
Suplemento de cálcio: quem precisa tomar e quem pode parar
Em resumo: uma revisão publicada no BMJ em 2026, com 69 estudos e 153.902 participantes, concluiu que cálcio, vitamina D ou os dois juntos em cápsula previnem pouco ou nada de fratura e de queda em adultos que vivem em casa e não tratam osteoporose 1. O cálcio continua essencial para o osso; o que mudou é de onde ele deve vir. A comida é a primeira fonte, e a cápsula tem lugar certo: quem trata osteoporose com remédio, quem come pouco cálcio e não consegue corrigir pela dieta, e pessoas de idade muito avançada, grupo em que um estudo clássico mostrou 43% menos fratura de quadril 3,8. No Brasil, a conta pesa: mais de 85% da população come menos cálcio do que precisa 7. E a cápsula tem riscos próprios: 17% mais cálculo renal no estudo WHI 2 e um sinal no coração que ainda está em debate 4,6.
Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 23/09/2026
O que saiu na mídia
Em 21 de setembro de 2026, um portal de notícias brasileiro publicou que a suplementação de cálcio e vitamina D tem efeito limitado na prevenção de fraturas e quedas em idosos. A notícia se refere a uma revisão sistemática publicada no BMJ, uma das principais revistas médicas do mundo, em maio deste ano 1.
A manchete está certa no que diz. O risco é a leitura apressada de que cálcio "não serve para nada" e de que quem trata osteoporose pode abandonar o suplemento. O estudo não mediu isso, e a diferença importa para quem toma o comprimido todo dia.
O que o estudo mostrou
Para quem vive em casa e não tem osteoporose em tratamento, a cápsula quase não muda o risco de fratura. Os pesquisadores juntaram 69 estudos que compararam o suplemento com placebo ou com nenhum tratamento 1.
Os números, por tipo de suplemento 1:
| Vitamina D sozinha: | nenhuma diferença no risco de fratura em relação ao placebo, com certeza alta. |
|---|---|
| Cálcio sozinho: | tendência a 9% menos fraturas que não se firmou, porque a margem de erro incluía a ausência de efeito. |
| Cálcio com vitamina D: | 9% menos fraturas do que no grupo placebo. A diferença é real nos números, mas pequena em quantidade de fraturas evitadas, e por isso os autores a consideraram sem importância prática. |
Quedas e fraturas específicas, como a de quadril, seguiram o mesmo padrão. O detalhe que decide a leitura está em quem participou: 87% viviam em casa e 73% não tinham risco alto de fratura 1. Os próprios autores avisam que os dados de pessoas de risco alto e de quem vive em instituição de longa permanência eram limitados.
Na minha leitura, o estudo responde a uma pergunta específica: dar cápsula de cálcio a quem está razoavelmente bem, "por garantia", previne fratura? Não previne. Ele não responde se quem trata osteoporose precisa de cálcio, nem se quem come pouco cálcio deve corrigir a falta.
O cálcio da comida e o da cápsula chegam ao corpo de formas diferentes
O cálcio que vem da comida não mostrou o risco que aparece com a cápsula. Uma revisão que juntou 26 estudos de acompanhamento não encontrou aumento de doença do coração nem de derrame com ingestão alimentar entre 200 e 1.500 mg por dia 5. Nos estudos com suplemento, a doença coronariana foi 8% mais frequente do que no placebo 5.
Por isso a orientação de uma revisão americana de cardiologia e a da diretriz brasileira coincidem: cálcio preferencialmente pela alimentação, e suplemento para completar o que a comida não alcança 6,8.
Quanto cálcio o corpo precisa, e quanto o brasileiro come
Para mulheres acima de 50 anos, a diretriz brasileira de osteoporose, feita pela Sociedade Brasileira de Reumatologia com a Associação Médica Brasileira e outras sociedades, considera recomendado e seguro até 1.200 mg de cálcio por dia, somando comida e suplemento, de preferência pela dieta 8.
O Brasil come bem menos que isso. Nos inquéritos nacionais de 2008-2009 e 2017-2018, mais de 85% da população ficou abaixo da recomendação de cálcio 7. A própria diretriz registra que o brasileiro ingere, em média, cerca de 400 mg por dia, independentemente de região, sexo e idade 8.
Esse é o ponto que a manchete não alcança. Aqui, a falta de cálcio na dieta é a regra, e a pergunta útil deixa de ser "tomo ou não tomo cápsula" para virar "quanto falta, e de onde vem o que falta".
Onde está o cálcio na comida
Laticínios são a fonte mais concentrada, mas não a única. Valores por 100 g, pela tabela brasileira de composição de alimentos 9:
| Alimento | Cálcio em 100 g |
|---|---|
| Queijo mussarela | 875 mg |
| Queijo minas frescal | 579 mg |
| Sardinha em conserva em óleo | 550 mg |
| Iogurte natural | 143 mg |
| Couve manteiga crua | 131 mg |
| Leite de vaca integral | 123 mg |
| Brócolis cozido | 51 mg |
| Feijão carioca cozido | 27 mg |
Valores da TACO, Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (NEPA-Unicamp), por 100 g de parte comestível. Um copo de 200 mL de leite fica perto de 250 mg.
Um dia com um copo de leite, um pote de iogurte natural de 170 g e duas fatias finas de mussarela, cerca de 40 g, já passa de 800 mg. A pergunta que eu faço antes de falar de suplemento é justamente essa: o que você come num dia comum, contando leite, iogurte, queijo e o café com leite. Muitas vezes a conta mostra que falta menos do que a pessoa imaginava, e às vezes mostra que falta quase tudo.
Quem continua precisando do suplemento
O suplemento tem lugar claro em três situações, e a revisão do BMJ quase não as estudou 1.
Quem trata osteoporose com remédio. Nos estudos que provaram que os remédios para osteoporose reduzem fratura, os participantes recebiam cálcio e vitamina D, e a diretriz brasileira orienta que quem usa bisfosfonatos, os remédios mais usados para osteoporose, esteja com cálcio e vitamina D adequados 8. Parar o cálcio por causa da manchete, nesse caso, é o erro que eu quero evitar com este texto.
Pessoas de idade muito avançada. Num estudo clássico com mulheres de idade média de 84 anos, cálcio com vitamina D por 18 meses reduziu a fratura de quadril em 43% e o total de fraturas fora da coluna em 32%, em comparação com placebo 3. É o tipo de pessoa que a revisão de 2026 diz ter estudado pouco 1.
Quem não consegue chegar à meta pela comida. Intolerância à lactose e outros motivos que impedem a dieta de chegar lá entram aqui. A diretriz brasileira cita esses casos, e indica o citrato para quem fez cirurgia bariátrica 8.
Fora dessas situações, o comprimido de cálcio dado "por garantia" a quem come razoavelmente bem acrescenta pouco 1.
O que a cápsula pode causar
O risco mais bem documentado é o cálculo renal. No estudo WHI, com 36.282 mulheres na pós-menopausa, o grupo que tomou o suplemento teve 17% mais pedra nos rins do que o grupo placebo, e a redução de fratura de quadril não se firmou 2.
O coração é o ponto em debate. Uma metanálise de estudos com placebo encontrou 24% mais infarto em quem tomava suplemento de cálcio 4. Outros estudos não repetiram o achado. Uma revisão de cardiologia de 2021 concluiu que o sinal aparece em alguns estudos e não em todos, e que o suplemento deve ser usado com cautela, dando preferência ao cálcio da comida 6.
Há também o efeito no intestino: o carbonato de cálcio causa mais queixas digestivas, como constipação 8.
O cálcio da alimentação não mostrou o aumento de doença do coração que alguns estudos encontram com a cápsula 5. Essa diferença é o motivo prático para priorizar o prato.
Quando o suplemento é necessário, como ele entra
A forma de tomar muda o quanto o corpo aproveita e o quanto incomoda. As orientações da diretriz brasileira 8:
| Carbonato de cálcio | tem mais cálcio aproveitável por comprimido. É mais bem absorvido junto das refeições e é o que mais causa constipação. |
|---|---|
| Citrato de cálcio | é a forma preferida quando o suplemento continua indicado em quem já teve cálculo renal ou fez cirurgia bariátrica ou do estômago. O corpo aproveita menos cálcio de cada comprimido, então são necessários mais comprimidos para a mesma dose. |
| Não passar de 500 a 600 mg por tomada | Dividir a dose ao longo do dia aumenta a absorção. |
| A dose é só a diferença | O suplemento completa o que falta na comida, e não se soma por cima de uma dieta que já chega à meta. |
Um erro frequente, e compreensível, é tomar o comprimido inteiro de uma vez, em jejum, junto com os outros remédios da manhã. É conclusão razoável para quem aprendeu que "remédio se toma de manhã", mas o carbonato é mais bem absorvido junto das refeições 8.
A escolha que é sua
Para muita gente, a decisão real fica entre dois caminhos, ambos defensáveis quando não há osteoporose em tratamento.
O primeiro é ajustar a comida para chegar à meta. Ele poupa o comprimido, a constipação e o pequeno aumento de cálculo renal. Custa mudança de hábito, espaço no prato e, para quem não gosta de laticínio ou não os tolera, um planejamento que nem sempre se sustenta por anos.
O segundo é manter um suplemento pequeno, só para cobrir a diferença. Ele é simples e previsível. Custa mais um comprimido na rotina e expõe a um risco pequeno, mas não zero.
Nenhum estudo mede o que decide entre os dois: se a pessoa vai de fato comer daquele jeito daqui a 3 anos, quanto pesa para ela tomar mais um remédio todo dia, e quanto a tranquiliza saber que a conta está fechada. Eu, pessoalmente, tento sempre primeiro pela comida, porque é o caminho sem custo conhecido. Mas essa é a minha preferência, não a recomendação: para quem sabe que não vai sustentar a dieta, a cápsula bem dosada é a escolha mais honesta.
Em resumo, o que eu diria numa consulta
Cálcio em cápsula dado a quem vive em casa, come razoavelmente e não tem osteoporose em tratamento previne pouco ou nada de fratura, e traz um aumento pequeno de cálculo renal e um sinal no coração ainda em debate 1,2,6. O cálcio continua indispensável; ele só deve vir primeiro do prato, e no Brasil o prato costuma estar abaixo da meta 7,8. Quem trata osteoporose com remédio, pessoas de idade muito avançada e quem não consegue chegar à meta pela comida continuam com indicação de suplemento, na dose que completa a diferença, dividida ao longo do dia 3,8.
A frase para levar embora: antes de perguntar se você deve tomar cálcio, descubra quanto cálcio você come.
Se você toma cálcio há anos sem saber por quê, ou parou depois da notícia, vale rever isso com quem acompanha a sua saúde óssea.
Quando procurar um endocrinologista
Vale procurar avaliação se você tem osteoporose ou osteopenia e não sabe se precisa de suplemento, se usa remédio para osteoporose e pensa em parar o cálcio, se já teve fratura com queda da própria altura, se já teve pedra nos rins e toma cálcio, se fez cirurgia bariátrica, se tem intolerância à lactose ou alimentação muito restrita, ou se está na pós-menopausa e nunca fez densitometria. Na consulta dá para calcular o cálcio da sua alimentação, dosar a vitamina D, investigar causas de perda óssea e decidir se o suplemento entra, em que forma e em que dose. Nenhuma dose de suplemento se define pela internet: o que dá para levar daqui são os números e as perguntas certas.
Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico ou a prescrição individualizada. Quem usa remédio para osteoporose não deve suspender o cálcio nem a vitamina D sem orientação do seu médico.
Se você quer saber se precisa mesmo do suplemento de cálcio e como chegar à meta pela alimentação, agende uma avaliação com um endocrinologista.
Leia também
Fontes científicas
- Massé O, Mercurio C, Dupuis S, Al Sahwi M, Arruda A, Dallaire G, et al. Calcium, vitamin D, or combined supplementation to prevent fractures and falls: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2026;393:e088050. doi:10.1136/bmj-2025-088050.
→ https://doi.org/10.1136/bmj-2025-088050 · PubMed 42161415 - Jackson R, LaCroix A, Gass M, Wallace R, Robbins J, Lewis C, et al. Calcium plus Vitamin D Supplementation and the Risk of Fractures. New England Journal of Medicine. 2006;354(7):669-683. doi:10.1056/nejmoa055218.
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→ https://cfn.org.br/wp-content/uploads/2017/03/taco_4_edicao_ampliada_e_revisada.pdf
Fontes jornalísticas
- Estudo revela que suplementação de cálcio e vitamina D tem efeito limitado na prevenção de fraturas e quedas em idosos, BH24horas, 21/09/2026 → https://bh24horas.com.br/ciencia/estudo-revela-que-suplementacao-de-calcio-e-vitamina-d-tem-efeito-limitado-na-prevencao-de-fraturas-e-quedas-em-idosos/
Dúvidas dos leitores
Tomo cálcio com vitamina D há anos, por conta própria. Posso simplesmente parar?
Depende de por que você começou e do que você come. Se não há diagnóstico de osteoporose, se você não usa remédio para osteoporose e se a alimentação tem laticínios todos os dias, os estudos mostram que a cápsula acrescenta pouco. Se há osteoporose em tratamento, se a dieta tem pouco cálcio ou se houve cirurgia bariátrica, o suplemento costuma ter papel. A vitamina D é uma conversa à parte, com exame próprio. Por isso vale rever a indicação numa consulta antes de parar, em vez de manter ou suspender no escuro.
Sou intolerante à lactose. Dá para chegar ao cálcio sem leite?
Dá, com mais planejamento. Pela tabela brasileira de alimentos, 100 g de sardinha em conserva têm 550 mg de cálcio e 100 g de couve crua têm 131 mg, e laticínios sem lactose continuam sendo opção. A diretriz brasileira de osteoporose cita justamente a intolerância à lactose como uma das situações em que o suplemento entra quando a comida não alcança a meta. O caminho é somar o que você já come e completar só a diferença.
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