Dr. Márcio GesterEndocrinologista · CRM-PA 14727 ← Início
Ilustração plana sobre fundo azul-marinho: no centro, um calendário de parede branco com alguns dias marcados por pontos e círculos dourados; à esquerda, um glicosímetro genérico com a fita de teste; à direita, uma planta brotando num vaso azul-claro. Sem texto, sem pessoas, sem gestante e sem marcas.

Tenho diabetes e quero engravidar: o que fazer antes, segundo a nova diretriz

Em resumo: a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) passou a recomendar, na edição 2026 da sua diretriz, que mulheres com diabetes e hemoglobina glicada acima de 9% adiem a gravidez até o controle melhorar 7. A razão é o risco de malformação, que sobe junto com a glicose: numa coorte americana, ele ficou perto de 10% com glicada de 10% no início do pré-natal e de 20% com glicada de 13% 2. A meta antes de engravidar é uma glicada abaixo de 6,5% nas recomendações americanas e de 6,0% na brasileira, sempre sem hipoglicemia 1,7. Até lá, a orientação é usar anticoncepção eficaz 1,4. A caneta de emagrecer sai antes: pelo menos 2 meses antes no caso da semaglutida, pela bula brasileira, com troca para insulina 9. E o ácido fólico começa antes da gravidez 1,7.

Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 25/09/2026

O que saiu na mídia

Em 23 de setembro de 2026, o Jornal O Sul noticiou a atualização das diretrizes da SBD. Além da mudança no tratamento do diabetes tipo 2, a matéria destacou a orientação para mulheres com diabetes que podem engravidar: com a glicada acima de 9%, a gravidez deve ser adiada até que o controle melhore, com anticoncepção até lá.

A frase soa dura e pode ser lida como "quem tem diabetes não pode ter filho". Não é isso. Na mesma matéria, a coordenadora do departamento de diabetes gestacional da SBD lembrou que a decisão de ter um filho é da mulher. O que a diretriz recomenda é o momento: adiar a gestação até que a glicada chegue aos níveis associados a menor risco de malformação e de parto prematuro 7.

Por que a glicada do início da gravidez pesa tanto

Os órgãos do bebê se formam nas primeiras semanas da gestação, muitas vezes antes de a mulher saber que está grávida. A glicose que está no sangue da mãe nessa janela é a que chega ao embrião. Por isso o controle precisa estar bom antes do teste positivo, e não depois.

O risco cresce de forma contínua, sem um ponto em que ele apareça de repente:

Numa coorte americana com mais de 1.500 partosde mulheres com diabetes anterior à gravidez, cerca de 8% dos bebês tiveram alguma malformação importante. A probabilidade chegou a 10% com glicada de 10% no início do pré-natal e a 20% com glicada de 13% 2.
Numa coorte israelense com mais de 46 mil crianças,o risco de defeito no coração do bebê começou a subir a partir de uma glicada materna acima de 5,6% em torno da concepção 3.
A diretriz brasileirareúne estudos em que glicadas mais altas no início da gestação também se associaram a mais parto prematuro, bebê grande para a idade gestacional e hipoglicemia no recém-nascido 7.

Na minha leitura, o número que mais importa no planejamento é a glicada do mês em que a anticoncepção é suspensa. Tudo o que vem antes serve para que esse número esteja bom.

A meta: o que a diretriz brasileira e a americana pedem

As duas concordam no princípio e diferem no número.

SBD 2026:a meta ideal é glicada de 6,0%, medida pelo método padrão do laboratório (a cromatografia líquida, chamada HPLC), sem hipoglicemia. Até 6,5% é aceitável quando o risco de hipoglicemia é alto com a insulina intensiva 7.
Associação Americana de Diabetes (ADA) 2026:glicose o mais perto do normal que for seguro, idealmente com glicada abaixo de 6,5% 1.

A diferença de meio ponto não é detalhe de redação. A meta brasileira é mais exigente e deixa explícita a válvula de segurança para quem tem hipoglicemia. Na prática, para a maioria das mulheres a conversa é a mesma: chegar o mais perto possível de 6% sem episódios de glicose baixa, porque a hipoglicemia grave também é um risco na gravidez.

E o limite de cima, 9%, é onde a SBD recomenda não engravidar 7. Entre 6,5% e 9% o risco não é zero nem proibitivo: é uma faixa em que cada ponto a menos conta, e é aí que mora a maior parte das decisões reais.

Anticoncepção até a meta, e não como castigo

A ADA, a SBD e a diretriz conjunta das sociedades de endocrinologia dos Estados Unidos e da Europa pedem anticoncepção eficaz enquanto a glicada e o tratamento não estão prontos para a gravidez 1,4,7. A ADA sugere considerar os métodos de longa duração, como o dispositivo intrauterino (DIU) e o implante, que são os que menos falham no uso real 1. A escolha do método é feita com o ginecologista, levando em conta pressão, tempo de diabetes e complicações.

A Endocrine Society, dos Estados Unidos, e a Sociedade Europeia de Endocrinologia vão além: sugerem perguntar em toda consulta, de diabetes, de ginecologia ou de clínica geral, se a mulher pretende engravidar 4. A pergunta que eu faço a mulheres com diabetes em idade fértil é justamente essa, e com prazo: se ela pensa em engravidar no próximo ano. A resposta muda o que eu faço com a glicada, com os remédios e com o calendário de exames.

Um erro comum, e compreensível, é suspender o anticoncepcional e só então procurar o médico para "se preparar". Quando a gravidez vem rápido, ela chega antes da preparação.

Os remédios que precisam mudar antes

A insulina é o tratamento preferido na gravidez, tanto no diabetes tipo 1 quanto no tipo 2 1,8. Quem usa outros remédios para a glicose precisa de um plano de troca, e alguns remédios para pressão e colesterol também saem.

As canetas de emagrecer e de diabetes. A bula brasileira da semaglutida (Ozempic) orienta suspender pelo menos 2 meses antes da gravidez planejada, por causa da meia-vida longa do remédio 9. A bula brasileira da tirzepatida (Mounjaro), na versão de junho de 2025, fala em pelo menos 1 mês 10. A ADA cita os 2 meses da semaglutida e registra que a bula americana da tirzepatida não define prazo, enquanto a canadense fala em 1 mês 1. A diretriz conjunta da Endocrine Society e da sociedade europeia sugere suspender antes da concepção, e não depois do teste positivo, com a ressalva de que a certeza da evidência é muito baixa 4.

A diretriz brasileira aceita um caminho um pouco mais flexível para o diabetes tipo 2: interromper o remédio que não é insulina antes ou logo no início da gestação, desde que a troca pela insulina seja imediata 8. Na minha leitura, a posição da ADA e da diretriz conjunta e a da SBD cabem juntas: parar antes é o ideal quando a gravidez é planejada, e a flexibilidade da SBD protege quem descobre a gravidez já em uso.

Parar a caneta tem custo, e ele precisa entrar no plano. A glicose tende a subir e o peso tende a voltar, e a ADA recomenda avisar a mulher sobre esse reganho 1. Por isso a troca pela insulina começa antes, com tempo para ajustar a dose até a meta.

Os outros remédios. A ADA recomenda suspender antes da concepção os remédios de pressão da família dos inibidores da enzima conversora e dos bloqueadores do receptor da angiotensina, e, na maioria dos casos, os remédios para colesterol, como as estatinas 1. Em situações específicas, como colesterol familiar muito alto ou infarto prévio, a decisão sobre a estatina é individual 1. A diretriz brasileira considera manter a insulina de ação prolongada que a mulher já usava antes da gravidez 8.

Engravidou usando caneta? Numa revisão de 2026, estudos com quase 3 mil gestações de mulheres com diabetes tipo 2 expostas à caneta no início da gravidez não mostraram aumento de malformação, e os autores concluem que essa exposição não justifica indicar a interrupção da gravidez 5. O caminho é procurar o médico logo, para suspender a caneta, começar a insulina e iniciar o pré-natal.

Ácido fólico e o resto da preparação

Ácido fólico antes de engravidar. A ADA recomenda vitamina pré-natal com 400 a 800 microgramas de ácido fólico e 150 microgramas de iodeto de potássio antes da concepção 1. A SBD orienta o ácido fólico até a 12ª semana de gestação, para reduzir o risco de defeito do tubo neural 7. A dose certa para cada mulher é definida na consulta.

Olhos e rins. A gravidez pode fazer a retinopatia diabética piorar. A ADA recomenda exame de fundo de olho com dilatação antes da gravidez e no primeiro trimestre 1, e a avaliação da função dos rins com creatinina e albumina na urina faz parte da preparação 1,7.

Vacinas. A SBD lembra que a vacina tríplice viral, contra sarampo, caxumba e rubéola, é de vírus vivo e precisa ser feita pelo menos 3 a 6 meses antes da gestação 7.

Diabetes tipo 1: o sistema automatizado de insulina

Para mulheres com diabetes tipo 1 que planejam engravidar e não estão atingindo a meta, a SBD passou a recomendar os sistemas automatizados, as bombas de insulina que ajustam a dose sozinhas a partir do sensor de glicose, desde que a equipe tenha experiência com a tecnologia 7. Um consenso internacional de 2026, endossado por 24 sociedades, recomenda o mesmo para antes da concepção, durante a gestação e no parto 6.

O ganho que os estudos mostram está sobretudo à noite, com mais tempo da glicose na faixa certa durante o sono e menos hipoglicemia 7. O sistema não substitui o acompanhamento: ele precisa de ajuste para as metas da gravidez, que são mais baixas que as de fora dela.

Como a preparação entra na prática

A preparação começa com uma conversa de planejamento, de preferência meses antes de suspender a anticoncepção. Nela entram a glicada atual e a meta, a lista de remédios com o que sai e o que entra, o ácido fólico, os exames de olho e de rim, e o calendário das vacinas. A ADA recomenda que esse cuidado seja feito por equipe, com endocrinologista, obstetra, nutricionista e educador em diabetes quando possível 1.

Depois disso, o acompanhamento é de ajuste: glicose do dia a dia, de preferência com sensor, glicada repetida até a meta, e a dose de insulina subindo aos poucos. Quando a glicada chega ao alvo e se mantém, a anticoncepção pode ser suspensa. O tempo até lá varia muito, e depende de onde a glicada começa.

A escolha que é sua

Com a glicada acima de 9%, a recomendação é clara: adiar 7. A decisão de verdade aparece na faixa do meio, entre 6,5% e 9%, e principalmente em quem já passou dos 35 anos.

Um caminho é esperar até a meta. Ele poupa risco para o bebê, porque cada ponto a menos de glicada reduz a chance de malformação e de complicação 2,7. Custa tempo, e às vezes meses de insulina ajustada com cuidado, com o risco de hipoglicemia que vem junto.

O outro é tentar engravidar mais cedo, com a glicada perto, mas ainda acima, da meta. Ele poupa tempo, e esse tempo pode valer muito para a fertilidade de quem está perto dos 40. Custa um risco um pouco maior, que continua existindo mesmo com o melhor pré-natal.

Nenhum estudo mede o que decide entre os dois: quanto a idade pesa nos planos daquela mulher, quanto tempo ela está disposta a esperar, o que uma gravidez que demore mais a acontecer significa para ela e para o casal, e como ela convive com a rotina de insulina e glicose que o controle exige. Eu, pessoalmente, tendo a insistir na meta quando a glicada está perto de 8% ou mais. Mas essa é a minha inclinação, e não a recomendação: com a informação na mesa, o momento de engravidar é decisão dela.

Em resumo, o que eu diria numa consulta

A grande maioria das mulheres com diabetes tem bebês saudáveis 6, e o que mais pesa no resultado é a glicose no momento da concepção. O risco de malformação sobe de forma contínua com a glicada 2,3, e a SBD recomenda adiar a gravidez quando ela está acima de 9% 7. A meta antes de engravidar é uma glicada abaixo de 6,5% nas recomendações americanas e de 6,0% na brasileira, sem hipoglicemia 1,7, com anticoncepção eficaz até lá 1,4.

Os remédios mudam antes: a insulina é o tratamento da gravidez, a semaglutida sai pelo menos 2 meses antes 9, a tirzepatida pelo menos 1 mês antes pela bula brasileira 10, e os remédios de pressão e colesterol que não são seguros na gestação são trocados 1. O ácido fólico começa antes da concepção 1,7.

A frase para levar embora: a gravidez de quem tem diabetes começa a ser cuidada antes do teste positivo.

Se você tem diabetes e pensa em engravidar no próximo ano, a hora de marcar a consulta de planejamento é agora, antes de parar o anticoncepcional.

Quando procurar um endocrinologista

Vale procurar avaliação se você tem diabetes tipo 1 ou tipo 2 e pensa em engravidar, se a sua glicada está acima de 6,5%, se usa caneta de semaglutida ou tirzepatida, remédio para pressão ou estatina e quer engravidar, se já teve diabetes gestacional e planeja uma nova gravidez, se tem hipoglicemias frequentes com a insulina, ou se descobriu uma gravidez em uso de algum desses remédios. Na consulta dá para definir a meta, montar o plano de troca dos remédios e combinar os exames que faltam. Nenhuma troca de tratamento se decide pela internet: o que dá para levar daqui é o roteiro da conversa.


Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico ou a prescrição individualizada. Não suspenda insulina nem outro remédio do diabetes por conta própria: a troca antes da gravidez é feita com acompanhamento, para a glicose não subir no caminho.

Se você tem diabetes e quer planejar uma gravidez com segurança, agende uma avaliação com um endocrinologista.

Leia também

Fontes científicas

  1. American Diabetes Association Professional Practice Committee for Diabetes. 15. Management of Diabetes in Pregnancy: Standards of Care in Diabetes-2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S321-S338. doi:10.2337/dc26-S015.
    → https://doi.org/10.2337/dc26-S015 · PubMed 41358885
  2. Martin RB, Duryea EL, Ambia A, Ragsdale A, Mcintire D, Wells CE, et al. Congenital Malformation Risk According to Hemoglobin A1c Values in a Contemporary Cohort with Pregestational Diabetes. Am J Perinatol. 2021;38(12):1217-1222. doi:10.1055/s-0041-1730435.
    → https://doi.org/10.1055/s-0041-1730435 · PubMed 34087946
  3. Rotem RS, Weisskopf MG, Bateman B, Huybrechts K, Hernández-Díaz S. Maternal periconception hyperglycemia, preconception diabetes, and risk of major congenital malformations in offspring. Hum Reprod. 2024;39(12):2816-2829. doi:10.1093/humrep/deae233.
    → https://doi.org/10.1093/humrep/deae233 · PubMed 39406385
  4. Wyckoff JA, Lapolla A, Asias-Dinh BD, Barbour LA, Brown FM, Catalano PM, et al. Preexisting Diabetes and Pregnancy: An Endocrine Society and European Society of Endocrinology Joint Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2025;110(9):2405-2452. doi:10.1210/clinem/dgaf288.
    → https://doi.org/10.1210/clinem/dgaf288 · PubMed 40652453
  5. Amiri A, Hædersdal S, Damm P, Mathiesen ER, Ringholm L. Use of Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists in Women with Type 2 Diabetes Before Pregnancy: Addressing the Dilemma in A Real-World Setting. Curr Diab Rep. 2026;26(1). doi:10.1007/s11892-026-01632-7.
    → https://doi.org/10.1007/s11892-026-01632-7 · PubMed 42262435
  6. Benhalima K, Durnwald C, Sweeting A, Adams D, Addala A, Battelino T, et al. Application of continuous glucose monitoring and automated insulin delivery technologies for pregnant women with type 1, type 2, or gestational diabetes: an international consensus statement. Lancet Diabetes Endocrinol. 2026;14(2):157-177. doi:10.1016/S2213-8587(25)00335-3.
    → https://doi.org/10.1016/S2213-8587(25)00335-3 · PubMed 41421368
  7. Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Diretriz SBD, edição 2026: Planejamento, metas e monitorização do diabetes durante a gestação (recomendações R2, R3 e R4)
    → https://diretriz.diabetes.org.br/planejamento-metas-e-monitorizacao-do-diabetes-durante-a-gestacao/
  8. Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Diretriz SBD, edição 2026: Tratamento farmacológico do diabetes na gestação (recomendações R10 e R11)
    → https://diretriz.diabetes.org.br/tratamento-farmacologico-do-diabetes-na-gestacao/
  9. Ozempic (semaglutida), bula profissional brasileira, Novo Nordisk: item Gravidez
    → https://www.novonordisk.com.br/content/dam/nncorp/br/pt/pdfs/bulas/hcp/Ozempic_3mL_1mg_Bula_Profissional.pdf
  10. Mounjaro (tirzepatida), bula profissional brasileira, Eli Lilly, versão de junho de 2025: item Gravidez
    → https://assets.ctfassets.net/fhvti7ztpwfk/10E0tjCeDm318pz5fEmw3E/13ec5d6d38f1feb962964419e83d80dd/MOUNJARO_LIT_HCP_09Jun25.pdf

Fontes jornalísticas

Dúvidas dos leitores

Engravidei sem planejar e estava usando caneta de emagrecer. Preciso interromper a gravidez?

Não. Nos estudos com quase 3 mil gestações de mulheres com diabetes tipo 2 expostas à caneta no início da gravidez, o risco de malformação não foi maior do que nas gestações sem a caneta, e os autores escrevem que a evidência não sustenta indicar interrupção por causa dessa exposição. O que muda é o que vem a seguir: a caneta é suspensa, a glicose passa a ser controlada com insulina e o pré-natal começa sem esperar a próxima consulta de rotina. Procure quem acompanha o seu diabetes assim que souber da gravidez.

Tive diabetes gestacional na gravidez passada. Isso vale para mim?

Vale em parte. A recomendação americana é que quem teve diabetes gestacional faça rastreamento de diabetes antes de uma nova gravidez, porque parte dessas mulheres segue com a glicose alta depois do parto sem saber. Se o exame vier normal, a preparação é a de qualquer mulher que planeja engravidar. Se vier alterado, entra tudo o que este texto descreve: meta de glicada, anticoncepção até o controle e revisão dos remédios.

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