Dr. Márcio GesterEndocrinologista · CRM-PA 14727 ← Início
Gráfico estilizado sobre fundo azul-marinho mostrando a curva do peso ao longo do tempo: um platô alto no início, uma queda acentuada em linha cheia durante o tratamento e um retorno em linha tracejada que sobe de volta até a altura do peso inicial após a interrupção

Obesidade é doença? O que muda com a nova diretriz brasileira

Em resumo: sim, e a mudança não é de vocabulário. A nova diretriz brasileira trata a obesidade como doença crônica e progressiva, tira do IMC o poder de decidir sozinho quem tem a doença e libera o início da medicação sem exigir uma fase anterior só de mudança de hábitos. Os três pontos têm lastro. Sobre a cronicidade: na extensão do estudo STEP 1, quem perdeu 17,3% do peso em 68 semanas recuperou dois terços disso no ano seguinte sem tratamento, terminando com 5,6% de perda líquida, e junto voltaram cintura, pressão, glicemia e lipídios 1. Uma revisão de 37 estudos com 9.341 participantes calculou o ritmo médio desse retorno em 0,4 kg por mês (intervalo de confiança de 95%: 0,3 a 0,5), com os marcadores cardiometabólicos projetados de volta ao ponto de partida em cerca de 1,4 ano 4. Sobre o IMC: numa metanálise de 72 coortes com 2,5 milhões de pessoas, a relação cintura sobre altura se associou à mortalidade de forma independente do IMC 6. E sobre a meta de 10%: perder isso ou mais se associou a taxas de remissão de diabetes tipo 2 de 13 a 20%, contra 4 a 6% em quem perdeu menos 8. Traduzindo: o número da balança importa menos que a direção da cintura e a permanência do tratamento.

Por Dr. Márcio Gester, Endocrinologista, CRM-PA 14727, RQE 9424. Atualizado em 29/07/2026.

O que saiu na mídia

Em abril de 2026 a imprensa médica repercutiu a nova diretriz brasileira de obesidade com manchetes na linha de que "finalmente" a obesidade está sendo tratada como doença crônica. A leitura é justa e merece contexto: não é uma descoberta recente, é a incorporação, num documento nacional, do que a literatura vinha acumulando havia anos. O que muda de fato não é o nome que se dá à condição. É o que se faz na consulta a partir dele.

"Doença crônica" não é força de expressão

Chamar a obesidade de doença crônica tem uma consequência prática incômoda: o tratamento controla enquanto está sendo feito, e interrompê-lo tende a devolver o quadro. É o mesmo comportamento da pressão alta e do diabetes, e ninguém estranha que essas duas exijam acompanhamento contínuo.

Os estudos de retirada mostram isso com números pouco confortáveis. Na extensão do STEP 1, uma perda média de 17,3% em 68 semanas com semaglutida virou perda líquida de 5,6% na semana 120, depois de 52 semanas sem o tratamento. Não foi só o peso: circunferência da cintura, pressão arterial, hemoglobina glicada e perfil lipídico caminharam de volta na direção dos valores iniciais 1.

O STEP 4 isolou a variável melhor, porque randomizou quem já havia emagrecido. Depois de 20 semanas de tratamento com 10,6% de perda, quem trocou por placebo ganhou 6,9% em 48 semanas, enquanto quem continuou perdeu mais 7,9%. A diferença entre os dois caminhos foi de 14,8 pontos percentuais, e a pressão sistólica subiu 4,4 mmHg em média no grupo que interrompeu 2.

Com a tirzepatida o padrão se repetiu em escala maior: após cerca de 21% de perda, a troca por placebo levou a ganho de 14,0% em um ano, contra mais 5,5% de perda em quem seguiu. E aqui está o dado que eu considero o mais eloquente de todos: a piora dos exames foi proporcional ao tanto de peso recuperado. Quem recuperou 75% ou mais do que havia perdido teve alta de 10,4 mmHg na pressão sistólica, de 0,35 ponto na hemoglobina glicada e de 18,9% nos triglicerídeos. Quem recuperou menos de 25% teve mudanças modestas 3.

Isso desfaz uma ideia comum, a de que o benefício conquistado "fica". Ele não fica: ele acompanha o peso.

E quando o tratamento é só estilo de vida?

Aqui vale honestidade, porque o fenômeno não é exclusivo dos remédios. No Look AHEAD, o maior ensaio de mudança intensiva de estilo de vida em pessoas com diabetes tipo 2, com 5.145 participantes, a perda foi de 8,6% no primeiro ano e de 4,7% no oitavo, contra 2,1% no cuidado usual. Cerca de metade manteve ao menos 5% de perda ao longo de oito anos, e 27% mantiveram 10% ou mais 5.

Ou seja: funciona, e o efeito persiste por anos. Mas também decai, e decai mesmo com acompanhamento estruturado.

A diferença entre os dois caminhos está na velocidade. A revisão de 2026 comparou diretamente e encontrou que o reganho após parar medicação é mais rápido, em 0,3 kg por mês (intervalo de confiança de 95%: 0,22 a 0,34), do que após o fim de um programa comportamental, independentemente de quanto peso havia sido perdido 4.

Nada disso é falta de força de vontade. É a fisiologia defendendo o peso que ela passou a considerar o dela.

Por que o IMC deixou de decidir sozinho

O IMC é uma conta simples entre peso e altura. Continua útil como triagem e segue no consultório. O problema é que ele não sabe onde a gordura está, e é a localização que mais pesa no risco.

A metanálise de 72 estudos prospectivos, somando 2,5 milhões de pessoas, mostrou que a relação cintura sobre altura (risco 24% maior a cada 0,1 de aumento) e a circunferência da cintura (11% maior a cada 10 cm) se associam à mortalidade de forma independente do IMC 6. No UK Biobank, com 468.333 participantes, a relação cintura sobre altura se associou de forma linear à doença cardiovascular isquêmica, com risco 23% maior a cada 5% de aumento, e essa associação se manteve mesmo levando em conta o percentual de gordura corporal 7. Traduzindo o achado: o que prevê o evento não é quanta gordura existe, é onde ela está.

Daí vem a regra prática que a diretriz incorporou, e que qualquer pessoa verifica em casa com uma fita métrica: a cintura deve medir menos que a metade da altura. Alguém com 1,70 m deveria ter menos de 85 cm de cintura.

Na prática isso reposiciona dois grupos ao mesmo tempo. Quem tem IMC na faixa normal mas acumula gordura abdominal deixa de ser dispensado com um "está tudo bem". E quem tem IMC elevado com gordura bem distribuída, boa massa muscular e exames normais deixa de ser tratado como se estivesse em risco iminente.

Começar a medicação mais cedo

Esse é o ponto que mais muda a rotina da consulta. A diretriz não exige mais uma etapa isolada só de mudança de hábitos antes de considerar medicação: onde há indicação, os dois caminhos podem começar juntos. Ela também organiza os medicamentos por potência esperada de perda de peso, o que ajuda a alinhar expectativa com realidade:

Potência esperadaPerda média associadaExemplos citados na diretriz
Muito baixamenos de 4%orlistate
Baixa a moderada4 a 9,9%sibutramina, naltrexona com bupropiona, liraglutida
Alta10% ou maissemaglutida, tirzepatida

A classificação descreve o que se observou em média nos estudos de cada fármaco, e não uma previsão individual. A escolha depende de comorbidades, contraindicações, tolerância e acesso, e é decisão de consulta.

Vale ser explícito sobre o que essa mudança não significa. Não significa que todo mundo com sobrepeso sai da consulta com receita. Não significa que alimentação, sono e atividade física saíram de cena, porque seguem sendo a base sobre a qual qualquer tratamento se apoia. E não significa que a medicação resolve sozinha: nos estudos, o acompanhamento nutricional e comportamental oferecido junto com a medicação não impediu o retorno do peso depois que ela foi suspensa.

O que muda é o tempo perdido. Adiar por anos uma medicação indicada, esperando que a pessoa "prove" que se esforçou o suficiente, é adiar junto o controle da glicemia, da pressão e da apneia que vieram no mesmo pacote.

A meta de 10%, e por que ela não é sobre a balança

A diretriz trabalha com meta geral de pelo menos 10% de perda, com alvo maior conforme o ponto de partida: em quem tem IMC entre 30 e 39,9, 10% ou mais caracteriza obesidade controlada; em quem tem IMC entre 40 e 50, o alvo sobe para 15%. O número não foi escolhido por estética. É em torno dele que os desfechos mudam de patamar.

Perda de pesoO que a evidência associa a essa faixa
5% ou maisMelhora de glicemia, pressão e triglicerídeos; redução da gordura no fígado
10% ou maisRemissão de diabetes tipo 2 cerca de três vezes mais frequente 8; queda expressiva da gravidade da apneia do sono; início do benefício cardiovascular 9
15% ou maisMaior chance de remissão do diabetes e de melhora estrutural do fígado

Estes números descrevem o que se observou em grupos de pessoas nos estudos citados. Não são previsão do que vai acontecer com um paciente específico.

Num estudo com cerca de 15 mil pessoas recém diagnosticadas com diabetes tipo 2, perder 10% ou mais se associou a taxas de remissão de 13 a 20%, contra 4 a 6% entre quem perdeu menos. A faixa intermediária, de 5 a menos de 10%, produziu ganho apenas marginal em relação a perder menos de 5%, e foi claramente inferior aos 10% 8. E numa coorte pareada que comparou pacientes operados e não operados, a queda no risco de eventos cardiovasculares maiores apareceu a partir de aproximadamente 10% de perda no grupo cirúrgico 9.

Por isso o acompanhamento sério não olha só a balança. Olha a cintura, a pressão, a glicemia, os lipídios, o sono e a disposição para o dia.

O que a diretriz desaconselha explicitamente

Vale registrar, porque é o que mais circula em Belém e nas redes: a diretriz desaconselha fórmulas magistrais e produtos manipulados para emagrecer, e desaconselha de forma específica o uso de hormônio da tireoide e de anabolizantes com essa finalidade.

Não é conservadorismo. Hormônio tireoidiano em quem tem tireoide funcionando normalmente não trata obesidade e acrescenta risco ao coração e ao osso. Anabolizante fora de indicação cobra preço hormonal e hepático que continua sendo pago depois que o peso volta. Nos dois casos a conta chega separada do resultado.

O que levar desta leitura

Três coisas, na minha leitura da evidência.

A primeira é que a pergunta "obesidade é doença?" já não é a pergunta útil. A útil é: se é crônica, qual é o plano para os próximos anos, e não para os próximos três meses?

A segunda é que a fita métrica é barata, está na sua casa e diz mais sobre risco do que a balança sozinha. Se a sua cintura passa da metade da sua altura, isso merece uma conversa, mesmo com IMC normal.

A terceira é que interromper tratamento por conta própria é justamente o cenário que os estudos associam ao retorno do peso e dos exames alterados 1,2,3,4. Se surgir efeito colateral, custo alto ou vontade de parar, esse é o assunto da próxima consulta, não uma decisão para tomar sozinho.

Vale marcar avaliação se a sua cintura mede mais que a metade da sua altura, mesmo com peso que você considera aceitável; se você já perdeu peso mais de uma vez e ele voltou; se junto do peso apareceram glicemia alterada, pressão alta, triglicerídeos altos, gordura no fígado ou ronco com pausas na respiração; se usa ou pensa em usar medicação para emagrecer e quer saber se ela é indicada no seu caso; ou se está tomando fórmula manipulada e quer entender o que está tomando. Vale igualmente se a conversa sobre peso vem acompanhada de culpa, sofrimento ou episódios de comer sem controle, porque isso muda o plano de tratamento. Nada disso se resolve por texto na internet: a intenção aqui é ajudar você a chegar na consulta com as perguntas certas, não prescrever pela tela.


Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico nem a prescrição individualizada. Nenhuma medicação citada aqui deve ser iniciada, ajustada ou interrompida por conta própria: a indicação depende de avaliação clínica, e a suspensão sem acompanhamento é exatamente o cenário associado ao retorno do peso e dos exames alterados nos estudos citados.

Se você convive com o peso alto e quer entender o seu caso com base em avaliação clínica e exames, agende uma avaliação com um endocrinologista.

Leia também

Fontes científicas

  1. Wilding JPH, Batterham RL, Davies M, Van Gaal L, Kandler K, Konakli K, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes Obes Metab. 2022;24(8):1553-1564.
    https://doi.org/10.1111/dom.14725
  2. Rubino D, Abrahamsson N, Davies M, Hesse D, Greenway F, Jensen C, et al. Effect of continued weekly subcutaneous semaglutide vs placebo on weight loss maintenance in adults with overweight or obesity: the STEP 4 randomized clinical trial. JAMA. 2021;325(14):1414.
    https://doi.org/10.1001/jama.2021.3224
  3. Horn DB, Linetzky B, Davies MJ, Laffin L, Wang H, Murphy M, et al. Cardiometabolic parameter change by weight regain on tirzepatide withdrawal in adults with obesity. JAMA Intern Med. 2026;186(2):157.
    https://doi.org/10.1001/jamainternmed.2025.6112
  4. West S, Scragg J, Aveyard P, Oke J, Willis L, Haffner S, et al. Weight regain after cessation of medication for weight management: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2026;392:e085304.
    https://doi.org/10.1136/bmj-2025-085304 · PubMed 41500720
  5. Look AHEAD Research Group. Eight-year weight losses with an intensive lifestyle intervention: the Look AHEAD study. Obesity. 2014;22(1):5-13.
    https://doi.org/10.1002/oby.20662 · PubMed 24307184
  6. Jayedi A, Soltani S, Zargar MS, Khan TA, Shab-Bidar S. Central fatness and risk of all cause mortality: systematic review and dose-response meta-analysis of 72 prospective cohort studies. BMJ. 2020;370:m3324.
    https://doi.org/10.1136/bmj.m3324 · PubMed 32967840
  7. Feng Q, Bešević J, Conroy M, Omiyale W, Woodward M, Lacey B, et al. Waist-to-height ratio and body fat percentage as risk factors for ischemic cardiovascular disease: a prospective cohort study from UK Biobank. Am J Clin Nutr. 2024;119(6):1386-1396.
    https://doi.org/10.1016/j.ajcnut.2024.03.018 · PubMed 38839194
  8. Morieri ML, Rigato M, Frison V, D'Ambrosio M, Sartore G, Avogaro A, et al. Early weight loss, diabetes remission and long-term trajectory after diagnosis of type 2 diabetes: a retrospective study. Diabetologia. 2025;68(6):1115-1125.
    https://doi.org/10.1007/s00125-025-06402-w · PubMed 40119903
  9. Aminian A, Zajichek A, Tu C, Wolski K, Brethauer SA, Schauer PR, et al. How much weight loss is required for cardiovascular benefits? Insights from a metabolic surgery matched-cohort study. Ann Surg. 2020;272(4):639-645.
    https://doi.org/10.1097/SLA.0000000000004369 · PubMed 32932320
  10. ABESO, Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica
    https://abeso.org.br/
  11. SBEM, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
    https://www.endocrino.org.br/

Fontes jornalísticas

Dúvidas dos leitores

Se eu tenho IMC normal, posso ter obesidade mesmo assim?

O IMC sozinho não enxerga onde a gordura está. Existem pessoas com IMC dentro da faixa considerada normal que acumulam gordura na barriga e já apresentam alterações de glicemia, triglicerídeos ou pressão. Por isso a avaliação atual olha também a circunferência da cintura, a relação entre cintura e altura e os exames de sangue. O caminho é conversar com seu médico sobre o conjunto, não sobre um número isolado.

Se o peso volta quando eu paro o tratamento, vou ter que tratar para sempre?

A obesidade se comporta como outras doenças crônicas, como pressão alta e diabetes: o tratamento controla enquanto está sendo feito, e a tendência é o quadro voltar quando ele é interrompido. Isso não significa que a mesma medicação, na mesma dose, será usada a vida inteira. Significa que o acompanhamento é contínuo, e a estratégia é revista com o tempo junto do seu médico. Nenhuma decisão de iniciar, ajustar ou suspender tratamento deve ser tomada sozinha.

Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.