
SOP agora é SOMP: por que a síndrome nunca foi só um problema de ovário
Em resumo: um consenso internacional publicado em maio de 2026 propôs trocar o nome "síndrome dos ovários policísticos" por "síndrome ovariana metabólica poliendócrina". Os critérios do diagnóstico não mudaram nada. O que mudou foi o endereço que o nome aponta: o antigo mandava todo mundo olhar para o ovário e para um "cisto" que nem cisto é, enquanto a condição mexe com hormônio, com o modo como o corpo usa o açúcar, com o colesterol e com o fígado. Isso tem consequência prática, porque muita mulher recebe o diagnóstico apenas por causa de um ultrassom, e muita outra deixa de recebê-lo porque o ultrassom veio normal.
Por Dr. Márcio Gester, Endocrinologista, CRM-PA 14727, RQE 9424. Atualizado em 02/08/2026.
Contexto: o que saiu na mídia
Em 12 de maio de 2026, a revista científica The Lancet publicou um consenso global propondo que a síndrome dos ovários policísticos passe a se chamar síndrome ovariana metabólica poliendócrina1. O processo reuniu 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes, com mais de 14 mil respostas em consultas internacionais, e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia representou o Brasil.
No fim de julho, reportagens brasileiras levaram o assunto ao público com um recorte que me parece o mais útil de todos: o de que avaliar apenas os ovários é um jeito incompleto de diagnosticar. A condição atinge mais de 170 milhões de mulheres no mundo.
Nenhum critério mudou, e essa é a primeira dúvida de quem já convive com o diagnóstico. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia afirma isso de forma direta, que a mudança de nomenclatura não altera os critérios diagnósticos. Quem tem o diagnóstico continua tendo o mesmo diagnóstico, com o mesmo tratamento. Trocou-se o rótulo, não a doença.
O "cisto" não é cisto, e entender isso resolve metade das dúvidas
O nome antigo criou uma imagem mental que atrapalha há décadas: a de bolsas cheias de líquido dentro do ovário, algo que precisaria ser drenado ou operado. Não é isso.
Todo mês, vários folículos começam a crescer no ovário e apenas um costuma amadurecer e liberar o óvulo. Nessa condição, o comando hormonal que faz esse amadurecimento acontecer não funciona direito, e os folículos param no meio do caminho. Eles não somem, não amadurecem e não liberam óvulo: ficam parados, pequenos, acumulados. É esse acúmulo que o ultrassom mostra e que alguém, um dia, chamou de "policístico", e é por isso que a definição do exame se baseia em contar folículos, não em medir cistos3. São folículos interrompidos, e por isso não se opera nem se drena.
Essa imagem explica o resto do artigo. Se o problema é o comando que faz o folículo amadurecer, e não o ovário em si, faz sentido que a menstruação venha irregular, que o hormônio masculino suba, e que a origem de tudo esteja em um sistema que passa longe do útero.
O diagnóstico exige duas de três coisas, e a imagem é a menos importante
A diretriz internacional de 2026 mantém o critério que já vigorava: o diagnóstico se faz com duas de três características, e mais uma etapa que quase ninguém comenta2.
As três são:
- excesso de hormônio masculino, seja pelos sinais no corpo (pelos grossos em áreas de padrão masculino, acne persistente, queda de cabelo com padrão masculino), seja por exame de sangue alterado;
- falha na ovulação, que aparece como ciclo menstrual irregular ou ausente;
- o achado do ultrassom, com muitos folículos ou ovário aumentado.
A etapa esquecida é a exclusão de outras causas. Alteração da tireoide, prolactina alta, uma forma tardia de hiperplasia adrenal congênita (uma condição da glândula suprarrenal, presente desde o nascimento, que só dá sinal na vida adulta) e, em casos selecionados, excesso de cortisol ou um tumor produtor de hormônio masculino podem produzir exatamente o mesmo quadro3,4. Nenhuma delas aparece no ultrassom do ovário. É por isso que o exame de imagem, sozinho, jamais fecha o diagnóstico: ele não é capaz de cumprir a etapa mais importante, que é descartar o que imita.
Dois pontos práticos que mudaram no documento mais recente e que valem para quem está investigando agora2,5:
- quando a mulher tem ciclo irregular e sinais de excesso de hormônio masculino, o ultrassom não é necessário. As duas características já estão presentes, o diagnóstico está completo, e a imagem não acrescenta nada;
- em adultas, a dosagem do hormônio antimülleriano, um exame de sangue que estima a reserva de folículos, pode substituir o ultrassom pelo texto internacional. Essa é uma novidade em relação à versão anterior da diretriz, e é também o ponto em que os documentos brasileiros ainda não acompanham, como explico adiante;
- em adolescentes, nos primeiros oito anos após a primeira menstruação, nem o ultrassom nem esse exame de sangue devem ser usados, porque nessa faixa etária o achado é comum demais para significar doença. Nelas, exige-se a presença tanto do excesso de hormônio masculino quanto da falha de ovulação2,4.
Por que o ultrassom engana nos dois sentidos
O exame de imagem erra nas duas direções, e cada erro produz um tipo diferente de paciente.
Ultrassom alterado em quem não tem a síndrome. Ter muitos folículos no ovário é comum em mulheres jovens que ovulam perfeitamente bem. O achado, isolado, tem baixa capacidade de distinguir quem tem da que não tem, e o resultado é sobrediagnóstico: mulher saudável saindo do consultório com um rótulo de doença crônica2,4. Os limiares atuais são altos justamente para conter isso, algo em torno de vinte folículos por ovário ou volume ovariano de dez mililitros ou mais, medidos idealmente por via transvaginal3. E eles dependem da qualidade do aparelho: um equipamento mais moderno enxerga mais folículos, então o mesmo ovário pode "virar" policístico só por causa da máquina.
Ultrassom normal em quem tem. Existe uma forma reconhecida da síndrome em que a mulher tem excesso de hormônio masculino e falha de ovulação, mas os ovários são normais na imagem3,4. Ela preenche os critérios e tem a condição. Um ultrassom limpo não exclui nada.
A cena mais comum no meu consultório é a primeira: a paciente chega com o laudo na mão, a palavra "cisto" circulada, e a pergunta já pronta sobre precisar operar. A segunda cena é mais silenciosa e me preocupa mais, porque a mulher com ciclo irregular há anos e queixa de pelos e acne às vezes já ouviu que "está tudo bem" com base num ultrassom normal, e passa anos sem investigação. O nome novo tenta resolver exatamente esse par de erros.
A pergunta que eu costumo fazer, e que rende mais do que perguntar se o ciclo é regular, é quantas menstruações a pessoa teve nos últimos doze meses. Muita mulher responde que é regular e, ao contar, chega a sete ou oito. Isso é informação diagnóstica, e ela estava ali o tempo todo.
No Brasil, os documentos ainda não estão todos no mesmo ponto
O protocolo que orienta o atendimento no SUS e o protocolo da ginecologia brasileira não usam hoje o mesmo limiar de ultrassom, e isso explica por que você pode ouvir coisas diferentes de profissionais diferentes sem que ninguém esteja sendo descuidado.
O protocolo do Ministério da Saúde é de 2019 e trabalha com o critério antigo, mais de doze folículos por ovário. O protocolo da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, de 2025, já adotou o limiar atualizado de vinte folículos ou mais, igual ao do documento internacional2,3.
A diferença é maior no exame de sangue que estima a reserva de folículos. O documento internacional o aceita como alternativa ao ultrassom em adultas2. O protocolo do Ministério da Saúde diz de forma explícita que ele ainda não pode substituir o ultrassom como critério de diagnóstico. O protocolo brasileiro de ginecologia fica no meio do caminho: reconhece a alternativa, mas registra que o valor de corte ainda não está bem estabelecido.
Essa divergência tem uma razão técnica concreta, e ela é boa de conhecer: o resultado desse exame varia conforme o kit e o laboratório que o processa, de modo que, sem um valor de referência nacional validado, o mesmo número pode significar coisas diferentes em cidades diferentes. O documento do Ministério da Saúde faz o mesmo reconhecimento a respeito das dosagens de hormônio masculino, orientando que sejam lidas pelos valores de referência do kit utilizado.
Na prática, isso não muda o que você precisa fazer. Se o seu atendimento é pelo SUS e o serviço pede o ultrassom em vez do exame de sangue, não é atraso nem má vontade: é o protocolo vigente ali. E nenhum dos dois exames dispensa a consulta que junta ciclo, sinais clínicos e exclusão das outras causas.
O que existe além do ovário
A insulina é o hormônio que coloca o açúcar do sangue para dentro das células. Nessa condição, ela funciona mal, e isso não é consequência do peso: é característica da própria síndrome. Esse é o motivo real da mudança de nome.
A demonstração mais forte disso vem de um método de pesquisa em que se infunde insulina e glicose de forma controlada por horas, medindo diretamente o quanto o corpo responde ao hormônio, o que é bem mais preciso do que estimar por exames de rotina. Reunindo esses estudos, mulheres com a síndrome tiveram a insulina trabalhando cerca de 27% pior do que mulheres sem a síndrome, comparando pesos equivalentes. O excesso de peso somou outros 15% de piora, o que quer dizer que a obesidade agrava o problema, mas não é ela que o cria6.
Essa dificuldade com a insulina é o fio que liga o resto7:
| O que se acompanha | O que os estudos mostram |
|---|---|
| Intolerância à glicose (o degrau antes do diabetes) | cerca de três vezes mais frequente; atinge de 30 a 35 de cada 100 mulheres nas formas clássicas |
| Diabetes tipo 2 | risco cerca de três vezes maior, em todas as faixas de peso |
| Colesterol e triglicerídeos | colesterol total um pouco mais alto e HDL, o colesterol que protege, um pouco mais baixo |
| Pressão alta | risco cerca de 75% maior na idade reprodutiva |
| Gordura no fígado | mais frequente, acompanhando a dificuldade com a insulina |
Estes números descrevem risco de grupo, não destino individual: são o motivo de acompanhar, não uma previsão do que vai acontecer com você.
Por isso a recomendação atual é fazer avaliação metabólica em todas as mulheres com o diagnóstico, já no momento em que ele é feito, e repetir ao longo da vida, independentemente do peso2.
Ser magra não protege
Quando se olham especificamente as mulheres sem obesidade que têm a síndrome, e se comparam com mulheres sem obesidade e sem a síndrome, elas ainda têm mais alteração de açúcar, mais triglicerídeo alto e mais HDL baixo8. A frequência exata da dificuldade com a insulina varia bastante conforme o critério de laboratório que se adota, de cerca de um quarto a cerca de seis em cada dez mulheres, o que mostra que o número depende muito de onde se coloca a linha de corte9.
Existe ainda uma armadilha técnica: os exames de rotina usados para estimar resistência à insulina subestimam o problema justamente nas mulheres magras6,9. Ou seja, o grupo que mais tende a ser dispensado da investigação é o que o exame simples menos consegue enxergar.
Na minha leitura da prática, é isto que mais muda quando a paciente entende o mecanismo: ela para de tratar o assunto como um problema estético ou de fertilidade isolado e passa a aceitar o acompanhamento metabólico, que é chato porque é para sempre, mas é o que protege a saúde dela daqui a vinte anos.
O que o tratamento faz de verdade
Não existe cirurgia de ovário para isso, e não existe cura no sentido de eliminar a condição. Existe tratamento eficaz para cada um dos problemas que ela causa2,4.
Para todas, mudança de estilo de vida. Alimentação e atividade física são a base, e agem exatamente onde está o mecanismo, melhorando o modo como a insulina trabalha. Em quem tem excesso de peso, uma perda modesta já costuma regularizar ciclos.
Anticoncepcional combinado é a primeira escolha para irregularidade menstrual e para os sinais de excesso de hormônio masculino. Ele organiza o sangramento, protege o revestimento interno do útero e reduz acne e pelos com o tempo. Não corrige a dificuldade com a insulina, e não é tratamento de fertilidade.
Metformina entra principalmente pelo lado metabólico, atuando sobre o açúcar e o peso.
Inositol, muito procurado por ser vendido como suplemento e parecer uma alternativa "natural", tem benefício clínico limitado e se mostrou inferior à metformina. É uma informação que vale ter antes de gastar dinheiro com ele por conta própria.
Um erro que corrijo com frequência, e sem qualquer julgamento de quem o cometeu, é o de concluir que o problema acabou porque o ultrassom de controle melhorou durante o uso do anticoncepcional. A imagem melhora mesmo, e ainda assim a condição segue lá: a prova disso é que os ciclos voltam ao padrão anterior quando o remédio é interrompido. O que se acompanha ao longo do tempo não é a imagem do ovário, é a pressão, o açúcar, o colesterol e o ciclo.
Quando procurar um endocrinologista
Procure uma avaliação se você:
- tem menos de oito ou nove menstruações por ano, ou intervalos que passam de 35 dias com frequência;
- convive com acne que não melhora, queda de cabelo com padrão masculino ou pelos grossos em áreas de padrão masculino;
- recebeu o rótulo de "ovário policístico" apenas por um ultrassom, sem ninguém ter avaliado ciclo, sinais clínicos e as outras causas possíveis;
- tem ciclo irregular há anos e ouviu que estava tudo bem porque o ultrassom era normal;
- já tem o diagnóstico e nunca fez avaliação de açúcar no sangue, colesterol e pressão, mesmo sendo magra;
- tem o diagnóstico e está planejando engravidar, porque a conduta muda bastante nesse cenário.
Nada disso substitui a consulta: cada uma dessas situações tem mais de uma explicação possível, e distinguir entre elas é o trabalho que se faz com história clínica, exame e os testes certos para o seu caso.
Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico ou o tratamento individualizado. Os medicamentos citados exigem prescrição e acompanhamento; nenhum deles deve ser iniciado ou interrompido por conta própria.
Se você se identificou com algo deste texto, agende uma avaliação com um endocrinologista.
Leia também
Fontes científicas
- Teede H, Khomami M, Morman R, Laven J, Joham A, Costello M, et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. The Lancet. 2026;407(10545):2329-2339. doi:10.1016/s0140-6736(26)00717-8.
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→ https://doi.org/10.1016/j.fertnstert.2019.06.035 · PubMed 31542165 - SBEM: Consenso global propõe novo nome para a síndrome dos ovários policísticos (12/05/2026)
→ https://www.endocrino.org.br/noticias/consenso-global-propoe-novo-nome-para-a-sindrome-dos-ovarios-policisticos/ - FEBRASGO: Síndrome dos ovários policísticos, Protocolo de Ginecologia nº 45 (FEMINA, 2025)
→ https://femina.org.br/wp-content/uploads/sites/12/articles_xml/0100-7254-femina-53-12-1390/0100-7254-femina-53-12-1390.pdf - Ministério da Saúde: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos (Portaria Conjunta nº 6, 2019)
→ https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/s/sindrome-de-ovarios-policisticos
Fontes jornalísticas
- Estado de Minas: Por que é um erro avaliar apenas os ovários para diagnosticar a SOMP (29/07/2026) → https://www.em.com.br/bem-viver/2026/07/7469997-por-que-e-um-erro-avaliar-apenas-os-ovarios-para-diagnosticar-a-somp.html
Dúvidas dos leitores
Meu ultrassom mostrou ovários policísticos, mas minha menstruação vem certinha todo mês e eu não tenho acne nem excesso de pelos. Eu tenho a síndrome?
Pelo que você descreve, provavelmente não. O achado de muitos folículos no ovário é comum em mulheres jovens que ovulam normalmente, e sozinho ele não fecha diagnóstico nenhum. O critério exige duas de três coisas ao mesmo tempo: ciclo irregular, sinais de excesso de hormônio masculino (acne persistente, queda de cabelo com padrão masculino, pelos grossos em áreas de padrão masculino ou exame alterado) e o achado do ultrassom. Com uma só das três, e ainda por cima a menos específica, o mais provável é que seja apenas a sua imagem de ovário normal para a idade. Guarde o exame e converse com seu médico se algo mudar no ciclo, mas não é caso de tratar uma imagem.
Sou magra. Faz sentido eu ter resistência à insulina por causa dessa síndrome?
Faz, e essa é uma das confusões mais frequentes. A dificuldade de a insulina trabalhar direito é característica da própria condição, não uma consequência do peso. Quando se mede isso pelo método mais preciso que existe em pesquisa, mulheres com a síndrome têm a insulina funcionando cerca de um quarto pior do que mulheres sem a síndrome, mesmo comparando gente do mesmo peso. O excesso de peso piora ainda mais o quadro, mas não é ele que cria o problema. Na prática, isso significa que ser magra não dispensa a avaliação metabólica: a recomendação atual é investigar açúcar no sangue, colesterol e pressão em todas, independentemente do peso.
O anticoncepcional trata a síndrome ou só mascara? Meu ultrassom melhorou depois que comecei.
Ele trata sintomas de verdade, e trata bem: regulariza o sangramento, protege o revestimento do útero e reduz acne e pelos ao longo de meses. O que ele não faz é curar a condição, e o ultrassom melhor não é prova de cura. Se o remédio for interrompido, os ciclos tendem a voltar ao padrão anterior, porque a causa de fundo continua lá. Em uso de anticoncepcional, a dosagem de hormônios masculinos no sangue também fica sem valor para diagnóstico, o que às vezes obriga a uma pausa orientada antes de investigar. A decisão de manter, trocar ou suspender depende do que você quer resolver naquele momento, incluindo o plano de engravidar ou não, e essa conversa é individual.
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