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Ilustração editorial em tons de azul-marinho com uma pequena cápsula alongada e luminosa sob uma camada estilizada de pele, cercada por linhas de onda que se espalham de forma irregular, sem pessoas, sem rostos e sem embalagens de medicamento.

Chip da beleza: o que as sociedades médicas pedem à Anvisa e o que fazer se você já usa

Em resumo: 12 entidades médicas, com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) entre elas, pediram à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a proibição dos implantes hormonais manipulados. O pedido tem base medida: num estudo com 539 mulheres na pós-menopausa, 57,6% das que usavam implante tiveram efeito colateral, contra 14,8% das que usavam reposição registrada, e a testosterona no pico ficou muito acima da faixa feminina1. A gestrinona, um dos hormônios desses implantes, tem como efeitos registrados acne, queda do desejo sexual e ganho de peso3. Quem já tem o implante precisa de avaliação e de um plano, não de pânico.

Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 02/10/2026

Contexto: o que saiu na mídia

Em 01/10/2026, um grupo de 12 entidades médicas nacionais e internacionais divulgou um posicionamento conjunto pedindo à Anvisa medidas contra a manipulação, a venda, a propaganda e o uso dos implantes hormonais manipulados, o que o público conhece como chip da beleza. O documento, noticiado pela Veja, pelo UOL e pela Veja Saúde, cita implantes com testosterona, gestrinona e estradiol oferecidos para sintomas da menopausa, emagrecimento, ganho de massa muscular, disposição e antienvelhecimento, e afirma que para essas finalidades não existem estudos de qualidade que sustentem o benefício anunciado.

As próprias entidades fazem questão de dizer que a carta não é contra a reposição hormonal, que elas descrevem como tratamento legítimo quando bem indicado, feito com medicamento registrado. O alvo é uma forma de uso específica, e é sobre ela que este texto trata.

O que é o chip, e por que "bioidêntico" não quer dizer seguro

O implante manipulado é um pequeno bastão colocado sob a pele, produzido em farmácia de manipulação, que libera hormônio continuamente. A dose, a mistura e a velocidade de liberação variam de farmácia para farmácia, e esse é o centro do problema: o posicionamento brasileiro sobre testosterona na mulher descreve essas fórmulas como sem padronização de dose e de veículo e sem controle de qualidade do produto, o que deixa sem controle quanto hormônio é absorvido e por quanto tempo6.

A palavra que costuma acompanhar o produto é "bioidêntico". Ela soa como natural e, por isso, mais seguro. O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas descreve o termo como expressão de marketing, sem evidência que sustente a promessa de segurança e eficácia superiores, e recomenda que o hormônio manipulado não seja prescrito de rotina quando existe versão registrada2. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) veda a prescrição de hormônios divulgados como "bioidênticos" ou com nomes de cunho comercial sem comprovação científica de superioridade7.

Um erro que eu corrijo com frequência nesse assunto é exatamente essa confusão. Os medicamentos registrados também usam hormônios idênticos aos do corpo2; o que separa um adesivo registrado do implante manipulado não é a molécula, é saber quanto dela entra no corpo.

O que os estudos mostram sobre o implante

O dado mais direto vem de um estudo dos Estados Unidos que revisou os prontuários de 539 mulheres na pós-menopausa: 384 usavam implante manipulado e 155 usavam reposição registrada1.

É um estudo de prontuário, não um ensaio em que as mulheres foram sorteadas para cada tratamento, e por isso não prova sozinho que o implante causou cada um desses desfechos. O que ele mostra sem ambiguidade é o número no exame: o implante leva a testosterona e o estradiol a níveis que nenhuma reposição bem indicada busca.

Gestrinona: o hormônio que virou chip

A gestrinona é um derivado sintético da testosterona, com ação androgênica e anabolizante, usada no tratamento da endometriose, em comprimido4. No implante, ela é vendida pela promessa de acelerar o metabolismo e ganhar músculo. Uma revisão brasileira de 2025 reuniu 32 estudos sobre a segurança dela, e os efeitos registrados foram estes3:

O produto vendido para emagrecer e para melhorar a libido tem, entre seus efeitos mais frequentes, ganho de peso e queda do desejo. Os autores concluem que a evidência não basta para conhecer os riscos do uso amplo e sem regulação, e pedem supervisão regulatória3.

O colesterol também muda. Num estudo pequeno, 20 mulheres com endometriose foram sorteadas para 2 doses de gestrinona por 6 meses, sem saber qual recebiam: nas duas doses, o colesterol ruim (LDL) subiu 13% e o colesterol bom (HDL) caiu 40%, e reduzir a dose não desfez o problema4. Para quem coloca o implante por estética, sem endometriose para tratar, isso é risco sem nenhum benefício do outro lado.

Testosterona na mulher: a única indicação com prova

A testosterona tem lugar no tratamento da mulher, e é um lugar estreito. O consenso internacional de 2019, assinado pelas principais sociedades de menopausa e de endocrinologia do mundo, conclui que a única indicação com evidência é o desejo sexual baixo que causa sofrimento, na pós-menopausa, diagnosticado depois de uma avaliação que inclui as causas emocionais e da relação5. Para disposição, humor, memória, músculo ou prevenção de doença, não há dado suficiente5.

Mesmo nessa indicação, a regra é a dose. O consenso recomenda formulação que mantenha a testosterona na faixa de uma mulher antes da menopausa, mede o nível antes de começar e de 3 a 6 semanas depois, acompanha a cada 6 meses e manda parar se não houver melhora em 6 meses5. Nessa dose, os efeitos indesejados foram aumento discreto de acne e de pelos em algumas mulheres, sem queda de cabelo, aumento do clitóris ou mudança de voz5. O mesmo documento diz com todas as letras que implante e injeção não são recomendados, porque levam a níveis acima da faixa fisiológica5.

Aqui o Brasil tem uma particularidade, e na minha leitura ela é o ponto mais mal entendido da notícia. O posicionamento da FEBRASGO lembra que não existe testosterona registrada para mulher nas farmácias brasileiras, de modo que a única forma disponível de prescrevê-la é manipulada, de preferência transdérmica6. O mesmo documento desaconselha o implante, porque ele costuma produzir testosterona acima da faixa fisiológica já 3 meses depois da colocação e os efeitos de longo prazo são desconhecidos6. Ou seja: o problema central não é a farmácia de manipulação, é a forma do implante, que tira do médico e da paciente a possibilidade de ajustar ou de parar.

O que a regra brasileira já diz hoje

O pedido das sociedades não parte do zero. Três regras já valem:

Conselho Federal de Medicina:desde 2023, o médico não pode prescrever testosterona sem deficiência comprovada, nem esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de desempenho esportivo7.
Anvisa, sobre a gestrinona:a propaganda da substância ao público está proibida desde dezembro de 20219.
Anvisa, sobre os implantes:o implante manipulado à base de anabolizante ou de hormônio androgênico é proibido para estética, massa muscular e desempenho; a propaganda de qualquer implante manipulado ao público é proibida; e, quando ele é prescrito para tratar uma doença, a receita é de controle especial, com o código da doença, e o médico, a paciente e a farmácia assinam um termo de responsabilidade8.

O que as 12 entidades pedem agora é ir além: proibir o implante manipulado como via, inclusive quando apresentado como tratamento. O implante registrado para evitar gravidez não entra nessa discussão, e a Anvisa afirma que as regras dele não mudaram8.

Já tenho o implante: o que fazer agora

A orientação da Anvisa para quem usa é procurar o médico e pedir orientação sobre o tratamento9. Na consulta, o roteiro que eu sigo é este:

1. Descobrir o que foi colocado. A pergunta mais útil é "o que exatamente tem nesse implante, em que dose e quando foi colocado?". Muita gente não sabe, e a receita de controle especial e o termo de responsabilidade, que a regra atual exige, são os lugares onde procurar8. 2. Medir. Testosterona total, que é o exame que o consenso usa para flagrar excesso5, e, conforme o caso, o perfil de colesterol e as enzimas do fígado, que são onde a gestrinona deixa marca3,4. 3. Olhar os sinais de excesso de hormônio masculino: acne que não cede, pelos grossos em áreas novas, queda de cabelo com padrão masculino, voz mais grave. Mudança de voz merece atenção especial, porque fica fora do que se vê com a dose fisiológica5. 4. Investigar todo sangramento fora de hora em quem tem útero: no estudo dos prontuários, ele apareceu em mais da metade das usuárias de implante que tinham útero1. 5. Não colocar o próximo. O implante manipulado não tem como ser ajustado nem interrompido de um dia para o outro6, e cada nova colocação recomeça a exposição.

Se algum efeito indesejado aparecer, ele pode ser notificado à Anvisa, que pede isso aos pacientes9. E se o motivo que levou ao implante era real, como fogacho, insônia ou desejo baixo, ele continua merecendo tratamento, só que por outro caminho.

Quando o objetivo é tratar a menopausa ou o desejo

Para o fogacho e os outros sintomas da menopausa, existe reposição registrada por via oral e transdérmica, em comprimido, adesivo e gel, com dose conhecida e que pode ser ajustada, e é ela que o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas recomenda no lugar do hormônio manipulado2. É a conduta que eu ofereço, e ela não depende de implante.

O desejo sexual baixo é onde a conversa tem duas saídas legítimas, e a escolha é da mulher. Uma é tratar só o que está em volta: sono, humor, dor na relação, remédios que derrubam o desejo, a própria relação. A outra é somar a testosterona transdérmica em dose feminina, com efeito moderado nos estudos5, acne e pelos possíveis, exame antes e durante, e a regra de parar em 6 meses sem melhora5,6. A primeira poupa o hormônio diário e o exame de sangue; a segunda custa isso tudo e acrescenta o efeito do hormônio, que nos estudos é moderado. O que nenhum estudo mede é o quanto um pelo a mais no rosto incomoda aquela mulher, o quanto ela está disposta a passar um gel todos os dias, e o peso que o desejo tem na vida dela naquele momento. Eu costumo começar pelo que está em volta e deixar a testosterona para depois; mas essa é a minha preferência, não uma recomendação que valha para todas.

Em resumo, o que eu diria numa consulta

O implante hormonal manipulado entrega níveis de testosterona e de estradiol muito acima da faixa feminina, mais efeito colateral e mais sangramento do que a reposição registrada1, e a gestrinona soma acne, queda do desejo, ganho de peso e piora do colesterol3,4. Esses riscos não têm benefício comprovado do outro lado para estética, emagrecimento, músculo ou disposição5,7.

Se você já usa, o caminho é avaliação, exame e a decisão de não renovar; se o objetivo era tratar a menopausa ou o desejo, existe tratamento com dose conhecida e que pode ser interrompido. A frase para levar: hormônio bom é o que se consegue medir, ajustar e parar. Se você se reconheceu aqui, essa conversa vale ser feita com calma, sem culpa pela escolha que fez antes.

Quando procurar um endocrinologista

Vale marcar uma avaliação se você tem um implante hormonal colocado e não sabe o que há nele, se surgiram acne persistente, pelos grossos em áreas novas, queda de cabelo ou mudança de voz, se houve sangramento fora de hora depois da menopausa, se exames mostraram colesterol ou enzimas do fígado alterados durante o uso, ou se você está pensando em colocar um implante para emagrecer, ganhar massa ou ter mais disposição. Também quando os sintomas da menopausa ou a queda do desejo atrapalham a vida e você quer conhecer as opções registradas. Este texto não substitui a consulta nem serve para prescrever pela internet.


Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica. Não inicie, suspenda nem retire tratamento hormonal ou implante por conta própria: a decisão depende de avaliação individual.

Se você usa ou pensa em usar implante hormonal, ou quer tratar os sintomas da menopausa com segurança, agende uma avaliação com um endocrinologista.

Leia também

Fontes científicas

  1. Jiang X, Bossert A, Parthasarathy K, Leaman K, Minassian S, Schnatz P, et al. Safety assessment of compounded non-FDA-approved hormonal therapy versus FDA-approved hormonal therapy in treating postmenopausal women. Menopause. 2021;28(8):867-874. doi:10.1097/gme.0000000000001782.
    → https://doi.org/10.1097/gme.0000000000001782 · PubMed 33973545
  2. American College of Obstetricians and Gynecologists. Compounded Bioidentical Menopausal Hormone Therapy: ACOG Clinical Consensus No. 6. Obstet Gynecol. 2023;142(5):1266-1273. doi:10.1097/AOG.0000000000005395.
    → https://doi.org/10.1097/AOG.0000000000005395 · PubMed 37856860
  3. Fagundes V, Barreiro Marques N, Franco de Lima A, de Fátima Cobre A, Stumpf Tonin F, Luna Lazo R, et al. Safety Profile of Gestrinone: A Systematic Review. Pharmaceutics. 2025;17(5):638. doi:10.3390/pharmaceutics17050638.
    → https://doi.org/10.3390/pharmaceutics17050638 · PubMed 40430929
  4. Worthington M, Irvine L, Crook D, Lees B, Shaw R, Stevenson J. A randomized comparative study of the metabolic effects of two regimens of gestrinone in the treatment of endometriosis. Fertil Steril. 1993;59(3):522-526. doi:10.1016/s0015-0282(16)55793-8.
    → https://doi.org/10.1016/s0015-0282(16)55793-8 · PubMed 8458451
  5. Davis S, Baber R, Panay N, Bitzer J, Perez S, Islam R, et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(10):4660-4666. doi:10.1210/jc.2019-01603.
    → https://doi.org/10.1210/jc.2019-01603 · PubMed 31498871
  6. Lara L, Pereira J, Paula S, Oliveira F, Cunha A, Lerner T, et al. Challenges of prescribing testosterone for sexual dysfunction in women: Number 7 – 2024. Rev Bras Ginecol Obstet. 2024;46:e-FPS07. doi:10.61622/rbgo/2024FPS07.
    → https://doi.org/10.61622/rbgo/2024FPS07 · PubMed 39176198
  7. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333, de 30 de março de 2023: normas éticas para a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes.
    → https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2023/2333_2023.pdf
  8. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Implantes hormonais: regras para prescrição, manipulação e uso, e o que está proibido (página da campanha Estética com segurança, atualizada em 27/04/2026).
    → https://www.gov.br/anvisa/pt-br/comunicacao/campanhas/estetica/implantes-hormonais
  9. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa faz proibição e publica alerta sobre hormônios implantáveis manipulados, 18/10/2024.
    → https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2024/anvisa-faz-proibicao-e-publica-alerta-sobre-hormonios-implantaveis-manipulados

Fontes jornalísticas

Dúvidas dos leitores

Coloquei o chip e me sinto muito bem. Preciso tirar?

Sentir-se bem é real e conta, mas não diz qual é a dose que está circulando no seu corpo. No estudo que comparou implante com reposição registrada, a testosterona no pico ficou, em média, em 194 ng/dL com o implante, contra 15,6 ng/dL com o tratamento registrado, e 9 mulheres passaram de 400 ng/dL. O primeiro passo não é tirar às pressas: é uma avaliação com exame de testosterona e o exame físico, para decidir junto com o médico entre acompanhar até o hormônio acabar ou planejar a retirada, e combinar que o próximo implante não será colocado.

O implante de anticoncepcional também está na mira?

Não. O implante de etonogestrel, usado para evitar gravidez, é um medicamento registrado na Anvisa, com dose definida e estudado para esse fim, e a agência afirma que as regras dele não mudaram. O alvo do pedido das sociedades é o implante produzido em farmácia de manipulação, com testosterona, gestrinona, estradiol ou misturas, que não passou pelos estudos de qualidade, dose e segurança exigidos de um medicamento registrado.

A gestrinona ajuda a emagrecer?

Não há prova disso, e os estudos apontam o contrário. Numa revisão de 32 estudos sobre a segurança da gestrinona, 24 registraram ganho de peso significativo, de 0,9 a 8 kg por pessoa, além de acne, queda do desejo sexual e alteração das enzimas do fígado. A Anvisa proíbe a propaganda da gestrinona ao público desde 2021, e o Conselho Federal de Medicina veda o uso de hormônios androgênicos com finalidade estética.

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