Dr. Márcio GesterEndocrinologista · CRM-PA 14727 ← Início
Ilustração editorial em linha fina sobre fundo azul-marinho mostrando um estadiômetro, o aparelho de medir altura do consultório: haste vertical vazada e alta em azul-claro tênue, base larga apoiada no chão e, bem embaixo, o braço horizontal deslizante destacado em âmbar junto com o pequeno trecho de escala abaixo dele. A parte iluminada é curta e a haste vazia acima dela é longa, sugerindo o quanto ainda falta medir. Sem pessoas, sem rostos, sem texto e sem embalagens de medicamento.

Caneta de emagrecimento em adolescente: quem pode usar e o que ainda não se sabe

Em resumo: no Brasil, duas canetas têm indicação para controle de peso antes dos 18 anos, a semaglutida e a liraglutida, e as duas exigem a mesma combinação: idade a partir de 12 anos, obesidade confirmada na curva de crescimento e peso corporal acima de 60 quilos. A tirzepatida não entra nessa lista: a indicação pediátrica que ela ganhou em abril de 2026 é para diabetes tipo 2, a partir dos 10 anos, e não para emagrecer. O efeito existe e é grande, com redução de índice de massa corporal 16,7 pontos percentuais maior que a do grupo sem o remédio em 68 semanas 3. E o limite da evidência também é grande: reunindo os 18 ensaios que a maior revisão do tema encontrou, a mediana de tempo de tratamento foi de cerca de seis meses 1.

Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 27/08/2026

O que a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou

Em 24 de agosto de 2026 a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou um documento chamado "Uso de canetas emagrecedoras em crianças e adolescentes: indicações, limites e riscos do uso inadequado" 9. O trecho publicado sem restrição no site da entidade nomeia as três substâncias em questão: liraglutida e semaglutida, que agem sobre o receptor do GLP-1, um hormônio que o intestino libera depois das refeições e que avisa o cérebro que já comeu o suficiente; e a tirzepatida, que age sobre esse receptor e sobre o de um segundo hormônio do intestino, de efeito parecido. O documento na íntegra é restrito a associados, então o que se lê nas reportagens sobre o conteúdo dele é imprensa, não fonte primária, e não é o que sustenta este artigo.

O que sustenta são as bulas brasileiras, os registros da Anvisa e os ensaios clínicos, e eles respondem com precisão o que uma família precisa saber: quem pode usar, a partir de quando, e o que já foi medido sobre segurança. Até este mês, o documento de referência da pediatria brasileira sobre obesidade na infância era de 2019, anterior às aprovações dessas medicações para adolescentes. Havia uma defasagem, e ela era diferente de uma discordância. Agora a entidade se pronunciou sobre o tema.

As três canetas não são a mesma coisa para um menor de idade

Este é o ponto que mais gera erro, e ele não é sutil. Reunir as três sob o apelido de "canetas emagrecedoras" apaga uma diferença regulatória que muda a conduta.

Substância (marca)Indicação para peso antes dos 18 anosIndicação pediátrica que existe
Semaglutida (Wegovy)Sim, a partir de 12 anos 10Controle de peso, com critérios abaixo
Liraglutida (Saxenda)Sim, a partir de 12 anos 11Controle de peso, com critérios abaixo
Tirzepatida (Mounjaro)Não. Para peso, a indicação é de adulto 12Diabetes tipo 2, a partir de 10 anos 13

As indicações acima são as registradas no Brasil e foram lidas nas bulas profissionais e nos registros da Anvisa em agosto de 2026. Indicação de bula muda por decisão de terceiros e sem aviso, o que faz desta uma tabela com data.

Os critérios da semaglutida e da liraglutida são estreitos e vale ler devagar. A bula da semaglutida (Wegovy) indica o uso em adolescentes com 12 anos ou mais que tenham obesidade, definida como índice de massa corporal igual ou acima do percentil 95 na curva específica para sexo e idade, e peso corporal acima de 60 quilos 10. A da liraglutida (Saxenda) pede a mesma idade, o mesmo piso de 60 quilos e obesidade pelos pontos de corte internacionais 11. As duas trazem também uma regra de parada que raramente aparece nas reportagens, com o mesmo prazo e medidas diferentes: a da semaglutida manda reavaliar e possivelmente interromper se o índice de massa corporal não cair pelo menos 5% após 12 semanas na dose alvo 10, e a da liraglutida usa a perda de pelo menos 5% do peso inicial no mesmo prazo 11.

A tirzepatida é o caso que mais confunde, porque a notícia de que ela foi liberada para crianças existe e está correta. Em abril de 2026 a Anvisa ampliou a indicação da tirzepatida para diabetes tipo 2 em pacientes pediátricos a partir dos 10 anos 13. Isso é verdade, e é uma boa notícia para quem trata diabetes nessa faixa etária. Só que a indicação de controle de peso da mesma substância, aprovada em junho de 2025, é de adulto 12. Mesma caneta, duas indicações, caminhos separados.

Um erro que corrijo em consulta sobre esse tema não é ninguém achando que remédio de obesidade é perigoso. É gente inteligente lendo "liberado para crianças a partir de 10 anos" e entendendo, de forma perfeitamente razoável, que está liberado para emagrecer nessa idade.

Por que existe um piso de 60 quilos

À primeira vista o critério de peso parece arbitrário, ou pior, parece dizer que o adolescente mais leve tem um problema menor. Não é isso. O piso marca a fronteira dos dados.

A bula da liraglutida é explícita ao ponto de dispensar interpretação: o produto não é recomendado em crianças abaixo de 12 anos nem em adolescentes entre 12 e 18 anos com peso corporal igual ou abaixo de 60 quilos, e o motivo declarado é falta de dados 11. Os ensaios recrutaram quem pesava acima disso, a farmacocinética foi medida nesses corpos, e fora dessa faixa ninguém mediu nada. A da semaglutida segue a mesma lógica e acrescenta que a segurança e a eficácia em crianças com menos de 12 anos não foram estudadas 10.

Essa distinção importa porque muda o que se pode afirmar. "Não é recomendado por falta de dados" não é o mesmo que "é perigoso", e não é o mesmo que "é seguro, só não escreveram". É a terceira coisa: território não visitado. Num adulto, extrapolar para território não visitado é uma decisão de risco calculado. Num corpo que ainda está se formando, o cálculo tem uma variável a mais: o que a medicação faz enquanto esse corpo ainda está crescendo.

O que os estudos mostram, e por quanto tempo eles olharam

O efeito é real e é dos maiores da medicina da obesidade. No STEP TEENS, ensaio de fase 3 em adolescentes de 12 a menos de 18 anos com obesidade, dois em cada três participantes receberam semaglutida 2,4 mg uma vez por semana e o terço restante recebeu uma injeção idêntica sem princípio ativo, no mesmo esquema semanal, sem que ninguém soubesse quem estava em qual grupo. Em 68 semanas, a redução percentual do índice de massa corporal foi 16,7 pontos percentuais maior no grupo da semaglutida 3. Junto vieram melhoras na resistência à insulina, na glicose, nos triglicerídeos e na enzima do fígado que costuma subir na esteatose 3.

Uma metanálise reuniu 18 ensaios controlados em menores de 18 anos, com 1.402 participantes de 6 a 17 anos 1. Somando obesidade, diabetes tipo 2 e pré-diabetes, quem recebeu a medicação terminou com cerca de 3 quilos e 1,45 ponto de índice de massa corporal a menos que quem recebeu placebo, além de queda na pressão e na hemoglobina glicada, que é o exame que mostra a média da glicose dos últimos meses 1. O número de peso parece pequeno perto do resultado do STEP TEENS porque ele mistura estudos com doses e objetivos diferentes, incluindo os de diabetes, em que a dose é menor e o alvo é a glicose. Uma comparação indireta de 41 ensaios, com 3.923 crianças e adolescentes, colocou a semaglutida como a de maior efeito sobre o peso nessa faixa etária, acima da liraglutida 7.

Nessa mesma metanálise, a mediana de duração do tratamento foi de 0,51 ano 1, cerca de seis meses, e esse é o número que menos aparece nas reportagens sobre o assunto. O acompanhamento mais longo que existe, o do STEP TEENS, foi de 68 semanas. Na minha leitura, é isso que define o que se pode e o que não se pode prometer a uma família. A eficácia está estabelecida. A segurança está estabelecida para o horizonte que foi observado, e esse horizonte é curto perto do tempo que falta para aquele adolescente terminar de crescer.

Isso atrapalha o crescimento e a puberdade?

É a primeira pergunta que uma mãe faz, e é a pergunta certa.

A resposta que os dados sustentam: não apareceu efeito. A revisão sistemática que reuniu sete ensaios pivotais e seis metanálises, com 901 participantes de 6 a menos de 18 anos, não encontrou efeito adverso sobre o crescimento em altura nem sobre a progressão da puberdade 2. As duas bulas brasileiras registram a mesma coisa a partir dos próprios ensaios: nenhum efeito no crescimento ou no desenvolvimento puberal após 68 semanas com semaglutida 10 e nenhum efeito com liraglutida no estudo de 56 semanas 11.

Existe um dado de laboratório que circula fora de contexto e vale colocar no lugar certo. A bula da semaglutida descreve que, em ratos jovens, a substância causou atraso na maturação sexual em machos e fêmeas 10. Isso é achado em roedor, que não se transfere direto para pessoa, e é justamente o tipo de sinal que motiva vigilância e não conclusão. Os ensaios em adolescentes olharam para esse desfecho e não o encontraram. Dizer que a caneta atrasa a puberdade é errado. Dizer que a questão foi encerrada também seria.

A preocupação levantada na mesma revisão é outra e é mais fina: um remédio que reduz o apetite por muito tempo reduz também a entrada de nutrientes, e mineralização óssea, puberdade e altura final dependem de nutrição 2. É por isso que o parecer conjunto de quatro sociedades americanas sobre nutrição durante o tratamento com GLP-1 insiste em proteína adequada e acompanhamento nutricional como parte do tratamento, não como enfeite 8. Num adulto isso protege massa muscular. Num adolescente, protege também o osso que ainda está sendo formado e o crescimento que ainda não terminou.

Osso e músculo: o que ainda não foi medido

Aqui a resposta honesta é que não existe resposta pediátrica.

Não há dados de densidade mineral óssea com essas medicações em crianças e adolescentes 4. E a adolescência é exatamente a janela em que se adquire o pico de massa óssea, o capital que vai sustentar o esqueleto pelo resto da vida. Em adultos, a perda de peso se acompanha de reduções modestas de densidade óssea, e exercício estruturado parece atenuar isso 4. Extrapolar de adulto para adolescente aqui é frágil, porque num adulto se trata de preservar o que já existe e num adolescente se trata de construir o que ainda não existe.

Massa muscular tem a mesma lacuna, com um detalhe interessante nos dados de adulto. Uma metanálise de sete ensaios com 821 pacientes mostrou que a massa magra como proporção do peso total melhora com o tratamento, subindo 1,81% 5. Em valor absoluto, porém, ela cai: 1,74 quilo em média, e 5,44 quilos com semaglutida 5. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e não são contraditórias: quem perde muito peso perde alguma massa magra junto, mas perde proporcionalmente mais gordura, e a composição final é melhor. Os próprios autores concluem que a perda de massa magra não deve ser considerada um impedimento ao uso, desde que o tratamento venha acompanhado de intervenção nutricional e de exercício 5.

Na prática, é isso que muda a conversa: em adolescente, treino de força e proteína deixam de ser recomendação genérica de estilo de vida e passam a ser parte do tratamento, do mesmo jeito que a dose.

Quando o problema não é o peso, é a imagem

Esta é a parte que me preocupa mais, e é a que menos tem número.

O efeito de supressão do apetite dessas medicações é potente, e a adolescência é o período de maior vulnerabilidade à pressão sobre a imagem corporal. A literatura pediátrica levanta explicitamente o risco de uso indevido e de agravamento de transtornos alimentares nessa população 4,6. Uma revisão publicada na revista da Academia Americana de Pediatria dedica uma seção inteira à saúde mental e ao cruzamento entre comportamento alimentar desordenado e tratamento farmacológico da obesidade, e trata o rastreamento disso como parte do cuidado, não como contraindicação 6. Na metanálise dos 18 ensaios, ideação e comportamento suicida não apareceram com frequência diferente da do placebo 1, o que é tranquilizador para quem tem indicação e é acompanhado, e não diz nada sobre quem usa por fora.

A pergunta que eu faço não é quanto a pessoa quer emagrecer, é o que ela imagina que muda quando emagrecer. A resposta separa dois cenários que exigem condutas opostas: o adolescente com obesidade e uma complicação metabólica em curso, para quem a medicação pode ser um bom instrumento, e o adolescente sem obesidade que quer caber numa imagem, para quem a caneta é o começo de um problema diferente e mais difícil de tratar.

Caneta manipulada e sem procedência

Tudo o que está escrito até aqui vale para produto registrado, com dose conhecida, dentro de uma indicação estudada. Nada disso se transfere para o que se compra em grupo de mensagem, para o manipulado ou para o importado sem registro na Anvisa.

Nesses casos não se sabe o que tem dentro, nem quanto tem, e as bulas e os ensaios citados neste texto simplesmente não descrevem aquele produto. Some a isso o efeito adverso que domina a classe: os eventos digestivos, náusea e vômito, são o único sinal de segurança que apareceu de forma consistente e significativa nos estudos pediátricos 1, e a bula da liraglutida registra que vomitar foi mais frequente entre os adolescentes do que entre os adultos, sem trazer o número 11. Vômito repetido em quem está usando sem acompanhamento é o caminho curto para desidratação, e é aí que a coisa deixa de ser sobre estética.

Dois efeitos menos comuns merecem nome, porque são os que levam ao pronto-socorro. Pedra na vesícula apareceu em 3,8% dos adolescentes que usaram semaglutida no ensaio e em ninguém do grupo placebo 10. E dor abdominal forte em quem usa essas medicações precisa de avaliação no mesmo dia: a bula orienta suspender diante da suspeita de pancreatite aguda e não reiniciar se ela se confirmar 10.

O que eu analiso antes de considerar a medicação

Três coisas eu analiso antes de considerar a medicação: a curva com a altura acompanhada, a busca por uma causa secundária, e o tratamento comportamental ao qual ela vem somar.

A curva vem primeiro porque peso isolado não diz quase nada em adolescente. O que diz é o índice de massa corporal plotado na curva de sexo e idade, e a altura acompanhada ao longo do tempo. Um adolescente que está ganhando peso e crescendo pouco tem outro problema até prova em contrário, e esse problema não se resolve com caneta.

A causa secundária importa porque a maior parte da obesidade nessa idade é multifatorial, mas existem formas monogênicas, sindrômicas e secundárias a doenças endócrinas, e algumas mudam completamente a conduta.

E o tratamento comportamental é o chão de tudo: a literatura pediátrica trata a farmacoterapia como adjuvante a ele 6, e as próprias bulas condicionam a indicação a dieta e atividade física. Quando a medicação entra, ela entra com a escalada de dose lenta e com a regra de parada de 12 semanas na cabeça, e o acompanhamento nutricional entra junto, não depois 8.

A decisão que fica com a família

Quando o adolescente preenche o critério, a escolha entre começar a medicação agora ou continuar só com o acompanhamento tem duas respostas legítimas, e eu não decido isso sozinho.

Esperar poupa a exposição a um remédio cujo horizonte de observação é de meses num corpo que ainda tem anos de crescimento pela frente, e poupa a conversa sobre por quanto tempo se usa, que ainda não tem resposta boa. Custa tempo numa fase em que a escola, o esporte e a relação com o corpo estão acontecendo agora. Começar tende a trazer resultado mais rápido e a melhorar a resistência à insulina e o fígado junto 3. Custa uma aplicação que é semanal com a semaglutida e diária com a liraglutida, náusea provável nas primeiras semanas, um gasto que raramente é coberto, e a chance de o peso voltar quando parar.

O que nenhum estudo mede: o quanto aquele adolescente aguenta mais uma tentativa que não deu certo, o que uma injeção significa para alguém de 13 anos que ainda não decidiu se quer contar isso para os amigos, e o quanto a família consegue sustentar de mudança de rotina ao mesmo tempo. A minha preferência, quando a indicação está preenchida, é iniciar pela medicação e emendar o acompanhamento intensivo em cima dela, vigiando três coisas do começo ao fim do tratamento: os nutrientes, com ferro, vitamina B12 e vitamina D entre eles, porque comer menos é comer menos de tudo; a altura, marcada na curva de crescimento; e o desenvolvimento sexual, acompanhado pela escala de Tanner, que gradua os sinais da puberdade. Essa é a minha preferência e não é a recomendação: ela vem de como eu prefiro organizar o seguimento, não de um estudo que tenha comparado as duas ordens.

Em resumo, o que eu diria numa consulta

Existem duas canetas com indicação para peso antes dos 18 anos no Brasil, semaglutida e liraglutida, a partir dos 12 anos, para quem tem obesidade confirmada na curva e pesa mais de 60 quilos, com reavaliação obrigatória em 12 semanas 10,11. A tirzepatida não está nessa lista: a liberação pediátrica dela é para diabetes tipo 2 a partir dos 10 anos 13, e confundir essas duas indicações é o erro mais fácil de cometer neste assunto. O efeito é grande 3, o crescimento e a puberdade não mostraram alteração no tempo observado 2,10,11, e osso e músculo em adolescente continuam sem dados próprios 4,5.

Os riscos que exigem conduta são poucos e nomeáveis: náusea e vômito, que são comuns e passam, mas que sem acompanhamento levam à desidratação 1; pedra na vesícula 10; dor abdominal forte, que é avaliação no mesmo dia 6; e o risco que não tem exame, que é a medicação virar instrumento de um problema com a imagem em vez de tratamento de uma doença 4,6.

A frase que eu gostaria que ficasse é esta: a pergunta útil não é se a caneta funciona em adolescente, porque funciona. É se aquele adolescente específico é a pessoa que os estudos incluíram. Quando a resposta é não, o que falta não é coragem para prescrever, é informação que ninguém produziu ainda.

E se você chegou até aqui porque tem um filho nessa situação, ou porque é o adolescente lendo sobre o próprio corpo, vale saber que essa conversa cabe inteira numa consulta, com a curva na tela e sem pressa.

Procure um endocrinologista ou o pediatra que acompanha seu filho quando o ganho de peso vier acompanhado de desaceleração do crescimento, quando aparecerem manchas escuras no pescoço ou nas axilas, quando houver ronco alto com pausas na respiração durante o sono, quando exames trouxerem glicose, colesterol ou enzimas do fígado alterados, quando existir história de diabetes tipo 2 na família, ou quando o assunto peso já estiver ocupando espaço demais na cabeça do adolescente. Procure com urgência se alguém estiver usando essas medicações por conta própria e apresentar vômitos repetidos ou dor forte na barriga. Nada aqui substitui a avaliação individual, e nenhuma dessas medicações deve ser iniciada sem prescrição e acompanhamento.


Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o exame clínico nem a orientação individual do seu médico. Os medicamentos citados exigem prescrição e acompanhamento e não devem ser iniciados por conta própria, ainda mais em criança ou adolescente. As indicações de bula descritas aqui foram lidas nas fontes oficiais em agosto de 2026 e podem mudar.

Se você tem dúvidas sobre o peso, o crescimento ou os exames do seu filho, agende uma avaliação com um endocrinologista.

Leia também

Fontes científicas

  1. Kotecha P, Huang W, Yeh Y, Narvaez V, Adirika D, Tang H, et al. Efficacy and Safety of GLP-1 RAs in Children and Adolescents With Obesity or Type 2 Diabetes: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Pediatrics. 2025;179(12):1308-1317. doi:10.1001/jamapediatrics.2025.3243.
    https://doi.org/10.1001/jamapediatrics.2025.3243 · PubMed 40952752
  2. Soliman A, Alyafei F, Khalil A, Kardousha A, Ahmed S, Alaaraj N, et al. GLP-1 receptor agonists in pediatric obesity and diabetes: a systematic review of efficacy, metabolic effects, and safety. Diabetes Research and Clinical Practice. 2026;238:113400. doi:10.1016/j.diabres.2026.113400.
    https://doi.org/10.1016/j.diabres.2026.113400 · PubMed 42365860
  3. Arslanian S, Gies I, Goldman B, Karlsson T, Kelly A, Skalshøi Kjær M, et al. Effect of Semaglutide on Insulin Sensitivity and Cardiometabolic Risk Factors in Adolescents With Obesity: The STEP TEENS Study. Diabetes Care. 2026;49(6):954-962. doi:10.2337/dc25-0824.
    https://doi.org/10.2337/dc25-0824 · PubMed 41296499
  4. Haider M, Javed H. GLP-1 Receptor Agonists in Adolescents: Emerging Endocrine, Reproductive, and Psychosocial Concerns. Journal of Pediatric and Adolescent Gynecology. 2026. doi:10.1016/j.jpag.2026.06.017.
    https://doi.org/10.1016/j.jpag.2026.06.017 · PubMed 42364709
  5. Laverde L, Muñoz-Velandia O, Alfonso D, Gómez Medina A. Effect of GLP-1 receptor agonists at doses for obesity management on muscle health: systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials (RCTs). International Journal of Obesity. 2026;50(8):1638-1646. doi:10.1038/s41366-026-02118-y.
    https://doi.org/10.1038/s41366-026-02118-y · PubMed 42321502
  6. Stefater-Richards M, Jhe G, Zhang Y. GLP-1 Receptor Agonists in Pediatric and Adolescent Obesity. Pediatrics. 2025;155(4):e2024068119. doi:10.1542/peds.2024-068119.
    https://doi.org/10.1542/peds.2024-068119 · PubMed 40031990
  7. Luo L, Huang T, Yan Z, Qi Y, Wei Q, Wang H, et al. Pharmacotherapy for Children and Adolescents With Overweight or Obesity: A Systematic Review and Network Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2026;28(9):8145-8156. doi:10.1111/dom.70986.
    https://doi.org/10.1111/dom.70986 · PubMed 42310900
  8. Mozaffarian D, Agarwal M, Aggarwal M, Alexander L, Apovian C, Bindlish S, et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint Advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. The American Journal of Clinical Nutrition. 2025;122(1):344-367. doi:10.1016/j.ajcnut.2025.04.023.
    https://doi.org/10.1016/j.ajcnut.2025.04.023 · PubMed 40450457
  9. Sociedade Brasileira de Pediatria. Uso de canetas emagrecedoras em crianças e adolescentes: indicações, limites e riscos do uso inadequado (24/08/2026)
    https://www.sbp.com.br/uso-de-canetas-emagrecedoras-em-criancas-e-adolescentes-indicacoes-limites-e-riscos-do-uso-inadequado/
  10. Bula profissional de Wegovy (semaglutida), Novo Nordisk Brasil
    https://www.novonordisk.com.br/content/dam/nncorp/br/pt/pdfs/bulas/hcp/Wegovy_Bula_Profissional.pdf
  11. Bula profissional de Saxenda (liraglutida), Novo Nordisk Brasil
    https://www.novonordisk.com.br/content/dam/nncorp/br/pt/pdfs/bulas/hcp/Saxenda_Bula_Profissional1.pdf
  12. Anvisa. Mounjaro (tirzepatida): nova indicação de controle crônico do peso em adultos (09/06/2025)
    https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/mounjaro-r-tirzepatida-nova-indicacao
  13. Anvisa. Ampliação da indicação de Mounjaro para diabetes tipo 2 em pacientes pediátricos a partir de 10 anos, Resolução-RE 1.592 de 17/04/2026
    https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/anvisa-amplia-indicacao-do-mounjaro-r-para-diabetes-tipo-2-em-criancas

Fontes jornalísticas

Dúvidas dos leitores

Meu filho tem 14 anos e 55 quilos, e quer muito usar a caneta. Por que o peso conta se ele já tem 14?

Porque o corte de peso não é uma medida de gravidade, é uma medida de onde os estudos foram feitos. Os ensaios que sustentam a indicação em adolescentes só incluíram quem pesava acima de 60 quilos, e a bula da liraglutida escreve isso com todas as letras: não é recomendada abaixo dessa faixa por falta de dados. Ou seja, ninguém mediu o que acontece com um corpo mais leve recebendo a mesma dose. Vale reparar em outra coisa: um adolescente de 14 anos com 55 quilos raramente preenche o critério de obesidade na curva de crescimento, e nesse caso o remédio não estaria indicado nem que o peso fosse maior. A conversa que costuma faltar aqui não é sobre a caneta, é sobre o que está por trás do desejo de emagrecer.

Vi que a Anvisa liberou uma caneta para crianças a partir de 10 anos. Serve para emagrecer?

Não. Essa liberação existe e é real, mas é para outra doença. Em abril de 2026 a Anvisa ampliou a indicação da tirzepatida para diabetes tipo 2 em pacientes pediátricos a partir dos 10 anos. Para controle de peso, a indicação dela no Brasil continua sendo de adulto. É a mesma substância e a mesma caneta, com duas indicações diferentes que caminham separadas, e essa confusão é fácil de fazer lendo manchete. Para peso antes dos 18 anos, as duas opções registradas no país são a semaglutida e a liraglutida, a partir dos 12 anos e com critérios estreitos.

A caneta atrapalha o crescimento?

Nos estudos feitos até agora, não apareceu efeito sobre a altura nem sobre a progressão da puberdade, e isso está registrado nas duas bulas brasileiras e numa revisão que reuniu 901 participantes de 6 a menos de 18 anos 2. A ressalva importante é o tempo: o acompanhamento mais longo desses estudos foi de 68 semanas, pouco mais de um ano, e altura final é um desfecho que leva anos para aparecer. Então a leitura honesta não é "não afeta o crescimento", e sim "no tempo em que se olhou, não se viu nada, e esse tempo é curto". É por isso que a conversa sobre iniciar a medicação nessa idade inclui medir a altura em toda consulta, e não só o peso.

Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.