
Insulina semanal com semaglutida na mesma caneta: a Anvisa aprovou. Para quem serve?
Em resumo: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou em 28/09/2026 a primeira caneta que junta uma insulina basal semanal, a icodeca, e a semaglutida, com uma aplicação por semana 5. Ela é indicada para adultos com diabetes tipo 2 que não chegaram à meta com insulina basal ou com remédio da classe da semaglutida 5. Nos estudos, baixou mais a glicada que cada remédio sozinho e igualou o esquema de 3 a 5 injeções diárias de insulina, com menos hipoglicemia e menos peso que as insulinas 1,2,3. O custo é mais enjoo e, para quem já usava semaglutida, perder a vantagem de peso dela 1,2.
Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 29/09/2026
O que saiu na mídia
Em 28/09/2026, a Anvisa anunciou o registro da combinação de insulina icodeca com semaglutida (Kyinsu), pela Resolução 3.790/2026 publicada no Diário Oficial da União 5. Segundo a agência, é o primeiro medicamento a juntar, em dose fixa e aplicação semanal, uma insulina basal e um agonista do receptor de GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon 1, um hormônio do intestino), a classe da semaglutida 5.
Duas informações não aparecem no comunicado: quando a caneta chega às farmácias e quanto vai custar 5. A icodeca sozinha, registrada pela Anvisa desde 07/03/2025, ainda não tinha data de lançamento no Brasil em março de 2026 7,8.
O que essa caneta junta
A caneta soma duas coisas que muita gente com diabetes tipo 2 já usa separadas. A icodeca é uma insulina basal que dura a semana inteira, e a semaglutida (Ozempic, na versão para diabetes) é o remédio semanal que aumenta a liberação de insulina depois das refeições, reduz o apetite e esvazia o estômago mais devagar.
O detalhe que muda a prática é a proporção fixa. Cada unidade de insulina vem acompanhada de uma quantidade fixa de semaglutida, porque as duas estão misturadas na mesma solução 1. Quando a dose de insulina sobe, a de semaglutida sobe junto; não há como mexer numa sem mexer na outra.
Juntar insulina basal com um remédio dessa classe não é ideia nova. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) de 2026 já recomenda considerar a combinação em proporção fixa para quem precisa de insulina, para melhorar a glicose com menos ganho de peso 6. A novidade é o intervalo: as combinações anteriores eram de aplicação diária, e esta é semanal 5,6.
O que os estudos mostraram
A caneta combinada controlou a glicose melhor que cada componente sozinho e tão bem quanto o esquema completo de insulina, com uma injeção por semana. A glicada é o exame que reflete a média da glicose dos últimos 3 meses; os resultados em 1 ano, ou 40 semanas no último estudo:
- Contra a icodeca sozinha, em quem já usava insulina basal: a glicada caiu 1,55 ponto com a combinação e 0,89 com a insulina sozinha, partindo de 8,22% 1.
- Contra a semaglutida sozinha, em quem já usava a classe: caiu 1,35 ponto com a combinação e 0,90 com a semaglutida 1 mg, partindo de 8,0% 2.
- Contra 3 a 5 injeções diárias, uma de insulina glargina e 2 a 4 de insulina rápida nas refeições: queda igual nos dois grupos, 1,47 e 1,40 ponto 3.
- Contra a glargina diária, em quem só usava comprimidos: 3,32 pontos contra 2,44, partindo de cerca de 9,5% 4.
A hipoglicemia relevante, abaixo de 54 mg/dL ou com necessidade de ajuda de outra pessoa, ficou bem menos frequente que com as insulinas. Contra o esquema de várias injeções diárias, foram cerca de 2 episódios por pessoa por ano com as insulinas e cerca de 1 a cada 5 anos com a combinação, 91% a menos 3. Contra a icodeca sozinha, 78% a menos, e contra a glargina, 51% a menos 1,4. Contra a semaglutida sozinha, a hipoglicemia foi rara e sem diferença entre os grupos 2.
No peso, a combinação ficou cerca de 6,7 kg abaixo do esquema de várias injeções diárias e perto de 4,6 kg abaixo da glargina, que fez ganhar peso 3,4. E precisou de menos insulina: 270 unidades a menos por semana que o esquema de várias injeções 3.
Na minha leitura, o resultado que mais importa é o do esquema de várias injeções. Para quem aplica insulina antes de cada refeição, a proposta é trocar de 21 a 35 injeções por semana por 1, sem perder controle e com menos hipoglicemia 3.
O que ela custa: enjoo e, em quem já usa semaglutida, peso
O estômago é o preço mais comum. Os efeitos gastrointestinais, como enjoo, foram os eventos adversos mais relatados com a combinação: 47% das pessoas no estudo contra a icodeca e 44% no estudo contra as várias injeções 1,3. É o efeito esperado da semaglutida, e contra a semaglutida sozinha a frequência foi parecida, 31% e 34% 2.
Para quem já usa semaglutida, o custo é outro: a vantagem de peso diminui. No estudo com essas pessoas, quem ficou só com a semaglutida 1 mg perdeu 3,7 kg, e quem trocou pela combinação ganhou 0,84 kg 2. A glicose ficou melhor com a combinação, o peso ficou melhor sem ela 2.
Um erro que eu espero ver com essa notícia circulando é a leitura de que a caneta combinada é "mais semaglutida". Não é: ela é insulina com semaglutida, feita para a glicose, e não tem indicação para obesidade 5. Quem usa semaglutida pensando sobretudo no peso não está no centro desta novidade.
Para quem a bula brasileira indica
A indicação aprovada é estreita, e isso vale conhecer antes de pedir a troca. A caneta é para adultos com diabetes tipo 2 que não estão bem controlados apesar de insulina basal ou de um remédio da classe da semaglutida, como complemento de dieta, exercício e comprimidos para diabetes 5. Três grupos ficam fora:
| quem só usa comprimidos: | o estudo contra a glargina mostrou bom resultado nesse grupo, mas a indicação brasileira não o inclui 4,5; |
|---|---|
| quem tem diabetes tipo 1: | a indicação é só para o tipo 2 5; |
| quem tem obesidade sem diabetes: | a caneta não foi aprovada para isso 5. |
Os perfis em que eu vejo mais sentido, dentro da indicação, são dois. Quem já usa insulina basal todo dia, está fora da meta e resiste a acrescentar insulina nas refeições. E quem usa semaglutida para diabetes, está fora da meta mesmo assim, e para quem simplificar o controle da glicose importa mais que a perda de peso.
Como a troca entra na prática
Por enquanto, a troca não tem como entrar na prática: sem data de chegada às farmácias, a caneta ainda não é uma opção de prescrição 5. Quando chegar, a lógica dos estudos é a de substituir a insulina basal ou a semaglutida em uso, e não somar a elas 1,2,3.
Nos estudos, a dose foi ajustada pela glicemia medida até uma meta, que no mais recente ficava entre 70 e 90 mg/dL 4. Como a proporção é fixa, cada ajuste de insulina ajusta também a semaglutida 1. Isso simplifica a rotina, mas tira uma flexibilidade: se o enjoo aparecer, não dá para reduzir só a semaglutida.
Antes de falar em caneta nova, eu olho as glicemias e as aplicações da última semana: é ali que aparece se o problema é o remédio ou a rotina, e só o primeiro se resolve trocando de caneta.
A escolha que é sua
Para quem tem diabetes tipo 2 e usa semaglutida fora da meta, quando a combinação chegar, há dois caminhos defensáveis.
O primeiro é acrescentar uma insulina basal separada, mantendo a semaglutida. Ele preserva a dose de semaglutida e a perda de peso que ela traz, e permite ajustar cada remédio sozinho. Custa uma aplicação a mais, diária se a basal for a glargina ou a degludeca.
O segundo é trocar pela combinação semanal. Ela baixou mais a glicada que a semaglutida sozinha e mantém uma injeção por semana 2. Custa, nos estudos, cerca de 4,5 kg de diferença de peso em relação a quem ficou na semaglutida, um enjoo que não se ajusta à parte e um preço ainda desconhecido 2,5.
Nenhum estudo mede o que decide entre os dois: quanto o peso ainda importa para aquela pessoa, quanto uma injeção a mais por dia pesa na rotina, e quanto vale poder mexer num remédio sem mexer no outro. Eu tendo a preferir a combinação para quem tem dificuldade de manter várias aplicações e já perdeu o peso que queria perder. É uma preferência minha, e não vale como regra: quem ainda quer perder peso tem na semaglutida com a basal separada um caminho igualmente legítimo.
Em resumo, o que eu diria numa consulta
A caneta semanal de insulina icodeca com semaglutida, aprovada pela Anvisa em 28/09/2026, é para adultos com diabetes tipo 2 fora da meta apesar de insulina basal ou de semaglutida 5. Nos estudos, controlou a glicose melhor que cada remédio sozinho e igual ao esquema de várias injeções diárias, com menos hipoglicemia e menos peso que as insulinas 1,2,3. O enjoo é o efeito mais comum, e quem já usa semaglutida perde parte da vantagem de peso 1,2. Ainda não há data de chegada às farmácias 5.
Se for para guardar uma coisa: essa caneta simplifica o tratamento de quem precisa de insulina, não é uma semaglutida mais forte.
Se você aplica insulina várias vezes ao dia ou está fora da meta com o tratamento atual, esse é um bom momento para rever o esquema, com ou sem a caneta nova.
Quando procurar um endocrinologista
Vale procurar avaliação se a sua glicada segue acima da meta mesmo com insulina basal ou com semaglutida, se você aplica insulina várias vezes ao dia e a rotina está difícil, se tem hipoglicemias repetidas ou noturnas, se o enjoo da semaglutida atrapalha o tratamento, ou se esquece aplicações com frequência. Também vale se você usa semaglutida e não sabe se o seu objetivo principal hoje é a glicose ou o peso, porque a resposta muda a escolha. Na consulta dá para rever o esquema, ajustar as doses e discutir se a combinação semanal faz sentido quando chegar. Pela internet dá para entender as opções; escolher entre elas pede a consulta.
Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico ou a prescrição individualizada. Não troque, suspenda nem mude a dose da sua insulina ou da semaglutida sem orientação médica: a troca entre esses remédios tem regras de conversão de dose, e errar nelas pode causar hipoglicemia grave ou glicose muito alta.
Se você tem diabetes tipo 2 e quer saber se a combinação semanal de insulina e semaglutida faz sentido para o seu caso, agende uma avaliação com um endocrinologista.
Leia também
Fontes científicas
- Mathieu C, Giorgino F, Kim S, Larsen J, Philis-Tsimikas A, Ramachandran A, et al. Once-weekly IcoSema versus once-weekly insulin icodec in type 2 diabetes management (COMBINE 1): an open-label, multicentre, treat-to-target, randomised, phase 3a trial. Lancet Diabetes Endocrinol. 2025;13(7):568-579. doi:10.1016/S2213-8587(25)00096-8.
→ https://doi.org/10.1016/S2213-8587(25)00096-8 · PubMed 40482671 - Lingvay I, Benamar M, Chen L, Fu A, Jódar E, Nishida T, et al. Once-weekly IcoSema versus once-weekly semaglutide in adults with type 2 diabetes: the COMBINE 2 randomised clinical trial. Diabetologia. 2025;68(4):739-751. doi:10.1007/s00125-024-06348-5.
→ https://doi.org/10.1007/s00125-024-06348-5 · PubMed 39820580 - Billings L, Andreozzi F, Frederiksen M, Gourdy P, Gowda A, Ji L, et al. Once-weekly IcoSema versus multiple daily insulin injections in type 2 diabetes management (COMBINE 3): an open-label, multicentre, treat-to-target, non-inferiority, randomised, phase 3a trial. Lancet Diabetes Endocrinol. 2025;13(7):556-567. doi:10.1016/S2213-8587(25)00052-X.
→ https://doi.org/10.1016/S2213-8587(25)00052-X · PubMed 40482670 - Ji L, Benamar M, Mohan V, Pletsch-Borba L, Porcellati F, Wang N, et al. Once-weekly IcoSema versus once-daily insulin glargine U100 in type 2 diabetes management (COMBINE 4): an open-label, multicentre, treat-to-target, randomised, phase 3b trial. Lancet Diabetes Endocrinol. 2026;14(10):831-840. doi:10.1016/S2213-8587(26)00136-1.
→ https://doi.org/10.1016/S2213-8587(26)00136-1 · PubMed 42594928 - Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa registra caneta para diabetes que combina insulina e semaglutida, 28/09/2026 (Resolução 3.790/2026 no DOU)
→ https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-registra-caneta-para-diabetes-que-combina-insulina-e-semaglutida - Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Diretriz 2026: manejo da terapia antidiabética no DM2 (recomendação R12, combinação em proporção fixa de insulina e agonista do GLP-1)
→ https://diretriz.diabetes.org.br/manejo-da-terapia-antidiabetica-no-dm2/ - Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Awiqli (insulina icodeca): novo registro, publicado em 07/03/2025
→ https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/awiqli-insulina-icodeca-novo-registro - Novo Nordisk Brasil. Awiqli aprovado nos EUA para adultos com diabetes tipo 2, comunicado de 27/03/2026, com a situação do lançamento no Brasil
→ https://www.novonordisk.com.br/noticias-e-imprensa/busca-noticias/awiqli-aprovado-nos-eua-o-primeiro-e-unico-tratamento-com-insulina-basal-de-aplicacao-semanal-para-adultos-com-diabetes-tipo-2.html
Fontes jornalísticas
- Diabetes: Anvisa aprova novo medicamento que combina insulina e semaglutida, Metrópoles, 28/09/2026 → https://www.metropoles.com/saude/diabetes-anvisa-aprova-novo-medicamento-que-combina-insulina-e-semaglutida
- Anvisa aprova caneta para diabetes que combina insulina e semaglutida, Poder360, 28/09/2026 → https://www.poder360.com.br/poder-saude/anvisa-aprova-caneta-para-diabetes-que-combina-insulina-e-semaglutida/
Dúvidas dos leitores
Uso semaglutida para diabetes e ainda não cheguei à meta da glicada. Trocar pela caneta combinada vai me fazer emagrecer mais?
Provavelmente não. No estudo que comparou as duas em quem já usava a classe da semaglutida, a caneta combinada baixou mais a glicada, mas quem ficou só com a semaglutida perdeu cerca de 3,7 kg enquanto quem trocou ganhou um pouco menos de 1 kg. A combinação foi feita para controlar a glicose com menos injeções, não para emagrecer, e ela não tem indicação para obesidade. Se o peso é parte importante do seu objetivo, isso entra na conversa com quem acompanha você antes de qualquer troca.
Tomo só comprimidos para diabetes e a glicose está alta. Posso começar direto pela caneta combinada?
Pela bula brasileira, não é esse o caminho previsto. A Anvisa aprovou a caneta para quem não chegou à meta usando insulina basal ou um remédio da classe da semaglutida. Um estudo testou a combinação em quem só usava comprimidos e ela funcionou bem, mas isso ainda não entrou na indicação aprovada aqui. Usar fora dessa situação é decisão médica individual, que precisa ser explicada e combinada com você.
Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.