
Tenho diabetes e enxergo bem: preciso mesmo ir ao oftalmologista todo ano?
Em resumo: na maioria dos casos, sim. A retinopatia diabética pode ameaçar a visão sem dar sintoma nenhum 1, e o tratamento evita e às vezes reverte a perda visual quando ela é achada a tempo 1. No diabetes tipo 2 o primeiro exame de retina é feito no diagnóstico, e no tipo 1, depois de 5 anos de doença 1,8. A diretriz brasileira recomenda repetir todo ano quando não há retinopatia ou ela é leve 8; a americana aceita espaçar para cada 1 a 2 anos em quem teve exames normais e está com a glicose na meta 1. Na gravidez de quem já tinha diabetes, o exame passa a ser a cada trimestre 8. Quem vai começar caneta de semaglutida com a glicose muito alta há anos deve examinar a retina antes 3, e perda súbita de visão durante o tratamento pede avaliação oftalmológica imediata 9.
Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 16/09/2026
Contexto (o que saiu na mídia)
O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) lançou em 10/09, no congresso nacional da especialidade, um documento sobre a frequência ideal de consultas com o oftalmologista em cada fase da vida. Segundo a Agência Brasil, o texto destaca as pessoas com diabetes: recomenda exame com as pupilas dilatadas desde o diagnóstico e acompanhamento regular mesmo sem queixa na visão, e cita os usuários de canetas emagrecedoras pela possível associação com neuropatia óptica e com alterações da retinopatia. A mensagem está correta e merece ser detalhada, porque a pergunta que ela deixa em aberto é exatamente a que a pessoa faz: de quanto em quanto tempo, que exame, e o que a caneta tem a ver com isso.
Enxergar bem não quer dizer retina saudável
A retinopatia diabética é a lesão dos pequenos vasos da retina, a camada do fundo do olho que transforma luz em imagem. A diretriz americana de diabetes lembra que pessoas com retinopatia já ameaçando a visão podem não ter sintoma nenhum 1.
Quando a visão finalmente piora, em geral é porque o centro da retina inchou ou porque um vaso frágil sangrou dentro do olho. A diretriz brasileira justifica o rastreamento pela ausência de sintomas nas fases iniciais e pela eficácia do tratamento em prevenir a perda visual 8.
Na minha prática, "estou enxergando bem" é uma frase que atrasa esse exame com frequência. Ela é razoável para quem aprendeu que problema de vista se sente, e é exatamente o raciocínio que a retinopatia desmente.
Quando fazer o primeiro exame
Depende do tipo de diabetes, e a diferença tem uma razão simples: saber há quanto tempo a glicose está alta.
Diabetes tipo 2: no momento do diagnóstico 1,8. O diabetes tipo 2 costuma ficar anos sem ser descoberto, então a retina pode já ter lesão quando o exame de sangue finalmente aparece alterado. A diretriz brasileira cita um estudo em que, entre adultos que evoluíram de pré-diabetes para diabetes tipo 2, 12,6% já tinham retinopatia 3 anos depois do diagnóstico 8.
Diabetes tipo 1: 5 anos depois do início da doença, em adultos 1,8. Em crianças e adolescentes com diabetes tipo 1, a diretriz brasileira sugere considerar o rastreamento a partir dos 11 anos de idade, com 2 a 5 anos de diabetes 8.
Uma pergunta que eu faço na primeira consulta de quem tem diabetes tipo 2 é quando foi o último exame de fundo de olho com a pupila dilatada. A resposta frequente é o exame para trocar os óculos, que é outro exame, e é aí que a data real do rastreamento aparece.
Que exame é esse
Não é o exame de grau. A diretriz brasileira recomenda a avaliação inicial com as pupilas dilatadas, com retinografia (fotografias padronizadas da retina) ou mapeamento de retina, junto com a biomicroscopia de fundo, que é o exame do fundo do olho com lente no aparelho do oftalmologista 8.
A dilatação da pupila é o que permite examinar a retina com amplitude, e não só a pequena área visível pela pupila normal. O custo prático é conhecido: a visão fica embaçada e sensível à luz por algumas horas, e o dia do exame precisa de alguém para dirigir.
A fotografia da retina com leitura à distância também é aceita pelas duas diretrizes como forma de ampliar o acesso 1,8, e a americana inclui programas com leitura por inteligência artificial aprovados pela agência reguladora dos Estados Unidos 1. Esses programas precisam ter caminho rápido para o exame completo com o oftalmologista quando a foto mostra alteração 1.
Glicose alta muda o grau dos óculos temporariamente. Por isso a diretriz brasileira recomenda avaliar o controle da glicose antes do exame de refração 8, porque a lente receitada com a glicose descontrolada pode deixar de servir quando ela se acerta.
Todo ano ou a cada 2 anos: onde as diretrizes divergem
Aqui a diretriz brasileira e a americana escolheram caminhos diferentes, e a diferença é informação útil, não erro de nenhuma delas.
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) recomenda acompanhamento anual quando não há retinopatia ou ela é leve, e revisões mais frequentes quando ela é moderada ou grave 8. Para sustentar o intervalo anual, cita uma revisão sistemática com dados de 262.541 pessoas que concluiu que a evidência não apoiava aumentar o intervalo para além de 1 ano 8. O capítulo teve a última revisão em dezembro de 2021.
A Associação Americana de Diabetes (ADA), na edição de 2026, aceita considerar o exame a cada 1 a 2 anos se um ou mais exames anuais não mostraram retinopatia e a glicose está dentro da meta. Havendo qualquer grau de retinopatia, o exame volta a ser pelo menos anual 1.
Um dos dados que sustentam espaçar vem de pessoas com diabetes tipo 1 que tiveram a retina fotografada ao longo de 30 anos de acompanhamento 2. Com esses dados, os pesquisadores calcularam quanto tempo a retina costuma levar para chegar à fase que exige tratamento. Sem nenhuma retinopatia, essa chance ficou em cerca de 5% num intervalo de 4 anos; com retinopatia moderada, a mesma chance aparecia em 6 meses 2. O controle da glicose pesou muito: sem retinopatia, o risco de chegar à fase que exige tratamento foi de 1,0% em 5 anos com hemoglobina glicada de 6%, contra 4,3% em apenas 3 anos com glicada de 10% 2. O esquema individualizado reduziu em 58% o número de exames em 20 anos sem atrasar diagnósticos importantes 2.
Na minha leitura, os dois lados têm razão para o público que cada um enxerga. O dado americano mostra que, para quem tem retina limpa e glicose na meta, o risco de um intervalo maior é pequeno. O cuidado brasileiro leva em conta que a glicose de muita gente não fica estável por 2 anos seguidos, e que um exame espaçado também é um exame mais fácil de esquecer.
Anual ou a cada 2 anos: como essa escolha é feita
Para quem teve exames sem retinopatia e mantém a glicose na meta, as duas condutas são legítimas, e o que cada uma custa é diferente.
O exame anual custa uma consulta a mais por ano, a manhã com a vista embaçada pela dilatação, o transporte e, para quem depende do sistema público, a espera pela vaga. Em troca, poupa o risco de uma alteração nova ficar mais tempo sem ser vista, e mantém o exame como hábito fixo do calendário.
O exame a cada 2 anos poupa metade dessas idas e é sustentado por dados de quem tem retina limpa e glicose controlada 1,2. Ele cobra outra coisa: exige que a glicose continue de fato na meta durante todo o intervalo, e depende de a pessoa lembrar do exame depois de um ano inteiro sem ele.
O que decide não está em nenhum desses estudos. Pesa a facilidade de conseguir a consulta, se a pessoa tem com quem ir no dia da dilatação, quanto a glicose dela oscila na vida real e não só no último exame, e como ela convive com a ideia de passar 2 anos sem olhar a retina. Há quem durma melhor com o exame todo ano, e há quem prefira gastar essa energia em outra parte do tratamento. A minha preferência pessoal é pelo exame anual, porque vejo com frequência a glicose de um ano não ser a do ano seguinte; isso é uma preferência minha, e não a recomendação para todos.
Gravidez: o intervalo encurta
A gestação aumenta o risco de a retinopatia aparecer ou piorar em quem já tinha diabetes tipo 1 ou tipo 2 antes de engravidar. Para essas mulheres, a diretriz brasileira recomenda exame da retina a cada trimestre durante a gestação e durante o primeiro ano depois do parto 8, e a americana recomenda o exame antes da gravidez, no primeiro trimestre e, conforme o grau de retinopatia, a cada trimestre e até 1 ano depois do parto 1.
O melhor momento é antes de engravidar. Quem tem retinopatia deve estabilizar a lesão com tratamento antes da gestação, e a diretriz brasileira recomenda aconselhar sobre esse risco quem planeja engravidar 8.
O diabetes gestacional, aquele que surge durante a gravidez, é diferente: as mulheres que o desenvolvem não precisam de exame oftalmológico durante a gestação, porque não parecem ter risco maior de retinopatia 8.
Glicose que cai rápido e o que as canetas têm com isso
Baixar a glicose protege a retina a longo prazo 8, mas uma queda muito rápida pode piorar a retinopatia temporariamente. O fenômeno é conhecido desde os estudos com insulina, e é por isso que a diretriz brasileira recomenda considerar a avaliação da retina antes de começar o tratamento em quem tem diabetes mal controlado há muito tempo 8.
A semaglutida entrou nessa conversa por causa de um ensaio clínico de 2 anos com pessoas com diabetes tipo 2 de longa duração, glicose mal controlada e alto risco cardiovascular. A bula brasileira da semaglutida (Wegovy) descreve que complicações da retinopatia ocorreram em 3,0% de quem usou semaglutida e em 1,8% de quem recebeu uma injeção sem o remédio, que a diferença apareceu cedo e que isso foi observado em pacientes que usavam insulina e já tinham retinopatia conhecida 9. A mesma bula informa que não há experiência com o remédio em quem tem retinopatia diabética não controlada ou instável, e não recomenda o uso nessas pessoas 9.
O conjunto dos estudos aponta para a velocidade da queda da glicose, e não para um efeito tóxico do remédio na retina. Uma revisão sistemática de 2026 encontrou esse sinal só naquele ensaio, e nenhum outro ensaio clínico mostrou progressão maior da retinopatia com essa classe de remédios 4. Um consenso europeu de oftalmologistas e especialistas em diabetes chegou à mesma leitura e concluiu que os benefícios superam os riscos oculares, desde que a retina seja examinada antes de começar, principalmente em quem tem mais de 10 anos de diabetes ou hemoglobina glicada acima de 10% 3.
Na prática, o que eu faço antes de iniciar semaglutida em alguém com diabetes de longa data e glicada muito alta é conferir quando foi o último exame de retina e, se ele não for recente, pedir antes de começar. O erro comum nessa situação é começar a caneta sem saber como a retina estava no dia zero, e ele se evita com um pedido de exame.
Neuropatia óptica: o risco raro que a bula passou a citar
A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica é uma falta de circulação no nervo óptico, que se apresenta como perda súbita de visão, em geral em um olho só e sem dor. A bula brasileira da semaglutida para obesidade incluiu essa condição nas advertências: estudos epidemiológicos indicam risco aumentado durante o tratamento, sem um prazo definido para quando pode aparecer, com cerca de 1 caso a mais a cada 10.000 pessoas tratadas por ano em adultos com diabetes tipo 2 9. A orientação da bula é que perda súbita de visão leve a exame oftalmológico, e que o remédio seja suspenso se o diagnóstico for confirmado 9.
O risco absoluto é baixo nas análises que o calcularam. Uma metanálise de estudos observacionais em diabetes tipo 2 estimou um risco absoluto de 0,014%, cerca de 1 caso a mais a cada 7.000 pessoas tratadas por ano 5. Outra, que separou os dados por indicação, encontrou cerca de 27 casos a cada 100 mil pessoas por ano com semaglutida contra 19 sem ela nos estudos observacionais de diabetes, e não encontrou aumento de risco nos estudos de uso para emagrecimento nem nos ensaios clínicos 6. Uma terceira classificou a certeza da evidência como baixa ou muito baixa e mostrou que o resultado mudava ao retirar um único estudo 7.
Na minha leitura, isso não é motivo para deixar de usar o remédio, e é motivo para duas atitudes concretas: contar à pessoa que esse risco existe e o que fazer se a visão cair de repente, e redobrar a conversa com quem já perdeu a visão de um olho ou já teve essa neuropatia, que é o cenário em que o consenso europeu recomenda discutir o risco antes de prescrever 3.
O que protege a retina além do exame
O exame acha a lesão; quem reduz a chance de ela aparecer é o tratamento do diabetes. A diretriz brasileira recomenda otimizar o controle da glicose e o da pressão arterial para reduzir o risco e retardar a progressão da retinopatia 8. Os números de glicada de 6% e de 10% da seção sobre o intervalo dos exames mostram o tamanho dessa diferença 2.
Quando a retinopatia chega a uma fase que ameaça a visão, há tratamento eficaz. A diretriz americana indica encaminhamento rápido ao especialista em retina, laser para as formas mais graves e injeções de medicamento dentro do olho, que são hoje o tratamento de primeira linha para o inchaço do centro da retina que prejudica a visão 1. O rastreamento existe para que a lesão seja encontrada enquanto esse tratamento ainda pode prevenir a perda de visão 8.
Em resumo, o que eu diria numa consulta
O exame de retina é o único jeito de saber como estão os vasos do fundo do olho, porque a retinopatia pode ameaçar a visão sem nenhum sintoma 1. Quem tem diabetes tipo 2 faz o primeiro no diagnóstico, e quem tem tipo 1 aos 5 anos de doença 1,8. Depois, o padrão brasileiro é anual 8; espaçar para 2 anos é aceitável pela diretriz americana só para quem teve exames normais e mantém a glicose na meta 1,2. Na gravidez de quem já tinha diabetes, o exame vai para cada trimestre 8. A semaglutida pede exame de retina antes do início em quem tem diabetes antigo e glicose muito alta 3,8, e perda súbita de visão durante o uso pede avaliação imediata 9, com risco absoluto baixo de neuropatia óptica 5,6.
A frase para levar: enxergar bem não é o resultado do exame de retina, e a data do seu último fundo de olho com a pupila dilatada vale tanto quanto a sua última hemoglobina glicada. Se você não lembra quando fez o seu, esse é o assunto da próxima consulta.
Quando procurar um endocrinologista
Vale marcar uma avaliação se você tem diabetes e não sabe quando fez o último exame de retina com a pupila dilatada; se recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 2 e ainda não examinou a retina; se tem diabetes tipo 1 há mais de 5 anos sem esse acompanhamento; se está planejando engravidar e já tem diabetes; se a hemoglobina glicada está muito alta há anos e você vai começar ou intensificar o tratamento, inclusive com caneta; se tem retinopatia e pressão alta ao mesmo tempo; e se usa semaglutida e tem dúvida sobre o que observar na visão. Perda súbita de visão, sombra que cobre parte do campo visual ou muitos pontos escuros novos pedem atendimento oftalmológico no mesmo dia. Este texto não substitui a avaliação individual e não prescreve tratamento pela internet.
Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o exame oftalmológico nem a avaliação individual. Nenhuma medicação para diabetes ou obesidade deve ser iniciada, ajustada ou suspensa por conta própria.
Se você tem diabetes e quer organizar os exames de acompanhamento e o tratamento, agende uma avaliação com um endocrinologista.
Leia também
Fontes científicas
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→ https://www.novonordisk.com.br/content/dam/nncorp/br/pt/pdfs/bulas/hcp/Wegovy_Bula_Profissional.pdf
Fontes jornalísticas
- Agência Brasil: Saiba qual é a rotina ideal de consultas para cuidar da visão (10/09/2026) → https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-09/saiba-qual-e-rotina-ideal-de-consultas-para-cuidar-da-visao
Dúvidas dos leitores
Fiz exame de vista para trocar os óculos. Isso já conta como o exame da retina?
Não necessariamente. O exame de grau mede quanto a lente precisa corrigir, e a retinopatia diabética é procurada no fundo do olho, com a pupila dilatada e com mapeamento de retina ou retinografia, que é a fotografia padronizada da retina. Vale perguntar ao oftalmologista se o fundo de olho foi examinado com dilatação. Um detalhe prático: a glicose alta muda o grau temporariamente, e a diretriz brasileira recomenda avaliar o controle da glicose antes do exame para óculos, porque a receita feita com a glicose descontrolada pode não servir depois que ela se acerta.
Uso semaglutida e minha visão ficou embaçada. Devo parar a caneta?
Não suspenda por conta própria, mas não espere a próxima consulta de rotina. Perda súbita de visão, em um olho ou nos dois, pede avaliação oftalmológica sem demora, e é o próprio exame que define se há relação com o remédio. Visão que embaça e melhora ao longo dos dias pode ser mudança de grau acompanhando a variação da glicose, que também precisa ser avaliada. Avise quem prescreveu a caneta, porque a decisão de manter, ajustar ou suspender depende do que o oftalmologista encontrar.
Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.