
Névoa mental na menopausa: o hormônio resolve?
Em resumo: esquecimento, dificuldade de concentração e a palavra que some no meio da frase estão entre as queixas comuns da transição da menopausa, e elas são reais 3. O que os testes mostram é mais sutil: quando o mesmo teste de memória se repete, a nota costuma subir a cada aplicação, porque a pessoa aprende o teste. No fim da perimenopausa esse ganho some, sem que as notas caiam, e ele reaparece depois da última menstruação 2. Nos estudos em que o hormônio foi sorteado contra placebo, não houve ganho de memória nem de raciocínio, nem logo depois da menopausa nem dez anos adiante 5,6. Começar a terapia combinada depois dos 65 anos aumentou os casos de demência, de 22 para 45 a cada 10 mil mulheres por ano 4. O consenso brasileiro de 2024 não lista cognição entre as indicações da terapia hormonal 11.
Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 03/09/2026
O que saiu na mídia
Em 1º de setembro de 2026 saiu na revista Scientific Reports um estudo do grupo de neurologia da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e no dia seguinte a notícia circulou no Brasil com manchetes dizendo que a terapia hormonal com estriol pode reduzir a névoa mental da menopausa. Uma das matérias foi publicada em veículo paraense.
A notícia não inventou nada: o estudo existe e relatou melhora. O que ficou de fora foi o tipo de estudo, e é nessa diferença que mora a decisão de quem lê.
A queixa é real, e o que os testes mostram é mais sutil
A queixa que chega ao consultório é concreta: o nome que não vem, o cômodo em que se entrou sem lembrar o motivo, a palavra que some no meio da frase. A pergunta por trás quase nunca é sobre menopausa. É se aquilo é o começo de Alzheimer.
Um estudo acompanhou 2.362 mulheres por 4 anos, aplicando várias vezes os mesmos testes de velocidade de raciocínio e memória verbal 2. Teste repetido rende nota melhor a cada aplicação, porque a pessoa aprende o teste. Foi o que aconteceu antes da menopausa, no início da perimenopausa e depois da menopausa. Só no fim da perimenopausa esse ganho não apareceu.
O que some é a melhora esperada, e não o desempenho: as notas não caíram, e é por isso que a comparação entre antes e depois da transição não mostra prejuízo. O ganho volta a acontecer depois da última menstruação, o que indica que a dificuldade dessa fase tem hora para acabar 2.
Nada disso vale para o esquecimento que atrapalha o trabalho de forma clara, que pede investigação de outra causa em vez de ser creditado à menopausa 3.
O que o estudo da notícia de fato testou
O trabalho da Universidade da Califórnia foi uma série de casos com 20 mulheres na menopausa, idade média de 53,5 anos, tratadas por 12 meses com uma cartela que combina estriol e progesterona 1. Série de casos quer dizer que todas receberam o tratamento: não houve grupo de comparação, não houve sorteio e ninguém ficou sem saber o que estava tomando.
Os ganhos relatados foram em névoa mental, concentração, memória de trabalho, velocidade de processamento, memória verbal e resolução de problemas 1. Todos autorrelatados, isto é, medidos pelo que as participantes disseram sentir, e não por teste aplicado por avaliador que desconhecesse o tratamento. Boa parte do artigo é experimento com camundongos, investigando o mecanismo no hipocampo.
Há ainda a declaração de conflito de interesse, que está no próprio artigo e é relevante: a autora sênior é inventora das patentes da universidade sobre tratamento hormonal para cognição e é conselheira da empresa que licenciou essas patentes da universidade 1. Os autores classificam o trabalho como preliminar e dizem que ele justifica investigação adicional.
Nada disso torna o estudo ilegítimo. Série de casos é como boa parte das ideias começa. O problema é a distância entre "20 mulheres relataram melhora, sem grupo de comparação" e "a terapia hormonal reduz a névoa mental", que é o que a manchete entrega.
O que acontece quando o hormônio é sorteado
Existe uma razão específica para desconfiar de estudo sem grupo de comparação nesse tema: a queixa de memória melhora sozinha com o tempo e responde muito a expectativa. Sem alguém tomando placebo para comparar, não há como separar o efeito do remédio da passagem do tempo.
Foi exatamente isso que os estudos com sorteio foram fazer. Um ensaio sorteou mulheres com menopausa recente, em média 1,8 ano depois da última menstruação, entre estrogênio oral, estradiol transdérmico (adesivo) e placebo, todos por 4 anos. Não houve benefício nem prejuízo cognitivo. Cerca de dez anos depois, o mesmo grupo foi reavaliado, e a conclusão dos autores é literal: não houve efeito cognitivo de longo prazo, e o hormônio não melhora nem preserva a função cognitiva nessa população 5.
Uma revisão que reuniu os estudos disponíveis chega ao mesmo lugar: não há benefício consistente sobre a cognição global 6. Essa mesma revisão sugere um efeito que depende do momento: sinal de melhora de memória verbal quando o estrogênio começa na meia-idade, e piora quando a combinação começa na velhice 6. É o que mantém a hipótese viva.
Começar tarde não é neutro
O risco de começar tarde foi medido num ensaio com 4.532 mulheres de 65 anos ou mais, sem demência no início, sorteadas entre estrogênio conjugado com medroxiprogesterona ou placebo, acompanhadas por cerca de 4 anos 4. Foram 40 casos de demência provável no grupo do hormônio contra 21 no placebo, o que corresponde a 45 contra 22 casos a cada 10 mil mulheres por ano. São 23 casos a mais por ano em cada 10 mil tratadas.
Esse número precisa de contexto para não assustar quem não deve se assustar. Ele vem de mulheres que começaram a terapia hormonal depois dos 65 anos, muitas com mais de uma década de menopausa, com uma formulação e uma via específicas. Ele não descreve a mulher de 51 anos que começou hormônio para tratar fogacho. A FEBRASGO cita esse mesmo achado e registra que a associação não apareceu com estrogênio isolado 10.
O que a evidência mais recente permite dizer é modesto e honesto: começar cedo parece ser cognitivamente seguro, e não cognitivamente vantajoso 5. Segurança e benefício são coisas diferentes, e é comum vê-las trocadas uma pela outra na conversa sobre menopausa.
Sobre o restante do balanço, a revisão Cochrane de 2025 concluiu que a terapia combinada provavelmente aumenta o risco de câncer de mama e pode aumentar o de tromboembolismo, enquanto o estrogênio isolado provavelmente aumenta o risco de acidente vascular cerebral e reduz o de fraturas 7. Esses são os riscos que entram na conta de verdade, e nenhum deles é cognitivo.
O que dizem as sociedades brasileiras
O Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal da Menopausa, publicado em 2024 pela Associação Brasileira de Climatério (SOBRAC) junto com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), lista entre as indicações estabelecidas os sintomas vasomotores dentro da janela de oportunidade, os sintomas geniturinários, a prevenção e o tratamento da perda de massa óssea e a menopausa precoce 11. Cognição não está na lista.
Há um recorte em que a literatura sugere efeito positivo direto, e a FEBRASGO o registra: a terapia estrogênica pode ter efeito favorável sobre a cognição quando iniciada logo após menopausa cirúrgica em idade precoce 10. A metanálise citada acima aponta na mesma direção, com melhora de cognição global no tratamento da menopausa cirúrgica, quase todo com estrogênio isolado 6. Retirada de ovários antes da idade esperada é situação diferente de menopausa natural aos 51 anos, e merece conduta própria.
Então o que melhora a névoa mental
A pergunta que eu faço primeiro, antes de qualquer discussão sobre hormônio, é sobre o sono: quantas vezes você acorda, e o que acorda você. Quem acorda cinco vezes por noite com calor não tem um problema de memória, tem um problema de sono se apresentando como problema de memória. Tratar o calor e a insônia é tratar a causa mais próxima da queixa.
O tratamento de primeira linha da insônia não é remédio: é a terapia cognitivo-comportamental para insônia, que ganhou revisão Cochrane dedicada justamente ao período da perimenopausa até o início da pós-menopausa 9. E uma revisão de 30 estudos com 3.501 mulheres encontrou que intervenções psicossociais melhoraram não só depressão e ansiedade, mas também a cognição, com efeito pequeno e mensurável, além de uma melhora grande na qualidade de vida 8. É o sinal mais direto de que tratar o peso emocional e o sono da menopausa traz retorno cognitivo.
O que eu faço na prática, então, é uma ordem de prioridade em vez de um remédio único: investigar e tratar insônia, sintomas vasomotores, ansiedade e depressão pelo que eles são; conferir tireoide, vitamina B12, anemia e uso de medicações que atrapalham a atenção; e cuidar do que protege o cérebro a longo prazo, que é atividade física, pressão, glicemia e colesterol controlados. É essa lista que muda a queixa.
Como essa escolha aparece na consulta
A conduta muda conforme o que mais incomoda.
Com fogacho e noites partidas, a terapia hormonal tem indicação formal, e a cabeça costuma clarear junto, pela porta dos fundos: quem dorme presta atenção. Custa a conta de riscos já conhecida, com câncer de mama na terapia combinada e acidente vascular cerebral 7, mais reavaliação periódica. Poupa anos de calor e sono partido.
Com queixa de memória isolada, sem calor e sem insônia, começar hormônio é assumir os mesmos riscos por um benefício que os estudos com sorteio não acharam. Poupa a frustração de esperar do remédio o que ele não entrega. Custa seguir sem solução rápida enquanto se investiga o resto.
Minha preferência, na queixa isolada, é não começar hormônio por ela. Preferência de médico não é recomendação, e o que decide a escolha não está em estudo nenhum: o quanto isso atrapalha o seu trabalho hoje, o peso do medo de estar ficando doente, quanto tempo você aguenta esperar algo que tende a passar, e o que tomar hormônio significa para você, que costuma vir com uma história de família junto.
Em resumo, o que eu diria numa consulta
A queixa é verdadeira e tem explicação. O desempenho medido costuma continuar dentro da faixa normal, a dificuldade da perimenopausa se parece mais com deixar de melhorar do que com piorar, e ela tende a se resolver depois da última menstruação 2,3. Isso, sozinho, já tira da mesa o medo que costuma trazer a pessoa ao consultório.
O que não se sustenta é começar terapia hormonal por causa da memória. Os estudos com sorteio não acharam ganho cognitivo, nem no curto nem no longo prazo 5,6, as sociedades brasileiras não incluem cognição entre as indicações 10,11, e começar depois dos 65 anos aumentou casos de demência 4. Uma série de 20 casos com melhora relatada pelas próprias participantes, conduzida por quem detém a patente do produto, não muda esse quadro 1. Se você já usa hormônio por fogacho e sente a cabeça melhor, isso é coerente e não é motivo para parar.
A frase para levar embora é essa: a névoa mental da menopausa quase nunca é falta de hormônio, e quase sempre é falta de sono, excesso de calor ou humor não tratado. E os três têm tratamento com resposta melhor do que a que o hormônio ofereceria para a memória. Se é o seu caso, é por aí que a consulta começa.
Quando procurar um endocrinologista
Procure avaliação quando o esquecimento passar a atrapalhar de forma clara o trabalho ou as tarefas do dia, quando houver perda de palavras que outras pessoas notam, desorientação em lugar conhecido ou dificuldade para executar tarefas que você sempre fez, porque esses sinais não são o padrão da transição da menopausa e pedem investigação de outra causa. Procure também quando o fogacho ou a insônia estiverem tirando suas noites, quando houver tristeza ou ansiedade persistentes, ou quando a menopausa tiver chegado antes dos 45 anos ou por retirada dos ovários, situação que tem conduta própria. E procure se você está tomando terapia hormonal há anos sem reavaliação, porque a conta de risco e benefício muda com a idade. Este texto não substitui essa avaliação e não prescreve nada pela internet: dose, via e duração dependem do seu histórico.
Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico nem a prescrição individualizada. Terapia hormonal da menopausa tem indicações, contraindicações e riscos que dependem do histórico pessoal e familiar de cada pessoa, e a decisão de iniciar, manter ou suspender é sempre individual e feita com o seu médico.
Convive com névoa mental, fogacho ou noites mal dormidas na menopausa e quer entender o que fazer no seu caso, agende uma avaliação com um endocrinologista.
Leia também
Fontes científicas
- Itoh N, Itoh Y, Patil R, Till C, Smith M, Schwartz J, et al. Targeting hormone treatment for the brain in menopause. Scientific Reports. 2026;16(1). doi:10.1038/s41598-026-65603-4.
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→ https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/334-entendendo-a-th-acima-de-60-anos-para-quem-e-como - Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal da Menopausa, 2024, da Associação Brasileira de Climatério (SOBRAC) com a FEBRASGO: lista as indicações estabelecidas da terapia hormonal, entre elas sintomas vasomotores, sintomas geniturinários, perda de massa óssea e menopausa precoce; cognição não consta
→ https://www.sobrac.org.br/
Fontes jornalísticas
- Metrópoles / Rdnews: Terapia hormonal com estriol pode reduzir névoa mental na menopausa (02/09/2026) → https://www.rdnews.com.br/bem-estar/terapia-hormonal-com-estriol-pode-reduzir-nevoa-mental-na-menopausa/248325
- A Província do Pará: Terapia hormonal personalizada mostra potencial contra a névoa mental na menopausa (02/09/2026) → https://aprovinciadopara.com.br/terapia-hormonal-personalizada-mostra-potencial-contra-a-nevoa-mental-na-menopausa/
Dúvidas dos leitores
Se a névoa mental melhora sozinha depois da menopausa, por que eu deveria tratar alguma coisa?
Porque o que melhora sozinho é o desempenho nos testes de memória e de velocidade de raciocínio, e não necessariamente o que está atrapalhando a sua vida agora. Quem passa a noite acordando com calor, dorme mal e chega ao trabalho sem conseguir se concentrar tem um problema tratável hoje, independente de o gráfico voltar ao normal daqui a alguns anos. A frase "é temporário" serve para tirar o medo de demência, não para deixar você sem conduta. O que muda é o alvo do tratamento: trata-se o calor, o sono e o humor, que têm remédio e têm resposta, em vez de tratar o esquecimento como se ele fosse a doença.
Já uso terapia hormonal por causa do fogacho e sinto que minha cabeça ficou melhor. Estou imaginando coisas?
Provavelmente não, e isso não contradiz o que os estudos mostram. Uma coisa é o hormônio melhorar a memória diretamente, que é o que os ensaios com sorteio não encontraram. Outra é você parar de acordar cinco vezes por noite por causa do calor e, dormindo melhor, conseguir prestar atenção de novo. O caminho é indireto e o resultado é real. Por isso a recomendação não é parar o hormônio que está funcionando para os sintomas dele: é não começar um hormônio só por causa da queixa de memória, quando não há calor nem insônia para tratar.
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