Dr. Márcio GesterEndocrinologista · CRM-PA 14727 ← Início
Ilustração editorial sóbria sobre fundo azul-marinho, com o contorno em linhas luminosas de uma xícara de café à esquerda e, à direita, a silhueta estilizada de um osso em corte, com textura interna de treliça. Entre os dois, um pequeno copo de leite em linhas finas. Sem texto, sem pessoas, sem medicamentos.

Café enfraquece os ossos? O que os estudos mostram

Em resumo: não, para quem se alimenta razoavelmente. A ideia vem de um estudo de 1994 com 980 mulheres na pós-menopausa, que encontrou menos densidade óssea em quem tomava mais café ao longo da vida, a partir do equivalente a 2 xícaras por dia 1. O achado que a manchete corta é o mesmo estudo: nas mulheres que tomavam pelo menos um copo de leite por dia na maior parte da vida adulta, a densidade não variou com a quantidade de café 1. Depois disso, uma coorte sueca com 61.433 mulheres seguidas por 21 anos não achou aumento de fratura com café, nem no quadril 2, e o mesmo grupo repetiu o resultado em 42.978 homens 3. Estudos que usam variação genética para separar causa de coincidência também não confirmam o dano 6. O que a cafeína faz com o cálcio é pequeno e mensurável: a perda de uma xícara é da ordem do que 1 a 2 colheres de sopa de leite repõem 7. No Brasil, a conta que importa é outra: 96,7% das mulheres de 51 a 59 anos não atingem o cálcio recomendado.

Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 05/09/2026

O que saiu na mídia

Em 4 de setembro de 2026 circulou em portais brasileiros a notícia de que o consumo excessivo de café pode enfraquecer os ossos de mulheres idosas. A matéria não inventou nada: existe literatura ligando café a menor densidade óssea, e ela é antiga e conhecida.

O que ficou de fora foi a condição em que esse efeito aparece, e ela muda a conduta de quem lê.

De onde vem a ideia

O trabalho que fundou essa fama é o Rancho Bernardo Study, publicado no JAMA em 1994. Foram 980 mulheres na pós-menopausa, de 50 a 98 anos, com idade média de 72,7 anos, avaliadas entre 1988 e 1991, com densitometria de quadril e coluna e histórico de consumo de café ao longo da vida 1.

O resultado foi uma associação graduada: quanto mais café com cafeína ao longo da vida, menor a densidade óssea nos dois sítios. E a associação se manteve depois de descontar idade, obesidade, número de filhos, tempo desde a menopausa, tabaco, álcool, uso de estrogênio, uso de diurético tiazídico e suplemento de cálcio 1. O limiar ficou no equivalente a 2 xícaras de café por dia ao longo da vida.

Até aqui, a manchete está correta.

A condição que a manchete corta

No mesmo estudo, a densidade óssea não variou com a quantidade de café entre as mulheres que relataram tomar pelo menos um copo de leite por dia durante a maior parte da vida adulta 1. O efeito do café existia apenas em quem não tomava leite.

Isso reposiciona o problema. O café não estava tirando cálcio do osso de todo mundo; ele estava aparecendo como marcador de uma alimentação pobre em cálcio. Quem toma muito café frequentemente toma menos leite, e a conta do osso fecha pelo que falta, não pelo que sobra.

Na minha leitura, esse é o motivo de o assunto voltar à imprensa a cada poucos anos com a mesma manchete: o dado bruto é real e a condição que o explica não cabe no título.

O que os estudos maiores mostraram depois

Três décadas depois, com amostras muito maiores e desfecho mais duro, o quadro mudou.

A coorte sueca de mamografia acompanhou 61.433 mulheres nascidas entre 1914 e 1948, de 1987 a 2008, com o consumo de café medido mais de uma vez ao longo do seguimento. Ocorreram 14.738 fraturas de qualquer tipo e 3.871 fraturas de quadril. Não houve aumento de fratura com mais café, nem no total nem no quadril, e o intervalo de confiança dos dois resultados é estreito o bastante para tornar um efeito grande improvável 2.

O mesmo grupo repetiu a análise em 42.978 homens de 45 a 79 anos, seguidos por 11,2 anos em média, com 5.066 fraturas, das quais 1.186 no quadril. Também não houve associação 3.

Duas revisões sistemáticas de 2022 chegaram ao mesmo lugar, sem confirmar o dano que os estudos antigos sugeriam 4,5. E uma análise de 2024 que usa variação genética para estimar causalidade, contornando o problema de o café andar junto com outros hábitos, não encontrou efeito prejudicial da cafeína sobre a saúde óssea 6.

Densidade menor não é o mesmo que mais fratura

Vale separar as duas coisas, porque a coorte sueca mostrou as duas ao mesmo tempo. Quem tomava 4 xícaras por dia ou mais tinha densidade óssea de 2% a 4% menor do que quem tomava menos de uma, dependendo do sítio medido, e essa diferença foi estatisticamente robusta. Mesmo assim, a chance de ter osteoporose não subiu de forma significativa, e a fratura, que é o desfecho que interessa, não aumentou 2.

Uma diferença de 2% a 4% na densidade é pequena diante da variação que separa um osso saudável de um osso frágil. Ela aparece quando se comparam dezenas de milhares de pessoas e desaparece na vida de uma pessoa só.

A metanálise que somou o efeito por dose encontrou, para cada 100 mg de cafeína a mais por dia, uma diferença de risco de fratura pequena e no limite da significância estatística, ou seja, compatível com nenhum efeito 5. É o tipo de sinal que não sustenta recomendação.

Quanto cálcio uma xícara custa de verdade

Os estudos de balanço mineral, que medem o cálcio que entra e o que sai, dão a dimensão física do problema. A cafeína tem um efeito claro, e muito pequeno, de reduzir a absorção intestinal de cálcio, sem efeito sobre o cálcio total eliminado na urina em 24 horas. A perda atribuível a uma xícara de café é da ordem do que 1 a 2 colheres de sopa de leite repõem 7.

É por isso que o café com leite resolve a parte que cabe ao café. Não é uma solução simbólica: a quantidade que ele devolve é da mesma ordem de grandeza da que a cafeína tira.

O ponto em que a cafeína começa a mexer de verdade na excreção de cálcio e de magnésio fica acima de 750 mg por dia 8, quantidade bem distante do consumo habitual de quem toma algumas xícaras.

No Brasil o problema não é o café

Aqui a discussão precisa mudar de eixo, e é onde a fonte nacional é mais útil que a internacional.

A Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo, a ABRASSO, reúne dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE: o consumo diário insuficiente de cálcio atinge 83,8% dos homens, 90,7% das mulheres até 59 anos e 96,7% das mulheres de 51 a 59 anos, que é exatamente a faixa em que a perda óssea da menopausa acelera 9. Entre crianças e adolescentes de 10 a 18 anos, 97% ficam abaixo do mínimo recomendado 9.

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a SBEM, na campanha do seu Departamento de Metabolismo Ósseo e Mineral, aponta o caminho prático: leite e derivados são a principal fonte alimentar de cálcio, e cerca de 4 porções de laticínios por dia costumam cobrir a necessidade diária 10.

Junte os dois números com o achado de 1994 e o assunto se resolve sozinho. Num país em que quase toda mulher na faixa da menopausa já está abaixo do cálcio recomendado, a variável que decide o osso não é a xícara de café. É o cálcio que não entrou.

Como essa escolha aparece na consulta

Quando alguém chega preocupada com o café, eu ponho na mesa o que cada caminho custa e o que cada um poupa.

Cortar o café custa pouco em dinheiro e pode custar bastante em rotina, prazer e sono de quem já se organizou em torno dele. Poupa a sensação de estar fazendo algo errado. O que ele entrega em osso, pelos dados acima, é próximo de nada em quem se alimenta razoavelmente.

Ajustar o cálcio custa atenção diária e alguma mudança de compra, porque exige somar as fontes e chegar perto da meta em vez de estimar por impressão. Poupa a perda óssea que de fato está acontecendo, e tem efeito medido.

O que nenhum estudo mede é o que decide entre os dois. O quanto o seu café da manhã organiza o seu dia. Se você tolera laticínio, e o que sobra de opção quando não tolera. Se ter uma regra simples para seguir acalma mais do que uma meta para calcular. E o peso de ter visto uma fratura de quadril de perto na família, que muda completamente quanto risco a pessoa aceita conviver.

Na minha prática, quando alguém pergunta se deve cortar o café, eu proponho começar pela conta do cálcio, e reavaliar o café só se aquela conta já estiver fechada. Essa é a minha inclinação, e ela não vale como recomendação: as duas ordens são defensáveis, e a escolha depende do que só quem vive a rotina sabe responder.

Em resumo, o que eu diria numa consulta

Café não é o que está enfraquecendo os seus ossos. A associação existe na literatura antiga, aparece a partir de cerca de 2 xícaras por dia, e some quando há leite na alimentação 1. Nos estudos grandes e mais recentes, com dezenas de milhares de pessoas e fratura como desfecho, ela não se confirmou 2,3,4,6. A diferença de densidade que sobra em quem toma 4 xícaras ou mais é de 2% a 4%, e não virou mais fratura 2.

Os riscos que valem atenção são outros, e cada um tem conduta. Cálcio abaixo da meta é o mais comum e o mais corrigível, com alimento antes de suplemento. Vitamina D baixa atrapalha a absorção do cálcio que você ingere. Perda óssea acelerada da menopausa pede densitometria no momento certo, não quando a fratura aparece. E cafeína acima de 750 mg por dia é assunto de sono e de coração antes de ser assunto de osso 8.

A frase para levar embora é essa: o café que você toma importa muito menos que o leite que você não toma.

Se você se reconheceu no problema, a conta do cálcio leva 5 minutos numa consulta e costuma explicar mais que qualquer mudança isolada de hábito.

Quando procurar um endocrinologista

Vale procurar avaliação se você já teve uma fratura com queda da própria altura, se tem histórico de fratura de quadril em pai ou mãe, se está na pós-menopausa e nunca fez densitometria, se usa corticoide por tempo prolongado, se tem doença que atrapalha a absorção de nutrientes, se perdeu altura ao longo dos anos, ou se uma densitometria recente veio alterada e ninguém explicou o que fazer com ela. Na consulta dá para calcular o cálcio da sua alimentação, verificar vitamina D, investigar causas de perda óssea que passam despercebidas e decidir se há indicação de tratamento. Nenhuma conduta de osso se define pela internet: o que dá para levar daqui são os números e as perguntas certas.


Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico ou a prescrição individualizada. A avaliação de saúde óssea é individualizada, e nenhuma mudança de alimentação, suplemento ou medicação deve ser iniciada sem orientação do seu médico.

Se você quer entender a saúde dos seus ossos e o que de fato muda o seu risco de fratura, agende uma avaliação com um endocrinologista.

Leia também

Fontes científicas

  1. Barrett-Connor E, Chang JC, Edelstein SL. Coffee-associated osteoporosis offset by daily milk consumption. The Rancho Bernardo Study. JAMA. 1994;271(4):280-3. doi:10.1001/jama.1994.03510280042030.
    https://doi.org/10.1001/jama.1994.03510280042030 · PubMed 8295286
  2. Hallstrom H, Byberg L, Glynn A, Lemming E, Wolk A, Michaelsson K. Long-term coffee consumption in relation to fracture risk and bone mineral density in women. American Journal of Epidemiology. 2013;178(6):898-909. doi:10.1093/aje/kwt062.
    https://doi.org/10.1093/aje/kwt062 · PubMed 23880351
  3. Hallstrom H, Wolk A, Glynn A, Michaelsson K, Byberg L. Coffee consumption and risk of fracture in the Cohort of Swedish Men (COSM). PLoS ONE. 2014;9(5):e97770. doi:10.1371/journal.pone.0097770.
    https://doi.org/10.1371/journal.pone.0097770 · PubMed 24830750
  4. Zeng X, Su Y, Tan A, Zou L, Zha W, Yi S, et al. The association of coffee consumption with the risk of osteoporosis and fractures: a systematic review and meta-analysis. Osteoporosis International. 2022;33(9):1871-1893. doi:10.1007/s00198-022-06399-7.
    https://doi.org/10.1007/s00198-022-06399-7 · PubMed 35426508
  5. Asoudeh F, Bagheri A, Larijani B, Esmaillzadeh A. Coffee consumption and caffeine intake in relation to risk of fractures: a systematic review and dose-response meta-analysis of observational studies. Critical Reviews in Food Science and Nutrition. 2022;63(28):9039-9051. doi:10.1080/10408398.2022.2067114.
    https://doi.org/10.1080/10408398.2022.2067114 · PubMed 35475944
  6. Li G, Tang C, Wu S, Cheung C. Causal association of genetically determined caffeine intake from tea or coffee with bone health: a two-sample Mendelian randomization study. Postgraduate Medical Journal. 2024;100(1188):730-740. doi:10.1093/postmj/qgae051.
    https://doi.org/10.1093/postmj/qgae051 · PubMed 38651568
  7. Heaney R. Effects of caffeine on bone and the calcium economy. Food and Chemical Toxicology. 2002;40(9):1263-1270. doi:10.1016/s0278-6915(02)00094-7.
    https://doi.org/10.1016/s0278-6915(02)00094-7 · PubMed 12204390
  8. O'Keefe J, Bhatti S, Patil H, DiNicolantonio J, Lucan S, Lavie C. Effects of habitual coffee consumption on cardiometabolic disease, cardiovascular health, and all-cause mortality. Journal of the American College of Cardiology. 2013;62(12):1043-1051. doi:10.1016/j.jacc.2013.06.035.
    https://doi.org/10.1016/j.jacc.2013.06.035 · PubMed 23871889
  9. ABRASSO, Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo, campanha Quanto Cálcio
    https://abrasso.org.br/campanha-quanto-calcio/
  10. SBEM, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, campanha Ingesta de Cálcio e Saúde Óssea
    https://www.endocrino.org.br/noticias/dia-mundial-da-osteoporose-ingesta-de-calcio-e-saude-ossea/

Fontes jornalísticas

Dúvidas dos leitores

Tomo 4 xícaras de café por dia e tenho osteopenia. Preciso cortar o café?

Cortar o café não é a primeira coisa que eu mexeria. Nos estudos maiores, quem tomava 4 xícaras ou mais por dia tinha densidade óssea de 2% a 4% menor que quem tomava menos de uma, e essa diferença não se traduziu em mais fratura 2. Para efeito de comparação, o que muda densidade de verdade em quem tem osteopenia é atingir o cálcio da alimentação, fazer treino de força, corrigir vitamina D baixa e tratar a causa da perda óssea, quando existe uma. São medidas com efeito muito maior do que a xícara. O que faz sentido é olhar para o que acompanha o café na sua rotina: quem toma muito café frequentemente toma menos leite, come em horários irregulares e pula refeição, e é esse conjunto que pesa no osso. Se a osteopenia veio de uma densitometria recente, o passo útil é levar o exame a uma consulta e investigar por que ela apareceu, em vez de mudar um hábito isolado na esperança de que resolva.

Adicionar leite no café resolve mesmo, ou isso é conversa antiga?

Resolve a parte que cabe ao café resolver, e o dado é antigo justamente porque é sólido. O estudo que criou a fama do café como vilão dos ossos encontrou perda de densidade só nas mulheres que não tomavam leite; nas que tomavam ao menos um copo por dia na maior parte da vida adulta, a densidade não variou com a quantidade de café 1. Os estudos de balanço de cálcio explicam por quê: a cafeína atrapalha um pouco a absorção intestinal de cálcio, e essa perda é da ordem do que 1 a 2 colheres de sopa de leite repõem 7. Ou seja, o café com leite já devolve o que ele tira. O que ele não faz é compensar uma alimentação pobre em cálcio no resto do dia, e é esse o problema mais comum no consultório. Vale conferir o total de cálcio que você ingere, somando todas as fontes, e não só o que vai na xícara.

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