
Caneta de emagrecimento em quem tem diabetes tipo 1: dá para usar?
Em resumo: diabetes tipo 1 não é contraindicação das canetas de GLP-1. As contraindicações da bula brasileira da semaglutida são hipersensibilidade ao medicamento, e o diabetes tipo 1 não está lá (história pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide e de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 entram como advertência aqui e como contraindicação nos Estados Unidos, e isso é assunto de consulta). O que a bula diz sobre o diabetes tipo 1 é outra coisa, e ela está certa: o medicamento não substitui insulina. Ele trata a obesidade, que é uma doença à parte e que a pessoa com diabetes tipo 1 também pode ter. No estudo mais recente com semaglutida, a perda de peso foi de quase nove quilos e a dose diária de insulina caiu perto de um quarto. O receio de cetoacidose que ronda o assunto foi herdado de outra classe de medicamentos.
Por Dr. Márcio Gester, Endocrinologista, CRM-PA 14727, RQE 9424. Atualizado em 04/08/2026.
A pergunta que chega pronta no consultório
Quem tem diabetes tipo 1 convive há anos com uma conta que o resto das pessoas não faz: toda refeição vira cálculo, e cada unidade de insulina a mais tende a empurrar o peso para cima. Aí a semaglutida toma conta da conversa pública sobre emagrecimento, e a pergunta chega pronta.
Ela quase sempre vem junto com uma segunda frase, dita em tom de quem já se conformou: "mas eu sei que não posso, né?". Essa parte está errada, e é o motivo deste texto.
Duas doenças, não uma
Obesidade e diabetes tipo 1 são doenças diferentes, com causas diferentes e tratamentos diferentes. O diabetes tipo 1 acontece porque o sistema imune destrói as células que produzem insulina, e o tratamento dele é repor insulina, para sempre, sem substituto. A obesidade é uma doença crônica própria, com seu próprio tratamento, e a pessoa com diabetes tipo 1 pode ter as duas, exatamente como pode ter as duas quem não tem diabetes nenhum.
As canetas de GLP-1 são registradas para tratar a obesidade. Quando alguém com diabetes tipo 1 e obesidade recebe uma delas, o alvo é a obesidade, e a insulina continua igual. O tratamento é somado, não trocado.
Confundir as duas coisas produz os dois erros opostos que eu mais vejo: quem acha que a caneta vai poupá-lo da insulina, e quem acha que ter diabetes tipo 1 o proíbe de tratar a própria obesidade.
O que a bula brasileira realmente diz
Na bula profissional brasileira da semaglutida para controle de peso, a seção de contraindicações tem exatamente um item: hipersensibilidade ao princípio ativo ou aos componentes da fórmula. Diabetes tipo 1 não aparece ali. Na bula da liraglutida para controle de peso, as contraindicações são hipersensibilidade e gravidez, e o diabetes tipo 1 não é mencionado uma única vez no documento inteiro.
O diabetes tipo 1 aparece na bula da semaglutida em outro lugar, nas advertências, e em duas frases que dizem coisas distintas. A primeira: o medicamento não é substituto de insulina e não deve ser usado para tratar o diabetes tipo 1 nem a cetoacidose. A segunda: o diabetes tipo 1 está na lista de populações em que a segurança e a eficácia não foram investigadas, junto com insuficiência renal grave, insuficiência hepática grave e insuficiência cardíaca avançada, com a observação de que o uso nesses grupos não é recomendado.
| O que a bula brasileira diz | Onde isso está | O que significa na prática |
|---|---|---|
| Hipersensibilidade ao medicamento | Contraindicações | Bloqueio absoluto |
| Cautela com história pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou NEM2 | Advertências | Conversa obrigatória antes de prescrever, e nos Estados Unidos isso é contraindicação formal |
| Não substitui insulina, não trata diabetes tipo 1 nem cetoacidose | Advertências | Correto e importante: a insulina não sai da conta |
| Diabetes tipo 1 entre as populações não estudadas, uso não recomendado | Advertências | Reflete quem ficou de fora dos ensaios de obesidade, não um dano demonstrado |
Contraindicação e ausência de estudo são categorias diferentes. A primeira diz que faz mal; a segunda diz que não foi medido naquele grupo específico.
Os grandes ensaios que registraram esses medicamentos para obesidade excluíram quem tinha diabetes, dos dois tipos, para não misturar o efeito sobre o peso com o efeito sobre a glicemia. A bula registra corretamente que aquele grupo não foi testado ali, o que é diferente de dizer que foi testado e deu errado. A pesquisa seguiu por fora, com estudos feitos especificamente nessa população.
A marca importa, e o preço decide mais do que deveria
Semaglutida tem várias marcas no Brasil, divididas em dois grupos pela doença que cada uma tem autorização para tratar. Registradas para diabetes tipo 2: Ozempic, Extensior e Ozivy, a versão nacional. Registradas para obesidade: Wegovy e Poviztra. A molécula é a mesma nos dois grupos.
O que separa os dois grupos, além da indicação, é o preço. As apresentações para diabetes custam bem menos que as para obesidade, e a diferença é grande o suficiente para determinar quem consegue tratar e quem desiste no balcão da farmácia.
Por causa disso, na prática brasileira é comum tratar obesidade com a apresentação registrada para diabetes. Eu faço isso, e é honesto dizer com todas as letras o que isso significa: é uso fora de bula, uma decisão que a lei deixa a cargo do médico, tomada com o paciente informado de que aquela caixa específica não tem, no papel, a indicação que está sendo tratada. Não é irregularidade nem improviso, é o que sobra quando o mesmo princípio ativo tem dois preços muito diferentes.
Há um detalhe técnico que não pode ser ignorado nessa troca: a dose máxima não é a mesma, e a diferença é grande. As apresentações para obesidade chegam a 2,4 mg por semana. As de diabetes vão até 1 mg, e a bula diz textualmente que doses semanais maiores que essa não são recomendadas. Ou seja, quem precisa de dose alta para responder não chega lá pela caixa mais barata, e nesse ponto a economia deixa de compensar.
Para quem tem diabetes tipo 1, tudo isso vale igual, com uma observação a mais: nenhuma dessas apresentações é registrada para diabetes tipo 1, então o tratamento é conduzido pela indicação de obesidade, que é a doença de fato em tratamento.
A bula brasileira de uma das apresentações para diabetes tipo 2 traz uma frase que vale reproduzir: a cetoacidose foi relatada em pacientes dependentes de insulina que tiveram descontinuação rápida ou redução da dose de insulina ao iniciar um agonista de GLP-1. O documento aponta para a redução da insulina, não para o medicamento.
Um caso em que a bula brasileira e a americana discordam
Nos Estados Unidos, a semaglutida para controle de peso é contraindicada em quem tem história pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou da síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2, uma condição hereditária que aumenta muito o risco desse tipo específico de câncer de tireoide. A restrição aparece com destaque máximo, dentro da tarja de advertência que a agência americana reserva aos avisos mais sérios.
No Brasil, a mesma informação existe, mas com outra força: ela está entre as advertências, dizendo que o medicamento deve ser usado com cautela nessas duas situações, e não entre as contraindicações.
A origem do aviso é a mesma nos dois países, e vem de estudos com animais: em experimentos de dois anos, ratos e camundongos tratados com semaglutida desenvolveram tumores de um tipo específico de célula da tireoide, a célula C, que é a célula de onde nasce o carcinoma medular. Esse é um efeito de toda a classe dos GLP-1, e roedores são particularmente sensíveis a ele. A bula brasileira registra que a relevância disso para seres humanos é considerada baixa, mas não pode ser completamente descartada.
Duas agências olharam a mesma incerteza e escolheram réguas diferentes: uma proibiu, a outra pediu cautela. É o que acontece quando o dado disponível é de roedor e a decisão precisa ser tomada assim mesmo. Na minha prática, história pessoal ou familiar desse câncer, ou de neoplasia endócrina múltipla tipo 2, entra na conversa antes da primeira receita.
A recomendação de 2026 da Associação Americana de Diabetes é explícita quanto ao diabetes tipo 1: o tratamento da obesidade em adultos com diabetes tipo 1 deve seguir o mesmo arsenal usado na população geral, incluindo as canetas de GLP-1, com a decisão tomada em conjunto com a pessoa 10.
O que os estudos mostram
O estudo mais importante hoje usou semaglutida em adultos com diabetes tipo 1 e obesidade 1, e foi conduzido inteiramente em quem usa sistema automatizado de infusão de insulina, aquele em que a bomba conversa com o sensor e ajusta a dose sozinha ao longo do dia.
| O que se mediu | Semaglutida | Liraglutida (estudos antigos) |
|---|---|---|
| Peso | perda de cerca de 8,8 kg | perda de cerca de 5 kg |
| Dose diária total de insulina | queda de cerca de 22 a 30% | queda de cerca de 8 a 12% |
| Hemoglobina glicada | queda de 0,2 a 0,35 ponto | queda de 0,2 a 0,35 ponto |
A hemoglobina glicada resume a média de glicose dos últimos três meses. Ela é a linha que menos se mexe, nas duas moléculas.
O remédio funciona muito bem para aquilo a que se propõe, que é peso, e funciona pouco para o que as pessoas mais esperam dele, que é a glicada. A revisão que reuniu os estudos disponíveis nessa população chega ao mesmo lugar 3.
O dado que costuma passar batido é a queda de quase um quarto na dose diária de insulina 2. Para quem aplica insulina há vinte anos, isso significa menos unidades por refeição, menos margem para erro de contagem e menos daquele ciclo em que a insulina necessária para tratar o excesso de peso ajuda a mantê-lo.
Hipoglicemia: o risco real e o que era do protocolo
Os estudos que criaram a fama de risco desse tratamento no diabetes tipo 1 testaram liraglutida somada à insulina, há dez anos 4,5. Metade das pessoas recebia o medicamento e metade recebia uma aplicação sem efeito, sem ninguém saber quem estava em qual grupo. Neles, a hipoglicemia com sintomas aumentou de forma clara no grupo que recebeu o medicamento.
Aqueles estudos foram feitos sem sensor contínuo de glicose e sem protocolo estruturado para reduzir a insulina quando o apetite caísse. Um deles ainda empurrava a insulina para cima em busca da meta glicêmica 4, e o outro travava a dose no valor inicial 5.
Já o estudo com semaglutida foi conduzido em pessoas cujo sistema de insulina se ajusta sozinho 1: quando o apetite cai e a pessoa come menos, o sistema reduz a entrega sem depender de ela lembrar de fazer a conta.
Na minha leitura, parte do risco atribuído ao medicamento era risco de reduzir a fome de alguém cuja dose de insulina ninguém ajustou. Isso não elimina o risco de hipoglicemia, que é real e exige redução planejada de dose desde a primeira aplicação. Muda de quem é a responsabilidade: do protocolo, não da molécula.
Cetoacidose: um medo que veio de outra classe
Quem estudou cetoacidose associada a medicamento no diabetes tipo 1 estava estudando outra classe, os inibidores de SGLT2, aqueles que fazem o rim eliminar açúcar na urina. Ali o sinal é forte, consistente e reproduzido em vários tipos de estudo. Em análises que compararam diretamente as duas classes, o risco de cetoacidose com os inibidores de SGLT2 foi cerca de duas vezes o observado com as canetas de GLP-1 9, achado que aparece também em grandes bancos de dados populacionais 7,8. Tanto que a diretriz brasileira sobre cetoacidose euglicêmica dedica espaço a orientar quem usa inibidor de SGLT2, incluindo a instrução de suspender esse medicamento diante de qualquer cetona sintomática. A instrução é suspender o medicamento novo, nunca a insulina.
Com as canetas de GLP-1 o quadro é diferente. Em pessoas com diabetes tipo 1, a liraglutida reduz o glucagon, reduz a quebra de gordura e reduz a própria produção de cetona 6. Na presença de insulina adequada, o mecanismo do medicamento empurra na direção contrária à da cetoacidose.
O risco que sobra não é um efeito da classe, é uma situação: náusea e vômito intensos, a pessoa come pouco, conclui que não precisa de insulina, reduz ou pula a dose, e é a falta de insulina que produz a cetoacidose. O medicamento entra nessa história por provocar o enjoo, não por produzir cetona.
A cetoacidose ainda pode acontecer com a glicemia normal ou quase normal, o que faz o quadro ser confundido com virose ou intoxicação alimentar, inclusive dentro de pronto-socorro. Cetona e glicose são medidas diferentes, e um glicosímetro tranquilizador não diz nada sobre cetona.
| O que a pessoa sente | O que fazer |
|---|---|
| Náusea, vômito ou dor na barriga que não passa | Medir cetona, não presumir que é virose |
| Respiração curta e rápida, hálito adocicado | Procurar atendimento no mesmo dia |
| Cansaço fora do comum com a glicemia normal | Medir cetona antes de concluir que está tudo bem |
| Qualquer doença aguda com febre | Manter a insulina basal e medir cetona |
O que diz a diretriz brasileira
A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes sobre dias de doença traz a orientação mais prática deste tema, e ela vale com ou sem caneta: em dias de doença, a insulina basal não deve ser suspensa em pessoas com diabetes tipo 1, inclusive em jejum, porque é aí que o risco de cetoacidose sobe. O documento recomenda medir cetona em casa quando a glicose se mantém alta, com preferência pela cetonemia medida no sangue em vez da cetonúria medida na urina, e trabalha com a meta de manter a glicemia entre 70 e 180 durante esses dias.
A literatura internacional discute se o medicamento entra; a brasileira gasta mais linhas em como não se machucar com o que já está em uso. As duas são necessárias.
Como eu leio isso na prática
A cena mais comum no consultório é a pessoa chegar já decidida, tendo visto o resultado de um conhecido que tem diabetes tipo 2, e perguntar se dá para trocar parte da insulina pela caneta. A pergunta por trás quase nunca é sobre peso: é cansaço de aplicar insulina, e ela merece ser ouvida assim, sem correção apressada.
O que eu faço é separar dois objetivos que costumam vir juntos. Se o objetivo é peso e risco cardiovascular, os números justificam a conversa. Se o objetivo é melhorar a glicada, os mesmos números mostram que existe caminho mais eficiente, e insistir na caneta por isso é assumir risco sem ganho proporcional.
Costumo perguntar o que a pessoa faria num domingo à noite com náusea, vômito e o glicosímetro marcando 130. Quem responde que reduziria a insulina porque não está comendo descreveu, sem saber, o caminho da cetoacidose. Esse é o erro mais comum, e não é descuido: é uma conclusão razoável para quem passou a vida aprendendo que insulina serve para baixar glicose. Por isso essa conversa vem antes da receita.
O erro oposto também aparece, e me incomoda mais, porque custa anos: a pessoa com diabetes tipo 1 e obesidade que nunca tratou a obesidade porque em algum momento ouviu que não podia, e ninguém desfez.
Quando o tratamento entra, entra devagar, com dose baixa, redução planejada de insulina desde a primeira aplicação, mais contato nas primeiras semanas e a pessoa sabendo medir cetona em casa.
Existe aqui uma escolha legítima com mais de uma resposta certa, e ela não é minha. De um lado, começar: alguns quilos a menos, menos insulina por dia, e uma rotina nova para aprender. Do outro, não começar: nenhum risco novo, nenhuma vigilância nova, e o peso seguindo como está, com o que isso significa para o coração ao longo dos anos. O que decide não está em estudo nenhum: é o quanto uma pessoa aguenta somar mais uma vigilância a uma rotina que já é vigiada o dia inteiro, o que aqueles quilos representam para ela, e o quanto ela se sente segura para agir sozinha num sábado à noite. Minha preferência é começar quando a obesidade já está cobrando o seu preço. Mas isso é a minha preferência, e não a recomendação: a recomendação é que a escolha seja sua, com esses custos na mesa.
Em resumo, o que eu diria numa consulta
Se você tem diabetes tipo 1 e obesidade, não há nada na bula brasileira que o impeça de tratar a obesidade com uma caneta de GLP-1. O medicamento é registrado para essa doença, que é sua também, e nunca vai substituir a insulina: ele entra somado a ela, e a insulina segue sendo o tratamento do seu diabetes. Qual caixa será prescrita, a de obesidade ou a mais barata registrada para diabetes, é decisão a tomar junto com seu médico, levando em conta preço, dose necessária e o fato de que a segunda opção é uso fora de bula. O que esperar é perda de peso relevante e uma redução importante da dose diária de insulina, com pouca mudança na hemoglobina glicada. Se o seu incômodo maior é a glicada, existem caminhos melhores do que esse.
Os dois riscos que exigem preparo são hipoglicemia, que se maneja reduzindo a insulina de forma planejada desde o início, e cetoacidose, que não é efeito da caneta e sim da insulina que deixa de ser aplicada quando o enjoo aperta. Guarde uma frase acima de todas: em dia de doença, com pouca comida ou com náusea, a insulina basal não se suspende, e cetona se mede mesmo com a glicemia normal. Quem sabe disso e tem acompanhamento próximo faz esse tratamento com segurança. Se você adiou tratar seu peso porque ouviu que não podia, vale reabrir essa conversa.
Quando procurar um endocrinologista
Marque uma avaliação se você tem diabetes tipo 1 e está pensando em usar uma caneta de emagrecimento, se já está usando uma por conta própria, se o seu peso vem subindo apesar do controle glicêmico, ou se você teve algum episódio de cetose ou cetoacidose no último ano. Procure atendimento no mesmo dia se aparecer náusea, vômito, dor abdominal ou respiração curta, mesmo com a glicemia normal. Este texto não substitui a avaliação individual e nada aqui é prescrição pela internet.
Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica. As canetas de GLP-1 são registradas para o tratamento da obesidade e não substituem a insulina: seu uso por pessoas com diabetes tipo 1 depende de avaliação individual e acompanhamento próximo, e a insulina não deve ser reduzida nem suspensa sem orientação do seu médico.
Se você convive com diabetes tipo 1 e tem dúvidas sobre peso, insulina ou tratamento, agende uma avaliação com um endocrinologista.
Leia também
Fontes científicas
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→ https://www.novonordisk.com.br/content/dam/nncorp/br/pt/pdfs/bulas/hcp/Saxenda_Bula_Profissional1.pdf - Rótulo do Wegovy (semaglutida) aprovado pelo FDA, Estados Unidos
→ https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2021/215256s000lbl.pdf - Bula profissional do Extensior (semaglutida para diabetes tipo 2), Novo Nordisk Brasil
→ https://www.novonordisk.com.br/content/dam/nncorp/br/pt/pdfs/bulas/hcp/Bula_Profissional_Extensior_1,5_ml.pdf
Dúvidas dos leitores
Se a caneta reduz minha insulina, posso parar de aplicar nos dias em que eu como pouco?
Não, e essa é a situação de maior risco de todas. No diabetes tipo 1 a insulina basal não está ali só para baixar o açúcar da comida: ela é o que impede o corpo de produzir cetona em excesso, inclusive com a glicemia normal e a barriga vazia. A diretriz brasileira é explícita ao recomendar que a insulina basal não seja suspensa em dias de doença, nem em jejum. Reduzir dose com orientação é uma coisa. Suspender por conta própria é outra.
Emagrecer com a caneta vai melhorar minha hemoglobina glicada?
Menos do que a maioria das pessoas espera. Nos estudos, a queda média da hemoglobina glicada ficou em torno de dois a três décimos de ponto, enquanto a perda de peso e a redução da dose de insulina foram bem mais evidentes. Se o alvo principal for a glicada, o que costuma render mais é ajuste fino de insulina, contagem de carboidratos e uso de sensor de glicose. A caneta entra pelo peso.
Existe caneta aprovada para diabetes tipo 1 no Brasil?
Não existe caneta aprovada para tratar o diabetes tipo 1, e nem deveria existir: elas não substituem insulina. O que existe é registro para o tratamento da obesidade, que é uma doença à parte e que a pessoa com diabetes tipo 1 também pode ter. É por essa indicação que a conversa acontece, e não pela do controle glicêmico.
Por que meu médico receitou a caneta de diabetes se o meu problema é o peso?
Quase sempre por preço. A semaglutida registrada para diabetes custa bem menos que a registrada para obesidade, e a molécula é a mesma, então tratar obesidade com a apresentação de diabetes é prática comum no Brasil. Isso é uso fora de bula, uma decisão que cabe ao médico e que deve ser explicada a você. A limitação principal é a dose: as apresentações de diabetes vão até 1 mg por semana e as de obesidade chegam a 2,4 mg, então quem precisa de dose alta acaba precisando da apresentação mais cara.
Vou perder músculo junto com a gordura?
Parte do peso perdido com qualquer emagrecimento rápido vem de massa magra, e isso vale para as canetas também. O que reduz essa perda é o que já se sabia antes das canetas: proteína adequada na alimentação e treino de força durante o tratamento, não depois. Vale conversar sobre isso já na primeira consulta, e não quando a balança tiver descido dez quilos.
Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.