
Caneta de emagrecimento e perda de músculo: o que os estudos mostram e o que muda o resultado
Em resumo: na média dos estudos, entre 25% e 35% do peso perdido com essas medicações é massa magra, proporção parecida com a de quem emagrece com placebo ou só com mudança de estilo de vida1,2. Ensaios isolados variam de 15% a 60%6. O fenômeno é do emagrecimento, não do medicamento. A única condição que melhorou esse número de forma relevante foi somar treino de força, que levou a proporção para 17,5%1. A proteína entra pela diretriz brasileira, não por esse cálculo8. A diretriz brasileira recomenda treino resistido de 2 a 3 vezes por semana e 1 a 1,2 g de proteína por quilo de peso por dia para quem tem mais risco8.
Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 21/09/2026
Quem está usando uma caneta de emagrecimento quase sempre chega à consulta com a mesma frase pronta, ouvida de alguém ou lida em algum lugar: "mas isso derrete músculo". A preocupação é legítima e o número por trás dela é real. O que costuma faltar é o comparador, e é ele que muda a leitura inteira.
O que os estudos mostram
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2026 reuniu 20 ensaios clínicos randomizados e 15.782 participantes, todos com composição corporal medida por densitometria ou ressonância, e calculou quanto do peso perdido foi massa magra 1. Com semaglutida, 35,2%. Com tirzepatida, 25,4%. Com liraglutida, 26,8%.
O número seguinte é o que importa: nas intervenções de estilo de vida, sem medicamento nenhum, a proporção foi 26,2%, e os autores não encontraram diferença entre emagrecer com medicamento e emagrecer sem ele 1.
Um subestudo do SURMOUNT-1 conta a mesma história por outro caminho. Nele, 160 dos 2.539 participantes fizeram densitometria no início e 72 semanas depois, 124 em uso de tirzepatida e 36 em placebo, com a análise das proporções feita depois de o estudo terminar. Quem recebeu tirzepatida perdeu 21,3% do peso, com queda de 33,9% da massa gorda e de 10,9% da massa magra. Quem recebeu placebo perdeu 5,3% do peso, com queda de 8,2% da gordura e de 2,6% da massa magra. As magnitudes são muito diferentes, mas a divisão do que foi perdido é praticamente a mesma nos dois grupos: cerca de 75% de gordura e 25% de massa magra 2.
Antes da leitura, um cuidado que o próprio campo impõe. Uma revisão de 2024 sobre massa magra com essas medicações mostra que os ensaios não convergem: em alguns, a massa magra responde por 40% a 60% do peso perdido; em outros, por 15% ou menos6. As médias acima são a melhor síntese disponível hoje, não um número fixo que se aplique a cada pessoa. Diferenças de população, de método de medida e de tempo de estudo explicam boa parte dessa variação.
Na minha leitura, com essa ressalva, é esse par de resultados que responde à pergunta do título. Perder massa magra junto com gordura não é um efeito do medicamento sobre o músculo: é como o corpo humano emagrece, com caneta, com dieta ou com placebo. O que o medicamento faz é aumentar o tamanho da perda de peso, e a massa magra acompanha na mesma proporção.
Massa magra não é a mesma coisa que músculo
Essa distinção é técnica e muda a conversa. A densitometria não mede músculo: ela mede massa livre de gordura, que inclui não só músculo, mas também órgãos, osso, fluidos e a água contida no tecido gorduroso6. Quem tem obesidade carrega mais massa magra estrutural justamente porque carrega mais peso, e parte dela deixa de ser necessária quando o peso cai. A mesma revisão, usando ressonância, descreve as mudanças musculares com essas medicações como adaptativas: a redução de volume acompanha o que se esperaria pela idade, pela doença e pelo tanto de peso perdido, e vem junto de melhora da sensibilidade à insulina e de menos gordura infiltrada no músculo6.
Por isso a diretriz brasileira8 avalia primeiro a força, com preensão palmar ou o teste de sentar e levantar da cadeira, e só então confirma o diagnóstico pela composição corporal, com densitometria ou bioimpedância. A ordem importa: o número de massa magra sozinho, sem queda de força, não define o problema. Na prática do consultório, é isso que eu faço: um número que caiu, numa pessoa que está subindo escada melhor do que subia e carregando a compra sem apoio, não é o mesmo problema que uma queda de força medida.
O que muda o resultado
Na mesma meta-análise, o grupo que juntou mudança de estilo de vida com treino resistido teve o perfil mais favorável de todos: 17,5% do peso perdido como massa magra, contra os 25% a 35% dos demais1. Vale a precisão: o que esse grupo tinha a mais era o treino. Proteína não foi um braço do estudo nem uma variável medida ali, e aparece na conclusão dos autores como recomendação, não como resultado. É a única condição do conjunto que deslocou a proporção para baixo de forma relevante.
O ensaio mais direto sobre isso é de 2017, no New England Journal of Medicine, com 160 pessoas idosas com obesidade num programa de 6 meses de perda de peso, sorteadas para aeróbio, resistido, os dois combinados, ou nenhum. Quem fez resistido ou a combinação perdeu bem menos massa magra do que quem fez só aeróbio: 2% e 3% contra 5%. A capacidade física medida melhorou mais no grupo que combinou os dois do que em qualquer um isolado, e a densidade óssea do quadril seguiu o mesmo padrão7. O estudo é anterior às canetas e foi feito com dieta, o que limita a transposição direta; o que ele mostra com sorteio é que o tipo de exercício muda a composição do que se perde.
Uma revisão publicada em Diabetes Care, de um grupo australiano, mede o outro lado da mesma moeda: programas supervisionados de treino de força com mais de 10 semanas produzem aumentos de cerca de 3 kg de massa magra e de cerca de 25% na força, em homens e mulheres 3. Os autores propõem que o treino resistido seja recomendado como parte do tratamento com essas medicações, e não como conselho genérico de saúde.
Os dois achados não têm o mesmo peso. A meta-análise compara grupos sorteados dentro de ensaios clínicos; a revisão de Diabetes Care é narrativa e reúne o que se sabe de treino de força em geral, boa parte fora do contexto de quem está usando essas medicações. O estudo que faltaria, com sorteio e com força medida como desfecho, ainda é escasso: uma revisão de 2026 sobre músculo durante essas terapias registra que os dados de função e os de pessoas idosas seguem limitados5. A limitação é real e não desfaz o número da meta-análise.
O que diz a diretriz brasileira
A Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), em sua edição de 2026, é direta nos dois pontos8.
Sobre exercício, recomenda treinamento resistido de 2 a 3 vezes por semana, idealmente combinado ao exercício aeróbio, para minimizar a perda de massa magra e otimizar as mudanças na composição corporal8.
Sobre proteína, recomenda 1 a 1,2 g por quilo de peso por dia para auxiliar na preservação da massa magra em pessoas idosas ou com obesidade sarcopênica, registra no texto que acima dos 65 anos esse valor pode chegar a 1,5 g por quilo na ausência de contraindicação, e acrescenta que acima de 1,4 g por quilo a prescrição deve ser feita com cautela e de forma individualizada, considerando a função renal8.
Circula pela internet, atribuída à diretriz, uma faixa mais alta, de 1,2 a 1,6 g por quilo. Essa faixa não é invenção: ela aparece em publicações internacionais de nutrição clínica, que propõem pelo menos 1,2 g por quilo, chegando a 1,6 g em adultos selecionados e sem doença renal crônica4. O que está errado é a atribuição, não o número.
A divergência entre as fontes é o conteúdo, e eu não escolho vencedora: a brasileira é mais conservadora que a internacional e endereça a recomendação a um grupo específico, em vez de a todo mundo que começa o tratamento. Quem decide onde você entra nessa faixa precisa saber como estão os seus rins, e isso é exame, não regra geral.
Como isso entra na consulta
Quando alguém inicia uma dessas medicações comigo, o combinado sobre músculo é feito antes da primeira aplicação, não depois que a roupa já ficou larga. Ele tem três partes, e nenhuma delas é um exame.
A primeira é o treino de força começar junto com o medicamento, ou antes dele, e não "quando der". A janela em que a maior parte do peso sai é a mesma em que o estímulo de força precisa existir, e recuperar massa depois custa mais caro do que preservar durante.
A segunda é a proteína ser distribuída ao longo do dia, e não concentrada numa refeição. Com o apetite reduzido, o risco para a maioria não é comer proteína demais: é comer pouco de tudo, porque a saciedade chega cedo, e a proteína ser a primeira a cair do prato. Quem tem doença renal é a exceção, e nesse caso a faixa não se estima em casa, é definida por quem acompanha.
A terceira é acompanhar a força, não só a balança. Levantar da cadeira sem usar os braços, subir um lance de escada, carregar peso na mão: são medidas grosseiras, gratuitas, e mudam antes de qualquer exame ficar alterado.
A escolha que é sua
Existe uma decisão legítima aqui, e ela não é técnica. Emagrecer com essas medicações vai custar massa magra, em proporção parecida com a de qualquer outro emagrecimento, e reduzir esse custo exige treino de força com regularidade, o que significa tempo, deslocamento, dinheiro e uma rotina que nem todo mundo tem neste momento da vida.
O que os estudos medem é a proporção de massa magra perdida. O que eles não medem é o que cabe na sua semana, quanto custa uma academia perto da sua casa, se você tem com quem deixar as crianças, e se o joelho que dói há 2 anos permite começar por musculação ou vai exigir passar antes por outro profissional. Nenhum estudo mede essas coisas, e são exatamente elas que decidem se o plano vai acontecer.
Eu prefiro começar o medicamento junto com o treino, e digo isso abertamente. Mas isso é preferência minha, não recomendação: adiar o início até organizar o treino é uma escolha defensável para quem tem risco baixo e consegue esperar algumas semanas, e não é defensável para quem tem diabetes descompensado ou doença cardiovascular esperando tratamento. Onde você está entre esses dois extremos é o que muda a resposta, e isso se decide na consulta, com os seus números na frente.
Em resumo, o que eu diria numa consulta
Na média dos estudos, entre 25% e 35% do peso que sai com essas medicações é massa magra, e proporção parecida aparece em quem emagrece com placebo ou só com mudança de estilo de vida. Entre ensaios isolados o número varia bastante, de 15% a 60%, então trate essas médias como ordem de grandeza e não como promessa para o seu caso. Isso significa que a caneta não tem um efeito próprio de consumir músculo: ela aumenta a perda de peso, e a composição do que se perde segue a regra de sempre. O número cai para perto de 17% quando entra treino resistido, e essa é a intervenção com o melhor resultado medido.
O risco que existe é real e tem endereço: pessoas acima dos 60 anos, quem já tinha pouca massa muscular antes de começar, e quem emagrece muito rápido sem nenhum estímulo de força. Para esses casos a conduta é somar treino de força de 2 a 3 vezes por semana e garantir proteína suficiente ao longo do dia, nas faixas que a diretriz brasileira define, e acompanhar força de verdade, não só o peso.
Se você fosse levar uma frase embora, levaria esta: o problema quase nunca é a caneta, é emagrecer sem treinar.
E se você se reconheceu aqui, porque está no meio do tratamento e ninguém tocou nesse assunto com você, essa conversa cabe na próxima consulta. É ajuste de plano, não recomeço.
Quando procurar um endocrinologista
Procure avaliação se você notar perda de força para tarefas que antes fazia sem esforço, como levantar de uma cadeira baixa sem apoiar as mãos, subir escadas ou carregar sacolas; se estiver perdendo peso muito rápido; se tiver mais de 60 anos e estiver em tratamento com essas medicações sem acompanhamento nutricional e de exercício; ou se surgirem quedas, tonturas ao levantar ou cansaço desproporcional. Nenhuma dessas situações é motivo para parar o medicamento por conta própria: elas são motivo para ajustar o plano com quem acompanha você.
Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica nem o diagnóstico individualizado. As faixas de proteína, a frequência de treino e os números de composição corporal citados aqui vêm de diretrizes e de estudos científicos e não valem como prescrição: quem define o que se aplica a você é o médico que conhece o seu caso. As medicações citadas são de prescrição médica e nenhuma dose deve ser iniciada, ajustada ou interrompida sem avaliação profissional.
Se você está usando uma caneta de emagrecimento e ninguém conversou com você sobre músculo, força e proteína, agende uma avaliação com um endocrinologista.
Leia também
Fontes científicas
- Eisa N, Barood O. Lean Mass Changes With Incretin Therapy Versus Lifestyle Intervention: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomised Controlled Trials. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2026;28(6):4818-4827. doi:10.1111/dom.70666.
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→ https://doi.org/10.1056/NEJMoa1616338 · PubMed 28514618 - Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, ABESO 2026, seção de obesidade sarcopênica e preservação de massa magra (páginas 64 e 65)
→ https://abeso.org.br/wp-content/uploads/2026/03/Diretrizes-ABESO_completo_20260320.pdf
Dúvidas dos leitores
Preciso fazer bioimpedância ou densitometria antes de começar a caneta?
A densitometria em si não é obrigatória, mas existe uma recomendação anterior a ela: a diretriz brasileira orienta que todas as pessoas com obesidade acima de 60 anos, ou em risco de sarcopenia, sejam avaliadas quanto à presença de sarcopenia antes de iniciar tratamento farmacológico. Essa avaliação pode ser feita por questionário e teste de força, sem exame de imagem. A diretriz brasileira cita densitometria de corpo todo ou bioimpedância para avaliar composição corporal, e sugere confirmar a suspeita pela força, com o teste de preensão palmar ou o de sentar e levantar da cadeira. Na prática, medir a força é mais barato, mais rápido e informa mais sobre o que importa no dia a dia.
Se eu tomar muita proteína, consigo não perder nada de músculo?
Não. Nos estudos, proteína adequada e treino de força reduzem a perda, não a zeram. A comparação mais favorável da meta-análise foi a de quem juntou mudança de estilo de vida com treino resistido, e mesmo nesse grupo cerca de 17% do peso perdido ainda foi massa magra. Vale dizer também que mais proteína não é sempre melhor: a diretriz brasileira coloca acima de 1,4 g por quilo de peso por dia como algo a prescrever com cautela e de forma individualizada, olhando a função dos rins.
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