
Parei a caneta e o peso voltou: por que isso acontece
Em resumo: quando a medicação para, o peso sobe de novo, e isso já foi medido com precisão. Um ano depois de suspender a semaglutida, os participantes tinham recuperado dois terços do que haviam perdido 1. Com a tirzepatida, quem trocou o remédio por placebo ganhou 14,0% do peso em 1 ano, enquanto quem continuou perdeu mais 5,5% 2. A reunião de 8 ensaios com 2.372 pessoas encontrou reganho de 9,69 kg com semaglutida ou tirzepatida, e ele aconteceu independentemente do acompanhamento de estilo de vida associado 3. O que explica isso não é falta de caráter: é uma resposta biológica organizada, com fome maior e gasto de energia menor, que dura enquanto o peso estiver abaixo do que o corpo aprendeu a defender.
Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 06/09/2026
Contexto: o que saiu na mídia
Nesta semana circularam reportagens sobre o efeito sanfona e sobre o uso das canetas sem prescrição, com uma pergunta em comum: por que o peso volta. É a mesma pergunta que chega ao consultório, geralmente com culpa embutida, na forma de "eu não consegui manter".
A resposta curta é que o peso volta porque a doença continua ali. A resposta longa, que é a que muda conduta, envolve saber quanto volta, quando volta, e o que existe de fato para reduzir esse retorno. A manchete do "efeito sanfona" acerta no diagnóstico e erra no tom quando sugere que a oscilação é um desvio de comportamento. Ela é, na maior parte, fisiologia.
Quanto peso volta, em números
Um ano depois de parar a semaglutida, dois terços do peso perdido tinham voltado. O estudo que mediu isso foi a extensão do STEP 1, e o ensaio original tinha distribuído 1.961 adultos com obesidade, ou com sobrepeso e ao menos uma doença ligada ao peso, todos sem diabetes, entre semaglutida 2,4 mg por semana e placebo, junto com orientação de estilo de vida, por 68 semanas. Ao fim desse período, tudo foi interrompido, remédio e acompanhamento, e 327 participantes seguiram sendo pesados por mais 1 ano 1.
Quem usou semaglutida havia perdido 17,3% do peso. Depois da suspensão, recuperou 11,6 pontos percentuais, terminando com uma perda líquida de 5,6% em relação ao ponto de partida. As melhorias de cintura, pressão, glicose e colesterol acompanharam o peso e voltaram na direção do valor inicial 1.
Com a tirzepatida, quem parou ganhou peso e quem continuou seguiu perdendo, e essa comparação foi feita lado a lado. No SURMOUNT-4, os 670 participantes usaram a medicação abertamente por 36 semanas e perderam 20,9%. Só então foram sorteados entre continuar o tratamento ou receber placebo. Da semana 36 à 88, quem continuou perdeu mais 5,5%, e quem passou ao placebo ganhou 14,0% 2. E 89,5% de quem seguiu com a medicação preservou pelo menos 80% do que tinha perdido, contra 16,6% de quem parou 2.
Juntando os ensaios disponíveis, a revisão sistemática de 8 estudos com 2.372 participantes encontrou um reganho médio de 9,69 kg com semaglutida ou tirzepatida e de 2,20 kg com liraglutida, e o reganho foi proporcional ao que cada pessoa havia perdido 3. Quem perdeu mais tende a recuperar mais, em quilos, o que não é castigo por ter respondido bem, e sim aritmética de um corpo defendendo um peso maior.
Quando o peso começa a voltar
A subida não espera o remédio sair completamente do organismo. Ela costuma começar nas primeiras semanas e se concentra nos primeiros 3 meses após a interrupção 6. Com essa classe de medicação, o peso às vezes continua caindo por algumas semanas depois da última aplicação, porque o efeito ainda persiste, e só então a curva se inverte 6. Quem interpreta essas semanas como sinal de que "deu certo, não preciso mais" costuma ser surpreendido no mês seguinte.
Na vida real, fora do ambiente controlado do ensaio clínico, a variação entre pessoas é grande, e parte considerável mantém ou até segue perdendo peso, com frequência porque reiniciou a medicação, trocou de estratégia ou entrou em outro tipo de acompanhamento 10. Média de estudo é bússola, não profecia individual.
Por que o corpo puxa o peso de volta
O reganho depois de uma perda intencional não é recaída de comportamento: é uma defesa neuroendócrina ativa e coordenada do peso anterior 7.
Ela funciona em duas frentes ao mesmo tempo. De um lado, o gasto de energia cai mais do que se esperaria pela perda de massa corporal, e essa redução persiste enquanto o peso reduzido for mantido, o que obriga a uma restrição de calorias que não termina nunca 8. De outro, os sinais de apetite mudam de lado: a grelina, que dá fome, sobe, e os hormônios que dão saciedade caem, entre eles a leptina, a colecistocinina, a insulina e o próprio GLP-1 que o intestino fabrica, que é o hormônio natural imitado pelas canetas 7,8. As revisões do assunto registram que essas alterações ainda estavam presentes 1 ano depois da perda de peso, ou seja, não eram um susto passageiro 7.
O cérebro integra tudo isso. Circuitos do hipotálamo e do tronco cerebral somam esses sinais e produzem mais fome com menos saciedade, e a conversa com as vias de recompensa aumenta a resposta à comida palatável e reduz o freio 7. A pessoa não passa a querer comer mais por fraqueza. Ela está com um sistema inteiro puxando na direção contrária.
Costumo dizer isso na consulta com uma comparação que ajuda: o corpo trata a perda de peso como se fosse escassez de alimento, não como uma conquista estética. Ele não sabe que o emagrecimento foi voluntário.
O que o STEP 1 suspendeu, além do remédio
Na extensão do STEP 1, o que foi suspenso na semana 68 não foi só a medicação: a intervenção de estilo de vida também parou 1. Isso importa na hora de ler o resultado, porque o desenho mediu o abandono do tratamento inteiro, não o de um comprimido isolado.
Não é que o dado esteja errado, e o SURMOUNT-4 confirma a direção mantendo dieta e atividade física nos dois grupos 2. Mas a leitura honesta é esta: os ensaios mostram o que acontece quando o tratamento termina, e a pergunta de quem está no consultório costuma ser outra, mais próxima de "e se eu parar o remédio, mas mantiver tudo o mais". Essa versão tem menos evidência do que a confiança com que costuma ser respondida, nos dois sentidos.
Continuar, reduzir a dose ou parar
A recomendação mais atual é explícita, e trata a obesidade como doença crônica e recidivante, comparável à hipertensão: a farmacoterapia normalmente continua depois que a meta é atingida, porque é isso que sustenta tanto o peso quanto o ganho cardiometabólico 11. A continuidade de longo prazo é o cenário padrão, e a escolha é feita em conjunto com o paciente, entre três caminhos: manter a medicação na menor dose que ainda funcione, usá-la de forma intermitente, ou suspender com monitoramento próximo do peso 11.
Entre as alternativas, a evidência não é distribuída por igual. Continuar o tratamento é a única estratégia com sustentação forte para evitar o retorno do peso, e a manutenção com dose fixa menor oferece proteção parcial 5,6. As demais medidas, incluindo desmame gradual e uso intermitente, servem para atenuar o reganho, não para impedi-lo de forma confiável 5.
Na minha leitura, o valor prático dessa recomendação está menos no "continue" e mais no fato de a decisão ser nomeada como decisão. Existe diferença enorme entre parar por escolha, com plano e com data de reavaliação, e parar por falta de acesso, sem ninguém acompanhar o que vem depois.
O que o exercício e a proteína conseguem, e o que não conseguem
Um ensaio foi desenhado exatamente para separar o efeito do exercício do efeito da medicação na manutenção. Adultos com obesidade e sem diabetes fizeram 8 semanas de dieta de baixa caloria, perderam em média 13,1 kg, e só então foram sorteados para 1 ano em quatro caminhos: programa de exercício com placebo, liraglutida 3,0 mg por dia sozinha, exercício e liraglutida juntos, ou placebo com atividade habitual 9. A medicação testada ali foi a liraglutida, da mesma família das canetas atuais e menos potente que elas.
Ao fim de 1 ano, comparados ao grupo placebo, o exercício isolado preservou 4,1 kg a mais, a medicação isolada preservou 6,8 kg a mais, e a combinação preservou 9,5 kg a mais 9. Ou seja, exercício estruturado funciona de verdade para manter, funciona um pouco menos que a medicação, e o melhor resultado veio dos dois juntos, o que é diferente de escolher entre um e outro.
Ao mesmo tempo, é preciso dizer o que a revisão dos ensaios de suspensão encontrou: o reganho apareceu independentemente da intervenção de estilo de vida que acompanhava o tratamento 3. Não é contradição. É questão de tamanho de efeito: o exercício reduz a queda, não a anula, e sozinho ele não substitui o que a medicação fazia.
A orientação de continuar ativo depois de parar vem em boa parte de registros de pessoas que mantiveram perdas grandes por conta própria, com atividade física diária, automonitoramento e alimentação com pouco alimento ultraprocessado, e a própria diretriz que a cita registra que esse conjunto ainda não foi validado especificamente para quem vem de uma dessas medicações 11. Prefiro apresentar assim, com a lacuna à mostra, do que vender como certeza.
Na prática, o que eu considero inegociável no período de perda e de manutenção é treino de força e proteína suficiente, justamente porque a parte do peso que ninguém quer recuperar é gordura, e a parte que ninguém quer perder é músculo.
O que muda no Brasil
Duas coisas locais mudam essa conversa. A primeira é o acesso: essas medicações não foram incorporadas ao SUS, decisão que as três sociedades da área contestaram em nota conjunta 13, e o tratamento sai do próprio bolso, e a interrupção por preço é uma das razões mais comuns para parar 4, o que transforma uma decisão clínica em decisão orçamentária. A segunda é que a diretriz brasileira vigente de tratamento farmacológico da obesidade organiza as recomendações por risco cardiovascular e por cenário clínico, e reconhece que os resultados de longo prazo do tratamento da obesidade costumam ser modestos 12.
Isso deixa a decisão do que fazer depois da meta mais dependente da conversa entre médico e paciente do que gostaríamos. É um bom motivo para essa conversa acontecer no começo, e não quando a caixa acaba.
O que pesa na hora de decidir
Quando alguém atinge a meta e pergunta se pode parar, eu ponho na mesa o que cada caminho custa e o que cada um poupa, e não decido sozinho.
Continuar custa dinheiro todo mês, mantém os efeitos digestivos que a pessoa já conhece e significa aceitar um tratamento sem prazo para acabar, o que para muita gente é a parte mais difícil de engolir. Em troca, poupa o retorno do peso e das alterações de pressão, glicose e colesterol que vieram junto 1,2.
Reduzir para a menor dose eficaz custa alguma perda de proteção e exige aceitar um resultado intermediário, mas poupa parte do gasto e da carga de efeitos 5,6. Parar custa o reganho provável e a frustração que vem com ele, e poupa o custo financeiro e a sensação de depender de uma injeção para sempre.
O que decide entre essas três coisas não está em estudo nenhum: é quanto aquele orçamento aguenta sem virar dívida, o quanto a ideia de tratamento contínuo pesa para aquela pessoa, o que ela já viveu em tentativas anteriores, e se existe rede para acompanhá-la de perto caso o peso comece a subir. Eu tenho preferência por manter o tratamento em quem já teve reganho documentado antes, e essa preferência é minha, não é a recomendação. A escolha é de quem vai conviver com ela.
Em resumo, o que eu diria numa consulta
O peso volta depois que a medicação para, e isso está medido: dois terços da perda em 1 ano com semaglutida 1, e 14,0% de ganho contra 5,5% de perda adicional na comparação direta da tirzepatida 2. Volta porque o organismo defende ativamente o peso anterior, com mais fome e menos gasto, e essa defesa não expira sozinha com o tempo 7,8.
Do lado do que fazer: continuar o tratamento é o que mais protege, a dose menor de manutenção protege em parte, e exercício estruturado com proteína adequada acrescenta um efeito real, ainda que menor que o da medicação, e melhor ainda quando somado a ela 9. Quem decide parar merece um plano com data de reavaliação e balança, não um "boa sorte".
A frase que eu gostaria que ficasse é esta: recuperar peso depois de suspender o tratamento não é prova de fracasso pessoal, é o comportamento esperado de uma doença crônica quando o tratamento é retirado. E, se você se reconheceu nesse ciclo de perder e recuperar, ele não é o fim da linha: é a informação que faltava para montar um plano diferente do anterior.
Vale procurar um endocrinologista se você está em uso de medicação para obesidade e ainda não conversou sobre o que acontece depois da meta, se parou recentemente e já percebeu o peso subindo, se interrompeu por causa do preço e não tem acompanhamento, se o ciclo de perder e recuperar já se repetiu várias vezes, ou se apareceram sintomas novos junto com o reganho, como cansaço acentuado, retorno de apneia do sono ou piora de exames que já haviam melhorado. Nada aqui substitui uma avaliação individual, e não se ajusta nem se suspende medicação pela internet.
Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico ou o tratamento individualizado. As medicações citadas exigem prescrição, acompanhamento e avaliação de contraindicações.
Se você está em tratamento para obesidade e quer discutir o que fazer depois de atingir a meta, agende uma avaliação com um endocrinologista.
Leia também
Fontes científicas
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→ https://abeso.org.br/wp-content/uploads/2025/12/13098_2025_Article_1954-1.pdf - Nota Conjunta da ABESO, SBD e SBEM sobre a não incorporação da liraglutida e da semaglutida no SUS, 25/08/2025.
→ https://abeso.org.br/nota-conjunta-da-associacao-brasileira-para-o-estudo-da-obesidade-e-sindrome-metabolica-abesoda-sociedade-brasileira-de-diabetes-sbd-e-da-sociedade-brasileira-de-endocrinologia-e-metabologiasbem/
Fontes jornalísticas
- Efeito sanfona não é só falta de disciplina; entenda o que acontece no corpo. O Estado CE, 05/09/2026. → https://oestadoce.com.br/saude/efeito-sanfona-nao-e-so-falta-de-disciplina-entenda-o-que-acontece-no-corpo/
- Uso de canetas emagrecedoras sem prescrição traz riscos à saúde. Poder360, 05/09/2026. → https://www.poder360.com.br/poder-saude/uso-de-canetas-emagrecedoras-sem-prescricao-traz-riscos-a-saude/
Dúvidas dos leitores
Se o peso volta de qualquer jeito, não é melhor nem começar?
Essa conclusão é compreensível, e ainda assim ela inverte o raciocínio. O peso voltar quando o tratamento para é a assinatura de uma doença crônica, não a prova de que o tratamento falhou. Ninguém conclui que não vale tratar pressão alta porque ela sobe de novo se o remédio for suspenso. A pergunta útil antes de começar não é se o peso voltaria, e sim o que se pretende fazer depois que ele descer: manter a medicação, reduzir a dose, ou combinar com outras estratégias. Essa conversa cabe na primeira consulta, não na última.
Dá para tomar a caneta só por uns meses, antes de um casamento ou de uma viagem?
Dá, e é bom saber o que esperar disso. Nos estudos de suspensão o peso começa a subir já nas primeiras semanas depois da interrupção, e a maior parte do que foi perdido volta ao longo do primeiro ano. Como perda rápida seguida de reganho rápido é o padrão que mais castiga a massa muscular, o uso por temporada tem um custo que a balança sozinha não mostra. Se a intenção é essa mesmo, vale combiná-la com quem prescreve, com treino de força e proteína suficiente durante todo o período, e com um plano escrito para depois.
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