.
    https://doi.org/10.1002/ajhb.70228 · PubMed 41858092

Fontes jornalísticas

Dúvidas dos leitores

Moro em Belém, pego sol todo dia. Mesmo assim posso ter vitamina D baixa?

Pode, e isso é mais comum do que parece. Pegar sol não é o mesmo que expor a pele ao sol: quem sai de casa de manhã cedo, trabalha em ambiente fechado o dia inteiro e volta no fim da tarde tem pouco tempo de pele descoberta na faixa de horário em que a radiação produz vitamina D. Roupa, sombra, vidro de carro e protetor solar bloqueiam essa produção, e o vidro comum barra justamente a faixa que interessa. Some a isso a melanina, que compete pela mesma luz, e o resultado é que morar perto do equador ajuda mas não garante nada. O caminho é dosar quando houver motivo, não presumir nem por morar aqui nem por ter a pele mais escura.

Meu exame deu abaixo de 30. Preciso tomar vitamina D?

Depende de quem você é, e é aí que muita gente é medicada sem precisar. As sociedades brasileiras consideram desejável acima de 20 ng/mL para a população saudável até 60 anos, e reservam a faixa de 30 a 60 para grupos de risco, como idosos, gestantes e lactantes, pessoas com pouca exposição solar, quem tem osteoporose ou doença óssea, quem tem doença crônica e quem usa corticoide. Muito laboratório imprime 30 como piso para todo mundo, e é dessa diferença que nasce boa parte das prescrições desnecessárias. Um valor entre 20 e 30 em pessoa saudável costuma não pedir tratamento nenhum.

Se a pele escura produz menos, não seria melhor tomar suplemento por precaução?

A precaução aqui resolve menos do que parece. O que os ensaios mostram é que suplementar quem já tem nível suficiente não traz benefício demonstrável, e nos estudos de densidade óssea a relação entre vitamina D e osso que aparece em pessoas brancas simplesmente não aparece em pessoas negras. Suplementar por conta faz sentido em quem tem carência de verdade ou está num grupo de risco. Fora disso, o que se ganha é custo e a chance de excesso, que existe. Vale lembrar que a resposta ao suplemento é igual: quem tem pele mais escura sobe o nível na mesma proporção da dose, então quando há indicação o tratamento funciona normalmente.

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