Dr. Márcio GesterEndocrinologista · CRM-PA 14727 ← Início
Ilustração plana em fundo azul-marinho com uma faixa de 7 quadrados representando os dias da semana, o primeiro em dourado, atravessada por uma linha azul-clara quase reta, e à direita um prato branco vazio com um garfo.

A fome voltou antes da próxima aplicação: é hora de subir a dose da caneta?

Em resumo: fome que volta, sozinha, não é motivo para subir a dose. A caneta semanal não acaba no fim da semana: a tirzepatida tem meia-vida de cerca de 5 dias 1 e a semaglutida fica com o pico só cerca de 20% acima da concentração média do intervalo 2. A fome que volta tem explicações melhores. Num estudo, o apetite aumentou em média cerca de 100 calorias por dia para cada quilo perdido 3; num estudo com uma caneta diária da mesma família, o efeito sobre a fome diminuiu com os meses 4; e a perda de peso chega a um platô, que na semaglutida apareceu depois de cerca de 68 semanas 5,8. Subir a dose segue degraus de pelo menos 4 semanas 8,9, e nos estudos a diferença de perda de peso entre as doses mais altas foi menor que entre as mais baixas 6. Dividir caneta não está previsto nas bulas 8,9, e produto manipulado não tem garantia de quanto remédio entra 7,10.

Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 15/10/2026

A pergunta que circula

Nas redes, dois tipos de post disputam a mesma dúvida de quem usa caneta. Um defende criar doses intermediárias, fora do escalonamento da bula, quando a fome volta. O outro afirma que existe uma janela de efeito máximo nos primeiros dias após a aplicação e que o resto da semana seria um efeito minguante. As duas ideias partem de uma observação real, a fome que muda ao longo da semana, e chegam a uma conclusão que os estudos não sustentam.

A pergunta chega ao consultório de quem usa tirzepatida (Mounjaro) ou semaglutida (Wegovy, Ozempic) assim: "no sábado a fome volta, posso aumentar?". A resposta curta é que a fome do fim de semana dificilmente se explica só pelo remédio acabando, e que subir a dose por causa dela pode trocar um problema por outro.

A caneta não acaba no fim da semana

As duas moléculas foram desenhadas para durar e saem do corpo devagar. Na semaglutida, o que segura o remédio no sangue é a ligação a uma proteína, a albumina 8.

Na tirzepatida, a meia-vida é de cerca de 5 dias, o pico de concentração aparece entre 24 e 48 horas após a aplicação e o equilíbrio é esperado em 4 a 5 semanas de uso 1. Meia-vida de 5 dias num intervalo de 7 significa que, no dia da próxima aplicação, ainda há boa parte do remédio da semana anterior circulando.

Na semaglutida, um estudo com voluntários saudáveis mediu a concentração ao longo da semana já no equilíbrio: o pico ficou em 28,8 nanomols por litro com 0,5 mg e a média do intervalo em 23,8, ou seja, o pico foi cerca de 20% maior que a média 2. A meia-vida medida foi de cerca de 6,5 dias 2. A bula brasileira descreve a meia-vida como de aproximadamente 1 semana 8.

Traduzindo: a concentração do remédio varia pouco ao longo da semana, sem um penhasco no sexto dia. Isso torna pouco provável, embora não impossível, que a queda do remédio explique sozinha uma fome forte no fim da semana.

Por que a fome volta

Três explicações têm lastro em estudo, e nenhuma depende da caneta acabar.

O corpo defende o peso perdido. Num estudo que calculou quanto as pessoas comiam enquanto perdiam peso sem perceber o déficit, cada quilo perdido aumentou a vontade de comer em cerca de 100 calorias por dia acima do ponto de partida 3. Na hora de frear o emagrecimento, esse aumento do apetite pesou bem mais que a queda do gasto de energia 3. O estudo foi feito com outro remédio para diabetes, e o número é uma média; pela mesma conta, quem perdeu 10 quilos tem um corpo que pede cerca de 1.000 calorias a mais por dia do que pedia antes. Na minha leitura, a caneta segura parte desse aumento, não todo ele.

O efeito sobre a fome diminui com os meses. Num estudo de 1 ano com liraglutida, uma caneta diária da mesma família, a redução da fome e da preocupação com comida em relação ao grupo sem o remédio durou até a semana 24 e não se manteve na semana 52, mesmo com o grupo do remédio tendo emagrecido mais 4. Esse estudo é de um remédio diário, e a extrapolação para as canetas semanais é uma leitura minha, não um dado medido nelas.

A perda de peso chega a um platô. No estudo de 2 anos com semaglutida 2,4 mg, o peso caiu até a semana 68 e então se estabilizou, com perda média de 15,2% na semana 104 5,8. Na média dos estudos, o platô faz parte do tratamento e não é sinal de que a dose falhou; se ele chegou cedo demais ou longe da meta, isso se avalia na consulta.

Na minha leitura, quando alguém me conta que a fome voltou, o mais comum é que dois desses três estejam acontecendo juntos: o peso já caiu bastante e o tratamento já passou dos primeiros meses. O que a pessoa sente como "o remédio parou de funcionar" costuma ser o remédio funcionando contra um corpo que agora pede mais.

Há também o que não é remédio nem fisiologia: o fim de semana tem outra rotina, outro horário de sono e outra comida por perto. Uma pergunta útil que eu faço na consulta é em que dia, e em que situação, a fome aparece. Quando ela aparece sempre no sábado à noite, e não no quinto dia depois da aplicação, na minha leitura a pista provavelmente é a rotina.

Quando subir a dose faz sentido

Subir a dose é uma decisão legítima, e tem regra.

As bulas brasileiras estabelecem os degraus. Na tirzepatida, começa-se com 2,5 mg por semana e, após 4 semanas, passa-se a 5 mg; daí em diante, aumentos de 2,5 mg exigem no mínimo 4 semanas na dose atual, até o máximo de 15 mg 9. Na semaglutida para obesidade, a dose sobe a cada 4 semanas, de 0,25 mg até a manutenção de 2,4 mg, ao longo de 16 semanas 8. A bula atual prevê ainda uma dose de 7,2 mg como opção excepcional, só para adultos que começaram o tratamento com índice de massa corporal de 30 ou mais, depois de pelo menos 4 semanas em 2,4 mg e quando a resposta foi considerada insuficiente; se não houver melhora adicional de peso, a dose volta para 2,4 mg 8.

Na bula da semaglutida, a dose acima da manutenção é reservada para resposta insuficiente, e o aumento se adia quando há sintomas digestivos importantes 8. Fome no fim da semana, sozinha, não aparece como critério.

Subir também tende a render menos no topo. No estudo que comparou 3 doses fixas de tirzepatida em 72 semanas, a perda média foi de 15,0% com 5 mg, 19,5% com 10 mg e 20,9% com 15 mg 6. De 5 para 10 mg, foram 4,5 pontos a mais; de 10 para 15 mg, 1,4 ponto. Eram grupos diferentes de pessoas, cada um numa dose, e não a mesma pessoa subindo a dose, mas a diferença entre as doses mais altas foi menor. E os efeitos digestivos foram, em geral, maiores nas doses maiores 1.

A bula da semaglutida ainda prevê o caminho inverso: se os efeitos digestivos forem significativos, adia-se o aumento até melhorar 8.

Dose no meio do caminho: o que não fazer

A tentação de "dar só um pouco mais" leva a três caminhos sem garantia.

Dividir a caneta ou o frasco para criar uma dose intermediária não está previsto nas bulas brasileiras, que descrevem apenas as doses fixas de cada degrau 8,9. A bula da semaglutida avisa que a solução que sobra na caneta depois das 4 doses é insuficiente para uma dose e deve ser descartada, e que reaproveitar agulha pode levar a contaminação e dose imprecisa 8.

Comprar produto manipulado para ajustar a dose troca o problema da fome por outro maior. A Associação Americana de Diabetes alerta que versões manipuladas desses remédios contornam os controles regulatórios e levantam preocupações de segurança, qualidade e eficácia 7. As sociedades brasileiras de endocrinologia, de diabetes e de obesidade lembram que a agência americana documentou, nesses produtos, doses acima ou abaixo das recomendadas, contaminação e troca por outros compostos 10. Detalhei esses riscos nos textos sobre as canetas manipuladas e sobre a tirzepatida do Paraguai, aqui do blog.

Aplicar antes do dia para "adiantar" a dose também não é o caminho. A bula da semaglutida permite trocar o dia da aplicação desde que fiquem pelo menos 3 dias (mais de 72 horas) entre uma dose e outra, e depois o novo dia passa a ser fixo 8. É uma mudança de calendário, não uma dose extra.

Como isso entra na prática

Quando a fome volta, a primeira coisa que eu olho é a trajetória do peso, e não a fome isolada. Depois que a pessoa chegou à dose de manutenção, se o peso segue caindo, ainda que mais devagar, a dose provavelmente está fazendo o trabalho dela. Se o peso parou por várias semanas, olho há quanto tempo a pessoa está na dose atual, se ela já cumpriu as 4 semanas mínimas da bula e como está tolerando 8,9.

Depois vem o que a fome está dizendo. Na minha prática, fome de sábado à noite pede primeiro ajuste de rotina, como o horário das refeições e o planejamento do fim de semana. Fome que aparece todo dia, com peso parado há meses numa dose ainda abaixo do teto da bula e bem tolerada, é outra conversa: aí cabe discutir o próximo degrau, ou outra estratégia quando já não há degrau a subir.

O erro comum que eu corrijo com frequência é ler o platô como falha. Não é descuido de quem pensa assim: é conclusão razoável para quem viu o peso cair rápido nos primeiros meses e acha que a curva deveria continuar igual.

Subir a dose ou manter: a escolha que é sua

Quando o peso estabilizou e a fome incomoda, há dois caminhos legítimos, e cada um cobra uma coisa.

Subir o degrau, quando a bula permite, aumenta a chance de perder mais peso, com diferença menor entre as doses mais altas 6, e custa mais chance de enjoo e de efeitos digestivos nas semanas da subida 1,8. Manter a dose evita os sintomas que se concentram na subida 8 e, na minha leitura, dá tempo para separar a fome da rotina da fome do corpo; em troca, aceita um platô que talvez já seja o resultado do tratamento naquela dose 5.

O que nenhum estudo decide por você é quanto pesa, na sua semana, pensar em comida, quanto de enjoo você troca por alguns quilos a menos, e o que o peso atual já entregou para você em pressão, glicose, sono ou disposição. Com os números e as opções na mesa, a escolha entre os caminhos é sua, e a prescrição é feita junto com quem acompanha você.

Em resumo, o que eu diria numa consulta

A caneta semanal não acaba no fim da semana: a concentração varia pouco entre as aplicações 1,2. A fome que volta tem explicações mais prováveis: o corpo defendendo o peso perdido 3, o efeito sobre o apetite que diminuiu com os meses num estudo com caneta diária 4 e o platô, que é esperado na média dos estudos 5. Subir a dose segue degraus de pelo menos 4 semanas 8,9, e a diferença entre as doses mais altas foi menor 6.

O risco a evitar é a dose improvisada: dividir caneta ou adiantar aplicação, que as bulas não preveem 8,9, ou comprar produto manipulado 7,10. A frase para levar é esta: fome que volta não é, sozinha, motivo para subir a dose. Se o seu peso parou e a fome está pesando no dia a dia, isso tem ajuste, e vale uma conversa antes de mexer na caneta.

Quando procurar um endocrinologista

Vale procurar se o peso está parado há várias semanas e você está pensando em subir a dose por conta própria; se a fome passou a ocupar o seu dia, com episódios de comer sem controle; se você está usando ou pensando em usar dose dividida, frasco ou produto manipulado; se esqueceu várias doses e não sabe como recomeçar; ou se os efeitos digestivos estão impedindo você de chegar à dose planejada. Nada disso se resolve por texto na internet: a intenção aqui é ajudar você a chegar na consulta com as perguntas certas, não prescrever pela tela.


Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico nem a prescrição individualizada. Nenhuma dose de caneta deve ser aumentada, dividida ou antecipada por conta própria: o escalonamento depende de avaliação clínica e segue a bula do medicamento.

Se você usa caneta para obesidade e quer revisar a dose com base na sua resposta, agende uma avaliação com um endocrinologista.

Leia também

Fontes científicas

  1. Furihata K, Mimura H, Urva S, Oura T, Ohwaki K, Imaoka T. A phase 1 multiple-ascending dose study of tirzepatide in Japanese participants with type 2 diabetes. Diabetes Obes Metab. 2022;24(2):239-246.
    → https://doi.org/10.1111/dom.14572 · PubMed 34647404
  2. Shi A, Xie P, Nielsen LL, Skjøth TV, He X, Haugaard SP. Pharmacokinetics, Safety and Tolerability of Once-Weekly Subcutaneous Semaglutide in Healthy Chinese Subjects: A Double-Blind, Phase 1, Randomized Controlled Trial. Adv Ther. 2021;38(1):550-561.
    → https://doi.org/10.1007/s12325-020-01548-y · PubMed 33159658
  3. Polidori D, Sanghvi A, Seeley RJ, Hall KD. How Strongly Does Appetite Counter Weight Loss? Quantification of the Feedback Control of Human Energy Intake. Obesity (Silver Spring). 2016;24(11):2289-2295.
    → https://doi.org/10.1002/oby.21653 · PubMed 27804272
  4. Tronieri JS, Wadden TA, Walsh O, Berkowitz RI, Alamuddin N, Gruber K, et al. Effects of liraglutide on appetite, food preoccupation, and food liking: results of a randomized controlled trial. Int J Obes (Lond). 2020;44(2):353-361.
    → https://doi.org/10.1038/s41366-019-0348-6 · PubMed 30926955
  5. Garvey WT, Batterham RL, Bhatta M, Buscemi S, Christensen LN, Frias JP, et al. Two-year effects of semaglutide in adults with overweight or obesity: the STEP 5 trial. Nat Med. 2022;28(10):2083-2091.
    → https://doi.org/10.1038/s41591-022-02026-4 · PubMed 36216945
  6. Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, Wharton S, Connery L, Alves B, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2022;387(3):205-216.
    → https://doi.org/10.1056/NEJMoa2206038 · PubMed 35658024
  7. Neumiller JJ, Bajaj M, Bannuru RR, McCoy RG, Pekas EJ, Segal AR, et al. Compounded GLP-1 and Dual GIP/GLP-1 Receptor Agonists: A Statement from the American Diabetes Association. Diabetes Care. 2025;48(2):177-181.
    → https://doi.org/10.2337/dci24-0091 · PubMed 39620926
  8. Novo Nordisk. Wegovy (semaglutida), bula do profissional de saúde aprovada pela Anvisa (posologia, escalonamento, dose esquecida e troca do dia de aplicação conferidos)
    → https://www.novonordisk.com.br/content/dam/nncorp/br/pt/pdfs/bulas/hcp/Wegovy_Bula_Profissional.pdf
  9. Eli Lilly do Brasil. Mounjaro (tirzepatida), bula do paciente (posologia, escalonamento e dose esquecida conferidos)
    → https://static.poder360.com.br/2025/03/bula-mounjaro.pdf
  10. SBEM, SBD e ABESO. Alerta sobre o uso de medicamentos alternativos ou manipulados para obesidade e diabetes: análogos do GLP-1 e GIP (nota oficial conjunta, 2025)
    → https://diabetes.org.br/wp-content/uploads/2025/02/ALERTA-SOBRE-O-USO-DE-MEDICAMENTOS-ALTERNATIVOS-OU-MANIPULADOS-PARA-OBESIDADE-E-DIABETES-ANALOGOS-D.pdf

Dúvidas dos leitores

Posso mudar o dia da aplicação para a fome não voltar no fim de semana?

Mudar o dia é permitido pela bula da semaglutida para obesidade, desde que fiquem pelo menos 3 dias (mais de 72 horas) entre uma aplicação e a outra, e depois o novo dia passa a ser fixo 8. Mas mudar o dia não muda quanto remédio há no sangue ao longo da semana, que já varia pouco 1,2. Se a fome aparece sempre no mesmo dia, vale olhar o que acontece nesse dia: rotina, sono, comida disponível. A troca de dia é combinada com quem acompanha o tratamento.

Esqueci uma dose e a fome voltou. Posso aplicar duas de uma vez?

Não. As bulas dizem para aplicar a dose esquecida assim que possível, dentro de 5 dias na semaglutida para obesidade e de 4 dias na tirzepatida; passado esse prazo, a dose é pulada e a próxima sai no dia de sempre 8,9. Nunca se compensa com dose dobrada. Se várias doses foram perdidas, a bula da semaglutida orienta considerar recomeçar o escalonamento, e isso é conversa com quem prescreve 8.

Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.