Dr. Márcio GesterEndocrinologista · CRM-PA 14727 ← Início
Ilustração editorial sóbria sobre fundo azul-marinho, com o desenho em linhas finas douradas de uma caneta de aplicação estilizada atravessando uma linha tracejada de fronteira, com um pequeno escudo de verificação ao lado. Sem texto, sem pessoas, sem marcas e sem embalagens reais.

Tirzepatida do Paraguai: por que a Anvisa proibiu até para uso pessoal

Em resumo: em 16 de setembro a Anvisa proibiu a importação, o armazenamento, o transporte, a venda, a propaganda e o uso da caneta T36, uma tirzepatida fabricada no Paraguai, e ela se aplica a pessoas físicas, o que alcança quem traz a caneta para uso próprio 5. O teste feito no Brasil com canetas paraguaias que veio a público mostrou que há tirzepatida dentro delas, com uma amostra cerca de 60% acima do rótulo 8, e não avaliou contaminação, esterilidade nem se o produto age no corpo como o registrado 6. Em frascos de semaglutida comprados sem receita na internet, a pureza medida ficou entre 7,7% e 14,4%, contra 99% prometidos no rótulo, e havia endotoxina em todos os frascos 1. No Brasil, a tirzepatida registrada é uma só, a da Eli Lilly 8.

Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 22/09/2026

Contexto: o que saiu na mídia

A notícia correu o país nos últimos dias com a frase "proíbe até para uso pessoal", e ela está certa 5. Ela chegou num momento em que o assunto canetas emagrecedoras ocupa o noticiário por outros motivos, como o anúncio de oferta no SUS e a disputa de preço entre fabricantes, e é fácil ler a proibição como mais um capítulo de briga comercial. Não é isso. A decisão é sanitária, e a razão dela está escrita na própria resolução: o produto não tem registro no Brasil e não teve segurança nem eficácia avaliadas aqui 5.

O que a Anvisa decidiu

A Resolução 3.626/2026 proíbe importar, armazenar, distribuir, vender, fazer propaganda e usar a caneta T36 em território nacional, e se aplica a pessoas físicas, empresas e veículos de comunicação 5. Não é a primeira. Em abril a agência determinou a apreensão das canetas Gluconex e Tirzedral, vendidas como tirzepatida e produzidas por empresa não identificada, com a orientação de que não fossem usadas em nenhuma hipótese 7. Na mesma notícia de 16 de setembro, a Anvisa proibiu também um site que anunciava canetas desse tipo sem registro no Brasil 5.

Uma regra geral ajuda a entender o "até para uso pessoal". Medicamento sem registro no Brasil pode, em situação excepcional, ser importado para uso exclusivamente pessoal, com receita e outros requisitos 10. A resolução da T36 fecha essa porta para ela, porque proíbe a importação e o uso também por pessoas físicas 5.

Registrada no Paraguai não é registrada aqui

A T36 não é falsificação no sentido comum da palavra. Segundo o posicionamento conjunto das três sociedades brasileiras da área, a agência reguladora paraguaia autoriza a fabricação e a venda dessas canetas no Paraguai, e essa autorização não tem validade no Brasil 8. Isso explica por que a compra parece segura para quem a faz: o produto tem fabricante e autorização no país de origem.

Não é descuido de quem compra: é conclusão razoável para quem vê um produto com cara de remédio, vendido por um preço que cabe no mês. O que o registro no Brasil acrescenta é a avaliação do processo de fabricação, das impurezas possíveis, do controle de qualidade e dos dados de eficácia e segurança 6. Sem essa avaliação feita aqui, ninguém no Brasil responde pelo que está dentro da caneta, nem pelo que acontece se algo der errado.

Achar a molécula não é provar o remédio

Em julho, uma análise do centro de toxicologia da Unicamp encontrou tirzepatida em amostras de canetas paraguaias, e a manchete que circulou falava em princípio ativo equivalente ao da tirzepatida registrada 8. A Anvisa respondeu no mesmo mês que a informação era falsa e explicou por quê 6.

O teste mediu três coisas: se havia tirzepatida, em que concentração e com que estrutura. Não mediu impurezas, contaminantes, produtos de degradação, esterilidade nem metais pesados. E, principalmente, não mediu biodisponibilidade, que é quanto do remédio chega ao sangue, em quanto tempo e por quanto tempo fica lá 6. Essa é a medida que diz se dois medicamentos funcionam do mesmo jeito, e ela só vale quando feita num centro de bioequivalência credenciado 6.

Mesmo na pergunta que o teste respondeu, as amostras não foram iguais entre si. Segundo as sociedades, uma delas tinha cerca de 60% a mais de tirzepatida do que o rótulo informava, e outras também variaram em relação ao produto de referência 8. Na minha leitura, esse é o dado mais útil da análise, e ele vai no sentido oposto ao da manchete: quem aplicasse a caneta daquela amostra achando que usava uma dose estaria usando outra.

O que os estudos encontraram em canetas fora da cadeia regulada

Não há estudo publicado sobre a T36 especificamente. O que existe são análises de produtos da mesma classe comprados fora da cadeia regulada em outros países, e elas apontam na mesma direção.

O estudo mais direto comprou semaglutida sem receita em farmácias ilegais na internet. Das 3 canetas de marca encomendadas, nenhuma chegou: eram golpe. Os 3 frascos que chegaram foram classificados como provavelmente falsificados ou fora do padrão. A quantidade de semaglutida passava do rótulo em 29% a 39%, a pureza medida ficou entre 7,7% e 14,4%, contra os 99% impressos na embalagem, e havia endotoxina, um resíduo de bactéria que provoca reação inflamatória, em todos eles 1.

Uma análise de 16 versões injetáveis e 8 orais de semaglutida vendidas como alternativa encontrou impurezas que o original não tem, entre elas metais e solventes residuais, e em várias das orais a quantidade de semaglutida estava bem abaixo do rótulo. Os autores apontaram também trechos de proteína que podem provocar reação do sistema imune, e registraram que o efeito disso na eficácia e na segurança ainda é desconhecido 3. Vale a transparência: esse estudo foi feito por pesquisadores da fabricante da semaglutida original.

Com a tirzepatida, a análise publicada é de versões manipuladas vendidas nos Estados Unidos, combinadas com vitamina B12. Os pesquisadores encontraram uma impureza nova, formada pela reação entre a tirzepatida e certas formas da vitamina, presente em quantidade relevante e de efeito clínico desconhecido 4. Aqui também a autoria é da fabricante do original, e o dado vale pelo que foi medido, não por quem mediu.

O que chega à farmacovigilância

Nos Estados Unidos, o sistema da agência reguladora que reúne notificações de efeitos adversos recebeu 81.078 relatos sobre remédios dessa classe entre 2018 e 2024, e 707 envolviam versões manipuladas. Nessas, foram relatados proporcionalmente mais erro de preparo, contaminação, problema de fabricação e internação, além de dor abdominal, diarreia e inflamação da vesícula 2.

Notificação não é medida de risco: ela mostra o que as pessoas relatam, não quantas pessoas tiveram o problema, e o próprio estudo avisa que não prova causa e efeito 2. O que ela mostra é que problemas do mesmo tipo dos descritos nos laboratórios aparecem também do lado de quem aplicou.

Por que o caminho até a sua casa também conta

A tirzepatida é uma molécula grande e complexa, feita para ser injetada. As sociedades brasileiras lembram que a fabricação desse tipo de remédio exige controle de pureza, estabilidade e esterilidade, e que, por ser aplicado no tecido debaixo da pele, ele depende também de armazenamento e transporte adequados 8. A bula brasileira da caneta de dose única da tirzepatida (Mounjaro) manda guardá-la em geladeira, entre 2°C e 8°C, protegida da luz e sem congelar, e permite no máximo 21 dias fora da geladeira abaixo de 30°C 9.

Uma caneta que atravessa a fronteira numa mala, fica horas num carro ou numa agência de entrega e chega por um intermediário não tem ninguém responsável por essa cadeia de frio. Mesmo que tivesse saído perfeita da fábrica, não há como saber em que estado ela chega.

Se você já usa uma dessas canetas

A primeira coisa é não esconder isso de quem cuida de você. Leve a caneta ou a caixa à consulta: a pergunta que eu faço nessa hora é de onde ela veio e como chegou até você, porque isso muda o que eu preciso investigar, e não para julgar a escolha.

A segunda é saber que a dose que você aplicava é, na prática, desconhecida. O rótulo diz um número, e os testes mostram que o conteúdo pode estar acima ou abaixo dele 1,3,8. Por isso a passagem para um remédio registrado se decide na consulta, olhando como você está, e não pela equivalência do número impresso na caixa.

A terceira é conhecer os sinais que a própria bula do remédio registrado manda levar ao médico, e que valem com mais razão para um produto de conteúdo incerto: dor abdominal forte e persistente, que pode ser inflamação do pâncreas e pede interromper a aplicação e procurar atendimento; vômitos e diarreia que impedem de se hidratar, porque a perda de líquido pode prejudicar os rins; e, em quem usa insulina ou remédios que aumentam a liberação de insulina, sinais de glicose baixa 9.

A escolha que é sua

A caneta paraguaia não é uma das opções na mesa: ela está proibida, e o motivo não é burocrático. Mas a necessidade que leva alguém a comprá-la é real, e costuma ser uma só: o remédio registrado custa mais do que cabe no mês, por um tratamento que é longo.

As opções legítimas existem e cada uma cobra um preço diferente. A tirzepatida registrada custa mais e poupa a dúvida sobre o que está sendo aplicado. A semaglutida tem hoje mais de uma versão registrada no Brasil, inclusive de fabricantes nacionais 8, o que amplia as opções de preço. Tratar sem essas canetas, com mudança de rotina e outras medicações, é o caminho de menor custo mensal, e a expectativa de resultado se ajusta junto. A cirurgia bariátrica, para quem tem indicação, troca o custo mensal por uma decisão cirúrgica.

O que nenhum estudo mede é quanto você consegue pagar todo mês e por quanto tempo, porque esse tratamento funciona enquanto é usado; quanto a urgência do seu caso pede, se o peso está pressionando o diabetes, a pressão ou o joelho, ou se dá para começar mais devagar; e quanto de incerteza você aceita sobre o que entra no seu corpo. Eu prefiro uma medicação registrada que caiba no orçamento, mesmo que não seja a mais potente, a uma mais potente comprada fora da farmácia, e digo isso abertamente. Mas é preferência minha, e qual das opções registradas faz sentido para você depende dessas contas, que se fazem na consulta.

Em resumo, o que eu diria numa consulta

A Anvisa proibiu a caneta T36 em todas as etapas, inclusive o uso por quem a traz para si, porque ela não tem registro no Brasil e não teve segurança e eficácia avaliadas aqui 5. O teste que encontrou tirzepatida nas canetas paraguaias não provou que elas funcionam como a registrada, e mostrou uma amostra com cerca de 60% a mais de tirzepatida do que o rótulo 6,8. Nos estudos com produtos da mesma classe comprados fora da cadeia regulada, apareceram dose diferente do rótulo, pureza baixa, impurezas novas e endotoxina 1,3,4.

Quem já usa não precisa de sermão, precisa de um plano: levar a caneta à consulta, tratar a dose aplicada como desconhecida e conhecer os sinais de alerta, principalmente a dor abdominal forte e persistente 9. Se você fosse levar uma frase embora, seria esta: remédio de farmácia regular pode custar mais, mas é o único em que alguém responde pelo que está dentro da caneta.

E se você começou a usar uma dessas porque o preço do registrado não cabia, essa é justamente a conversa que vale ter: há mais de um caminho registrado, e escolher entre eles é parte do tratamento.

Quando procurar um endocrinologista

Procure avaliação se você usa ou pensa em usar caneta comprada fora de farmácia, se quer tratar a obesidade ou o diabetes e o custo do remédio é o que está travando, ou se já interrompeu o tratamento por preço e o peso voltou a subir. Procure atendimento no mesmo dia se tiver dor abdominal forte e persistente, vômitos que não deixam beber líquido, sinais de glicose baixa em quem usa insulina, ou vermelhidão, calor e dor que aumentam no local da aplicação, com ou sem febre. Este texto não prescreve pela internet: a escolha do remédio e da dose é feita na avaliação individual.


Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica nem o diagnóstico individualizado. A tirzepatida e a semaglutida são medicamentos de prescrição médica, e nenhuma dose deve ser iniciada, trocada ou interrompida sem avaliação profissional. As decisões regulatórias citadas valem para a data de atualização deste artigo.

Se você está usando ou pensando em usar uma caneta emagrecedora e quer entender qual caminho registrado cabe no seu caso, agende uma avaliação com um endocrinologista.

Leia também

Fontes científicas

  1. Ashraf A, Mackey T, Vida R, Kulcsár G, Schmidt J, Balázs O, et al. Multifactor Quality and Safety Analysis of Semaglutide Products Sold by Online Sellers Without a Prescription: Market Surveillance, Content Analysis, and Product Purchase Evaluation Study. Journal of Medical Internet Research. 2024;26:e65440. doi:10.2196/65440.
    https://doi.org/10.2196/65440 · PubMed 39509151
  2. McCall K, Mastro Dwyer K, Casey R, Samana T, Sulicz E, Tso S, et al. Safety analysis of compounded GLP-1 receptor agonists: a pharmacovigilance study using the FDA adverse event reporting system. Expert Opinion on Drug Safety. 2025;25(3):581-588. doi:10.1080/14740338.2025.2499670.
    https://doi.org/10.1080/14740338.2025.2499670 · PubMed 40285721
  3. Hach M, Engelund D, Mysling S, Mogensen J, Schelde O, Haselmann K, et al. Impact of Manufacturing Process and Compounding on Properties and Quality of Follow-On GLP-1 Polypeptide Drugs. Pharmaceutical Research. 2024;41(10):1991-2014. doi:10.1007/s11095-024-03771-6.
    https://doi.org/10.1007/s11095-024-03771-6 · PubMed 39379664
  4. Jordan B, Arbogast L, Clemens M, Huang L, Snyder M. A novel, widespread impurity in mass-compounded tirzepatide/B12 products: potential patient safety implications. Expert Opinion on Drug Safety. 2026;25(5):837-845. doi:10.1080/14740338.2026.2663185.
    https://doi.org/10.1080/14740338.2026.2663185 · PubMed 42010938
  5. Anvisa. Resolução 3.626/2026: proibição da importação, armazenamento, distribuição, comercialização, propaganda e uso da caneta T36 (notícia oficial de 16/09/2026)
    https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-proibe-caneta-emagrecedora-t36
  6. Anvisa. Checagem de fatos: canetas do Paraguai não demonstraram equivalência com medicamentos registrados no Brasil (06/07/2026)
    https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/canetas-do-paraguai-nao-demonstraram-equivalencia-com-medicamentos-registrados-no-brasil
  7. Anvisa. Resolução 1.519/2026: apreensão e proibição de uso das canetas Gluconex e Tirzedral (notícia oficial de 14/04/2026)
    https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-proibe-canetas-emagrecedoras-sem-registro-no-brasil
  8. Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO). Posicionamento conjunto sobre medicamentos injetáveis de origem alternativa destinados ao tratamento da obesidade e do diabetes (10/07/2026)
    https://diabetes.org.br/posicionamento-conjunto-da-sbd-sbem-e-abeso-sobre-medicamentos-injetaveis-de-origem-alternativa-destinados-ao-tratamento-da-obesidade/
  9. Bula do paciente de tirzepatida (Mounjaro), Eli Lilly do Brasil, bulário da Anvisa: seções de indicação, advertências e conservação
    https://bula-anvisa.s3.sa-east-1.amazonaws.com/112600202_paciente.pdf
  10. Anvisa. Importação: medicamentos sem registro no país só podem ser importados de forma excepcional e para uso exclusivamente pessoal, mediante prescrição médica e cumprimento de requisitos adicionais (20/11/2025)
    https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2025/anvisa-esclarece-sobre-proibicao-de-ingresso-de-canetas-emagrecedoras

Fontes jornalísticas

Dúvidas dos leitores

Comprei a caneta e ainda não usei. O que eu faço com ela?

Não use. Nas proibições anteriores de canetas desse tipo, a Anvisa orientou que não fossem utilizadas em nenhuma hipótese, e que pacientes e profissionais que as identificassem procurassem a agência pelos canais de atendimento ou a Vigilância Sanitária do seu município. Se você comprou pensando em tratar o peso ou o diabetes, a necessidade que levou à compra continua de pé: ela merece uma consulta, onde dá para ver qual das opções registradas cabe no seu caso e no seu orçamento.

Se o teste da Unicamp achou tirzepatida na caneta paraguaia, qual é o problema?

O teste respondeu se havia tirzepatida no frasco e em que quantidade, e havia. Ele não avaliou impurezas, contaminantes, esterilidade, metais nem se o produto é absorvido e age no corpo como o registrado, que é o que a Anvisa chama de biodisponibilidade. E mesmo na pergunta que ele respondeu, as amostras variaram: uma delas tinha cerca de 60% a mais de tirzepatida do que o rótulo dizia. Ter a molécula certa é o ponto de partida de um medicamento, não a prova de que ele é seguro.

Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.