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Gordura no fígado: quando é só um achado e quando é problema

Em resumo: gordura no fígado atinge cerca de 1 a cada 3 adultos e quase nunca dá sintoma. O ultrassom que a encontra descreve quanta gordura existe, e essa não é a informação que decide o seu prognóstico. O que decide é se aquela gordura já deixou cicatriz no tecido do fígado. Existe uma conta simples, feita com quatro dados que você provavelmente já tem em exames de rotina, que separa quem pode ficar tranquilo de quem precisa de um exame a mais. Perder peso é o tratamento com melhor evidência, e o efeito vem em degraus.

Por Dr. Márcio Gester, Endocrinologista, CRM-PA 14727, RQE 9424. Atualizado em 05/08/2026.

O fígado não dói

Essa é a chave para entender por que essa doença é descoberta por acaso quase sempre. O fígado não tem terminação nervosa capaz de doer no tecido em si: a cápsula que o envolve dói quando estica muito, e o interior do órgão, onde a gordura se acumula e onde a cicatriz se forma, é silencioso. Uma pessoa pode acumular gordura por vinte anos, desenvolver inflamação, formar cicatriz, e não sentir absolutamente nada até que o fígado comece a falhar.

Isso muda o significado de "eu me sinto bem". Sentir-se bem é uma informação valiosa em muitas doenças e é uma informação quase vazia nesta. E explica por que a avaliação é feita por conta e por exame, não por sintoma.

A cena mais comum do consultório

A situação que mais se repete é a pessoa chegar com um ultrassom de abdome que ela fez por outro motivo, muitas vezes investigando uma dor que não tinha nada a ver com o fígado, e o laudo trouxe a frase "esteatose hepática" com um grau ao lado: leve, moderada ou acentuada. Entre o laudo e a consulta, ela leu na internet a palavra cirrose.

A primeira coisa que costumo dizer nessa consulta é que o grau descrito no laudo não é o que vai definir o cuidado dela. É contraintuitivo, e é o ponto mais importante da conversa inteira: o ultrassom mede quanta gordura tem, e o que prevê o futuro do fígado é outra coisa, a cicatriz. Muita gordura sem cicatriz é uma situação mais tranquila do que pouca gordura com cicatriz.

Por que mudou o nome

O nome antigo era doença hepática gordurosa não alcoólica, e ele tinha um defeito de nascença: definia a doença pelo que ela não era. Isso empurrava a conversa para o lugar errado, porque a primeira reação de quem recebia o diagnóstico era se defender do álcool, quando o problema estava no metabolismo.

O nome atual é doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, abreviada internacionalmente como MASLD1. A mudança não foi cosmética: para receber esse diagnóstico, é preciso ter gordura no fígado e pelo menos um fator cardiometabólico junto, como excesso de peso, aumento da circunferência abdominal, açúcar elevado no sangue, pressão alta ou alteração no colesterol1,4. A Sociedade Brasileira de Diabetes adotou em português a sigla DHEM, de doença hepática esteatótica metabólica.

Quando a doença passa a ter inflamação e dano às células, e não só gordura, ela ganha outro nome, MASH, a esteato-hepatite. Essa é a forma que progride mais rápido1,2.

Quantas pessoas têm

Gordura no fígado é a doença crônica de fígado mais comum do mundo, atingindo até 38% dos adultos1,2. Nos Estados Unidos, um levantamento nacional que usou elastografia, um exame que mede a rigidez do fígado, encontrou a doença em 25,6% dos adultos, com rigidez aumentada em 11,3%3.

Em quem tem diabetes tipo 2 os números são muito maiores: uma reunião de estudos com cerca de 1,8 milhão de pessoas encontrou gordura no fígado em 65% e a forma inflamada em 32%1.

No Brasil, a diretriz conjunta da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, da Sociedade Brasileira de Hepatologia e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade organizou 48 recomendações sobre o tema, dirigidas especificamente a adultos com sobrepeso ou obesidade, que é onde a doença se concentra5. É um documento nacional relevante porque foi escrito pensando em quem investiga fora de centro especializado, com os recursos que existem na prática brasileira.

O que realmente decide o prognóstico

A gordura sozinha, sem inflamação e sem cicatriz, é a forma mais lenta: ela avança cerca de uma etapa de cicatriz a cada 14 anos, e leva a uma cicatriz avançada em torno de 2 a 3 de cada 100 pessoas ao longo de 15 a 20 anos2. Quando existe inflamação, o ritmo dobra, uma etapa a cada 7 anos, e a cicatriz avançada aparece em 25 a 30 de cada 100 pessoas em 8 a 10 anos2.

Entre as pessoas que têm apenas gordura, algo em torno de 15 a 40 de cada 100 desenvolvem a forma inflamada ao longo do tempo1,2.

E o achado que muda a lógica do acompanhamento: é o estágio da cicatriz, e não a intensidade da inflamação, que determina o risco de morrer por doença do fígado e por qualquer causa1. Por isso a pergunta clínica não é "quanta gordura eu tenho", é "quanta cicatriz eu já tenho".

A conta que responde essa pergunta

Existe um cálculo chamado FIB-4 que estima o risco de cicatriz avançada usando quatro dados que a maioria das pessoas já tem em exames de rotina: a idade, duas enzimas do fígado que aparecem no exame de sangue comum, chamadas AST e ALT, e a contagem de plaquetas2. Não precisa de exame novo na maior parte das vezes.

O resultado cai em uma de três faixas2:

Resultado do FIB-4O que significaConduta habitual
abaixo de 1,3risco baixo de cicatriz avançadacuidar do metabolismo e repetir a conta periodicamente
entre 1,3 e 2,67risco indeterminadoexame adicional, em geral elastografia
acima de 2,67risco altoavaliação com hepatologista

Faixas do FIB-4 conforme a literatura atual2. Os valores orientam a decisão sobre investigar mais ou não, e não substituem a avaliação do caso completo.

Um valor abaixo de 1,3 tem alto poder de descartar cicatriz avançada, com valor preditivo negativo de 85 a 90%2,9. Traduzindo: quando dá baixo, dá para ficar tranquilo quanto à cicatriz e concentrar o esforço no metabolismo.

A conta tem limites que precisam ser respeitados, e eles não são detalhe: o FIB-4 não é validado abaixo dos 35 anos nem em crianças, e a partir dos 65 anos o ponto de corte de risco baixo sobe para algo entre 1,9 e 2,0, porque a conta usa idade e passa a superestimar risco em quem é mais velho9.

A Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda que toda pessoa com diabetes tipo 2 ou pré-diabetes seja rastreada com o FIB-4, e que valores a partir de 1,3 sigam para elastografia. As recomendações brasileiras se dividem entre si na porta de entrada, e isso é informação e não confusão: a diretriz conjunta das sociedades de endocrinologia, hepatologia e obesidade organiza a investigação em torno de quem tem sobrepeso ou obesidade5, enquanto a diretriz de diabetes parte de quem tem alteração de açúcar no sangue. As duas portas levam à mesma casa, e a maioria das pessoas se encaixa nas duas ao mesmo tempo. Quem tem só um dos dois sinais é justamente quem mais escapa do rastreamento, e por isso é a pessoa que vale a pena lembrar de avaliar.

Como eu leio isso na prática: quando alguém chega com laudo de esteatose, a informação que eu mais quero não está no laudo, está nos exames de sangue que a pessoa já trouxe na mesma pasta. Muitas vezes dá para responder a pergunta mais importante do dia com o que já está ali, sem pedir nada novo.

O tratamento vem em degraus

O tratamento com melhor evidência é a perda de peso, e o efeito dela sobre o fígado é escalonado. Cada faixa entrega um resultado diferente2,4:

Exercício merece um parágrafo próprio porque costuma ser subestimado: ele reduz a gordura do fígado e melhora os parâmetros metabólicos mesmo quando não há perda de peso na balança. Isso faz dele parte do tratamento desde o primeiro dia, e não uma consequência da dieta.

Uma pergunta que eu costumo fazer na consulta, e que muda mais o plano do que parece: o que você já tentou antes e por que parou. Quem chega com diagnóstico de gordura no fígado quase sempre já tentou emagrecer várias vezes, e repetir uma estratégia que já falhou por um motivo conhecido é a forma mais rápida de perder mais um ano.

Os medicamentos, e onde está o Brasil nessa história

A manchete internacional e a realidade da farmácia brasileira não são a mesma coisa, e a diferença entre as duas é o que mais gera expectativa frustrada na consulta.

Duas medicações receberam aprovação nos Estados Unidos especificamente para a forma inflamada da doença com cicatriz intermediária, e em ambos os casos por aprovação acelerada: o resmetirom (Rezdiffra), em março de 2024, e a semaglutida na dose de 2,4 mg semanal (Wegovy), em agosto de 20258. Aprovação acelerada significa que o remédio entrou no mercado com base em melhora do tecido do fígado, com a confirmação de benefício de longo prazo ainda em andamento.

O estudo que sustentou a aprovação da semaglutida acompanhou 800 pessoas com a forma inflamada confirmada por biópsia e cicatriz intermediária. Metade recebeu a medicação e metade recebeu uma aplicação sem efeito, e ninguém sabia quem estava recebendo o quê. Em 72 semanas, a doença inflamada se resolveu sem piora da cicatriz em 62,9 de cada 100 pessoas do grupo da medicação, contra 34,3 de cada 100 do grupo sem efeito. A cicatriz melhorou pelo menos uma etapa em 36,8 contra 22,4 de cada 100. A perda de peso foi de 10,5% contra 2,0%6.

A tirzepatida (Mounjaro) tem resultado favorável em estudo de fase intermediária, o que significa evidência promissora e ainda não confirmada em estudo grande, e não tem aprovação para essa indicação7.

O que isso significa aqui é diferente para cada uma das duas, e a notícia boa costuma surpreender quem chega ao consultório. A semaglutida (Wegovy) já tem a indicação de fígado registrada na bula brasileira: o texto aprovado diz que ela é indicada para o tratamento da esteato-hepatite associada à disfunção metabólica não cirrótica, em adultos com fibrose hepática moderada a avançada, correspondente aos estágios F2 a F3. Ou seja, aqui isso não é uso fora de bula: é indicação registrada, ao lado das outras três que a mesma bula traz, que são controle de peso, uso em adolescentes e redução de risco cardiovascular.

Duas ressalvas que a própria bula impõe e que mudam quem pode usar. A indicação vale para a doença não cirrótica: quem já tem cirrose está fora dela. E ela exige fibrose já estabelecida em estágio moderado a avançado, o que significa que a maioria das pessoas com gordura no fígado não se enquadra, porque a maioria tem doença em estágio bem anterior a esse. Achar que o laudo de esteatose por si só autoriza a medicação é o mal-entendido mais comum sobre esse ponto.

O resmetirom (Rezdiffra) está no outro extremo: não tem registro na Anvisa e não está à venda no Brasil, e chegar até ele hoje depende de importação individual autorizada, com o custo e a burocracia que isso implica.

Vale distinguir as apresentações, porque elas confundem: a semaglutida também é vendida sob marcas registradas para diabetes tipo 2 (Ozempic, Extensior, Ozivy), que são outras indicações e outras doses, e não carregam a indicação de fígado.

O corte da cirrose não é burocrático, e sim baseado em resultado: um estudo feito justamente em quem já tinha cirrose por essa doença mostrou redução da gordura sem melhora da cicatriz e sem resolução da inflamação8. Quanto mais tarde, menos a medicação entrega.

Pioglitazona e vitamina E: as duas mais antigas, e ainda de pé

Antes das canetas existir um estudo que até hoje organiza a discussão. Ele comparou três grupos ao longo de quase dois anos, em pessoas com a forma inflamada confirmada por biópsia e sem diabetes: um grupo tomou pioglitazona 30 mg por dia, outro tomou vitamina E 800 UI por dia, e o terceiro tomou comprimido sem efeito, sem ninguém saber quem tomava o quê. A vitamina E atingiu o alvo principal do estudo, com melhora em 43 de cada 100 pessoas contra 19 de cada 100 do grupo sem efeito. A pioglitazona ficou logo abaixo do alvo estatístico, mas produziu a maior taxa de resolução da doença inflamada, 47 de cada 100 contra 21 de cada 100. Nenhuma das duas melhorou a cicatriz10.

A pioglitazona é um remédio antigo de diabetes que aumenta a sensibilidade do corpo à insulina, e é justamente por isso que ela funciona no fígado: ela ataca o mecanismo da doença, não o sintoma. A preferência por ela aparece quando existe diabetes tipo 2 ou pré-diabetes junto, e a Associação Americana de Diabetes a endossa nesse cenário9. Na Europa, o posicionamento conjunto das sociedades de fígado, diabetes e obesidade não a lista como terapia dirigida ao fígado, e essa divergência entre os dois lados do Atlântico é real e não tem vencedora declarada.

O preço dela vem em efeitos que precisam ser ditos por inteiro. A bula brasileira da pioglitazona (Actos) contraindica iniciar o medicamento em quem tem insuficiência cardíaca estabelecida nas classes III ou IV da classificação da New York Heart Association, porque a medicação causa retenção de líquido e pode desencadear ou piorar insuficiência cardíaca. A mesma bula traz o aumento de fraturas, sobretudo em mulheres, e a questão dos tumores de bexiga: em dois estudos de três anos houve câncer de bexiga em 0,44% de quem usou contra 0,14% de quem não usou, e o estudo observacional de longo prazo estimou um aumento absoluto de 3 casos em cada 10 mil pessoas, saindo de cerca de 7 para cerca de 10 em 10 mil. A bula conclui que os dados são insuficientes para dizer se a pioglitazona promove esse tumor, e determina que ela não seja usada em quem tem câncer de bexiga ativo. Ganho de peso também é esperado, o que soa contraditório num tratamento de doença metabólica e precisa entrar na conversa antes de começar.

A vitamina E tem a evidência dela concentrada em quem tem a forma inflamada e não tem diabetes. Um dado recente muda a conversa sobre dose: um estudo de 2026 comparou 200, 400 e 800 UI por dia e as três reduziram as enzimas do fígado praticamente igual, em torno de 36 a 38%, contra 12% no grupo sem efeito, sem sinal de segurança em 24 semanas11. Isso apoia usar a dose menor, o que importa porque a dose alta e prolongada é justamente a que carrega as preocupações de segurança de longo prazo. Nem tudo é favorável: outro estudo, com vitamina E isolada ou combinada a um ômega 3, não encontrou benefício sobre as enzimas do fígado nem sobre o controle glicêmico15.

Na minha leitura, essas duas continuam relevantes por um motivo prático que os artigos internacionais raramente registram: são as opções de custo acessível no Brasil. Uma pessoa sem diabetes e sem plano para bancar uma caneta cara não fica sem alternativa, e isso muda a conversa de consultório.

Dapagliflozina: a novidade mais recente

A dapagliflozina (Forxiga) é do grupo que faz o rim eliminar açúcar pela urina, hoje muito usado em diabetes tipo 2, insuficiência cardíaca e doença renal crônica. Em 2025 saiu o primeiro estudo do grupo com biópsia de fígado como desfecho: 154 adultos na China, com a forma inflamada confirmada, metade tomando dapagliflozina 10 mg por dia e metade comprimido sem efeito, por 48 semanas. A doença inflamada melhorou sem piora da cicatriz em 53 de cada 100 contra 30 de cada 100, a resolução completa aconteceu em 23 contra 8 de cada 100, e a cicatriz melhorou em 45 contra 20 de cada 100. Abandono por efeito adverso foi baixo nos dois grupos, 1% contra 3%12.

Os números são bons e o entusiasmo precisa de freio: é um estudo de tamanho modesto, feito num único país, com 48 semanas de duração, e a dapagliflozina não tem aprovação para tratar doença do fígado em lugar nenhum. No Brasil a bula cobre diabetes tipo 2, insuficiência cardíaca e doença renal crônica, e nada de fígado.

Como isso entra na minha prática: quando a pessoa já tem indicação independente para uma dessas medicações, a decisão fica muito mais fácil. Alguém com diabetes tipo 2 que também tem gordura no fígado com sinal de fibrose não precisa escolher entre tratar uma coisa ou outra, e aí o remédio escolhido para o diabetes passa a ser o que também trabalha a favor do fígado. Quando não existe essa indicação paralela, a conversa muda de figura, porque passa a ser uso fora de bula puro, com custo e sem respaldo de registro.

Silimarina e os fitoterápicos: o que a evidência mostra

Essa é a pergunta que mais aparece, e quase sempre com o vidro já comprado na bolsa. Silimarina, extraída do cardo-mariano, é vendida como protetor do fígado e é a mais popular de uma família que inclui várias plantas e fórmulas de farmácia de manipulação.

Uma revisão Cochrane de 2025, que reuniu 17 estudos e 2.069 participantes, encontrou o seguinte: a silimarina pode reduzir uma enzima do fígado em cerca de 7 unidades e outra em cerca de 8 unidades comparada a comprimido sem efeito, e essa conclusão tem certeza muito baixa, o grau mais fraco que uma revisão dessas atribui. Não houve benefício no tecido do fígado, que é o que de fato importa, e nenhum dos estudos avaliou mortalidade ou qualidade de vida13. Traduzindo: um efeito pequeno, em um exame de sangue, sem sinal de que o fígado melhorou por dentro e sem sinal de que alguém viveu melhor ou mais.

Fazer uma enzima baixar não é tratar a doença. Enzima é o termômetro, e abaixar o termômetro sem mudar a febre é o tipo de resultado que parece bom no papel de exame e não muda o desfecho de ninguém.

Existe um lado mais sério do que apenas gastar dinheiro à toa. Suplementos e produtos à base de plantas respondem hoje por cerca de 20% dos casos de lesão de fígado causada por substância nos Estados Unidos, com participação desproporcional nos casos graves, os que evoluem para falência do fígado, transplante ou morte14. Alguém que quer proteger o fígado e toma um produto sem controle de composição pode conseguir exatamente o contrário.

A pergunta que eu faço em toda primeira consulta, e que rende mais que qualquer exame: o que você toma que não foi eu nem outro médico que receitou. Chá, cápsula, fórmula manipulada, suplemento de academia, tudo entra. Não pergunto para repreender, pergunto porque essa lista muda a interpretação dos exames e às vezes é a própria causa do que estamos investigando.

Quando alguém me diz que toma silimarina, eu não faço cara feia nem trato como bobagem. A intenção por trás é boa e a pessoa está tentando cuidar de si com o que tinha à mão. O que eu explico é que o dinheiro do suplemento rende muito mais em outro lugar, e que a decepção com o resultado não é falha dela: é que o produto nunca teve como entregar aquilo.

A decisão que é sua

Quando o FIB-4 cai na faixa intermediária, existem dois caminhos legítimos, e nenhum deles é errado.

O primeiro é investigar agora com elastografia, para saber em que estágio de cicatriz o fígado está. Isso custa dinheiro ou tempo de fila, às vezes exige deslocamento, e pode terminar com a informação de que estava tudo bem. O que ele poupa é a incerteza, e para muita gente a incerteza é o que mais pesa.

O segundo é tratar o metabolismo com seriedade agora, porque o tratamento inicial é o mesmo nos dois cenários, e refazer a conta depois de alguns meses. Isso poupa exame e custo, e aceita conviver com uma dúvida por um período definido.

Meu papel na consulta é colocar na mesa a informação, os números e as duas opções, com o que cada uma custa e o que cada uma poupa. A escolha entre elas é da pessoa, porque depende de coisas que nenhum estudo mede: o quanto ela consegue conviver com uma pergunta em aberto sobre o próprio fígado, o que significa para ela gastar com um exame agora, se ela se mobiliza mais sabendo um número ou se um número a mais só aumenta a angústia sem mudar o que ela vai fazer amanhã.

O erro que eu corrijo com mais frequência, e sem nenhuma censura a quem o comete, é tratar o laudo de esteatose como um aviso menor, do tipo que se resolve depois. Ele costuma ser o primeiro sinal visível de que o metabolismo inteiro está sob pressão, e o fígado foi só o órgão que apareceu no exame primeiro.

Em resumo, o que eu diria numa consulta

Você tem gordura no fígado, e isso, sozinho, não é sentença de nada. A pergunta que vale é se já existe cicatriz, e a maior parte das vezes eu consigo responder isso com o exame de sangue que você já trouxe, calculando o FIB-4. Deu abaixo de 1,3, a gente para de olhar para o fígado e passa a olhar para o metabolismo inteiro, que é onde está o problema de verdade. Deu no meio ou acima, a gente investiga com elastografia antes de decidir qualquer coisa. Sobre tratamento, o que muda o desfecho é a perda de peso, e ela funciona em degraus: 5% tira gordura, 7 a 10% tira inflamação, 10% começa a desfazer cicatriz. Exercício conta desde o primeiro dia, mesmo se a balança não se mexer. Se você tem diabetes tipo 2 junto, existe uma vantagem prática grande, porque dá para escolher um remédio do diabetes que trabalhe a favor do fígado ao mesmo tempo.

Sobre medicação e riscos, três coisas para levar. Primeira: existe hoje uma opção com indicação de fígado registrada em bula no Brasil, a semaglutida (Wegovy), mas ela vale para um grupo específico, quem já tem fibrose moderada a avançada e ainda não tem cirrose. Fora desse grupo, e é onde está a maioria, o tratamento continua sendo o metabólico, e qualquer remédio entra como decisão individualizada, com benefício e custo na mesa. Segunda: se entrar pioglitazona, eu preciso saber do seu coração antes, porque ela é contraindicada em insuficiência cardíaca avançada, e a gente vai conversar sobre retenção de líquido, ganho de peso, osso e a questão da bexiga. Terceira, e essa é a mais frequente: silimarina e os protetores de fígado de farmácia não sustentam o que prometem, e produtos à base de plantas são hoje uma causa relevante de lesão grave de fígado, ou seja, o risco não é só perder dinheiro. Se você já toma algum, me conte sem constrangimento, porque isso muda a leitura dos seus exames.

A frase para levar embora é esta: o que decide o seu futuro não é quanta gordura o ultrassom viu, é quanta cicatriz existe e o que você faz com o metabolismo a partir de hoje. Se você recebeu esse laudo e ficou sem saber o tamanho do problema, essa é exatamente a conversa que dá para ter numa consulta, com os exames que você provavelmente já tem em mãos.

Quando procurar um endocrinologista

Procure avaliação se você:

E procure com prioridade se houver amarelado nos olhos ou na pele, inchaço na barriga ou nas pernas que apareceu sem explicação, vômito com sangue ou confusão mental sem causa aparente, porque esses são sinais de fígado já comprometido e não esperam consulta de rotina.

Nada aqui substitui a avaliação individual. Um laudo de esteatose, sem os seus exames de sangue, sem a sua história e sem o seu exame clínico, não define conduta, e este texto não define a sua.


Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o exame clínico nem a avaliação individualizada do seu caso. As medicações citadas têm indicações, contraindicações e efeitos adversos que dependem de avaliação médica, e nenhuma delas deve ser iniciada por conta própria.

Se você recebeu um laudo com gordura no fígado e ficou com dúvida sobre o que isso significa no seu caso, agende uma avaliação com um endocrinologista.

Leia também

Fontes científicas

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    https://diretriz.diabetes.org.br/doenca-hepatica-esteatotica-metabolica-dhem/
  17. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, diretriz conjunta sobre doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica
    https://www.endocrino.org.br/noticias/diretriz-doenca-hepatica-esteatotica-associada-a-disfuncao-metabolica/
  18. Sociedade Brasileira de Hepatologia, publicações sobre MASLD e MASH
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  20. Bula profissional da pioglitazona (Actos), indicações e contraindicações registradas no Brasil
    https://www.saudedireta.com.br/catinc/drugs/bulas/actos.pdf
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Dúvidas dos leitores

Meu ultrassom disse esteatose leve. Isso é o começo de uma cirrose?

Na maioria esmagadora das vezes, não. Esteatose isolada, sem inflamação e sem cicatriz, é a forma mais comum e a mais lenta: quando ela avança, avança na ordem de uma etapa de cicatriz a cada 14 anos, e chegar a uma cicatriz avançada acontece em cerca de 2 a 3 de cada 100 pessoas ao longo de 15 a 20 anos. O problema é que a palavra leve no laudo se refere à quantidade de gordura, e não é a quantidade de gordura que define o seu risco. Quem define é a cicatriz, e o ultrassom comum não mede cicatriz. Por isso a conduta correta diante de um laudo de esteatose leve não é comemorar nem entrar em pânico: é fazer a conta do FIB-4 com exames de sangue simples e ver em qual faixa você caiu.

Eu quase não bebo. Como fui ter gordura no fígado?

Porque essa não é uma doença de álcool. Ela é a expressão no fígado do que está acontecendo no seu metabolismo, e nasce da combinação de peso, gordura na barriga, açúcar no sangue, pressão e colesterol. Tanto é assim que o nome antigo, doença hepática gordurosa não alcoólica, foi abandonado justamente por definir a doença pelo que ela não é. Hoje ela se chama doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, e o diagnóstico exige que exista pelo menos um fator metabólico junto. Isso também explica por que o tratamento não é um remédio para o fígado: é cuidar do metabolismo inteiro. E vale a ressalva na outra direção: se você bebe com regularidade, isso precisa entrar na conversa, porque álcool e disfunção metabólica somam dano em vez de se substituírem.

Comprei silimarina na farmácia para proteger o fígado. Posso continuar tomando?

Converse com o seu médico antes de manter, e leve a embalagem na consulta. A revisão mais completa disponível, que reuniu 17 estudos e mais de 2 mil participantes, encontrou no máximo uma redução pequena em duas enzimas do fígado, com o grau de certeza mais fraco que existe nesse tipo de análise, e nenhuma melhora no tecido do fígado, que é o que de fato determina o prognóstico. Nenhum dos estudos mediu se as pessoas viveram mais ou melhor. Existe também um ponto de segurança que costuma surpreender: produtos à base de plantas e suplementos respondem por cerca de 20% dos casos de lesão de fígado por substância nos Estados Unidos, com peso desproporcional entre os casos graves. Ou seja, o risco não é apenas gastar dinheiro sem retorno. Nada disso é motivo para constrangimento: a intenção de cuidar do fígado é boa, e o problema está no produto, não em quem o comprou.

Meu médico disse que preciso perder 10% do peso por causa do fígado. Isso não é muito?

É bastante, e é honesto reconhecer isso em vez de tratar como detalhe. O que explica esse número é que os efeitos no fígado vêm em degraus: por volta de 5% do peso já reduz a gordura acumulada, entre 7 e 10% a inflamação melhora de forma consistente, e é a partir de 10% que a cicatriz começa a regredir em uma parte relevante das pessoas. Ou seja, cada degrau que você sobe entrega um resultado diferente, e nenhum deles é desperdiçado se você parar no meio do caminho. Vale também lembrar que a conta é sobre o seu peso, não um número universal: para quem pesa 90 quilos, o degrau de 10% são 9 quilos, e não é a mesma tarefa que seria para outra pessoa. E exercício reduz a gordura do fígado mesmo quando a balança não se move, o que faz dele parte do plano desde o primeiro dia, não um complemento.

Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.