Dr. Márcio GesterEndocrinologista · CRM-PA 14727 ← Início
Ilustração editorial em linhas finas azul-claro sobre fundo azul-marinho: o contorno de uma tireoide em forma de borboleta, com pequenos pontos ao redor representando anticorpos e, ao lado, uma linha de acompanhamento horizontal e estável. Sem texto, sem pessoas, sem marcas.

Tenho Hashimoto e a tireoide está normal: preciso tratar?

Em resumo: anticorpo contra a tireoide com o TSH (hormônio estimulante da tireoide) normal é comum, aparece em 12% a 26% das pessoas com a tireoide funcionando 1, e na maioria dos casos não pede remédio: pede acompanhar o TSH. Em mulheres com anticorpo positivo e TSH normal, cerca de 2 em cada 100 por ano evoluem para hipotireoidismo 1, e o risco sobe quanto mais alto já estiver o TSH 2. Num ensaio clínico, ter o anticorpo não fez a levotiroxina aliviar mais os sintomas 4. O selênio baixa o anticorpo e mexe um pouco no TSH, mas não mudou o T4 livre nem o tamanho da tireoide 6. A dieta sem glúten não tem evidência suficiente para ser recomendada a todos 7,8, e a doença celíaca, essa sim, merece ser investigada 9.

Por Dr. Márcio Gester · Endocrinologista · CRM-PA 14727 · RQE 9424 · atualizado em 15/09/2026

Contexto (o que saiu na mídia)

A CNN Brasil publicou em 14/09, a partir do programa Sinais Vitais, uma conversa com endocrinologistas sobre a tireoidite de Hashimoto, com uma mensagem central correta: o diagnóstico não significa hipotireoidismo imediato. A manchete destacou que a doença não tem cura, o que é verdade, e deixa de fora a parte que mais interessa a quem acabou de receber o resultado: boa parte das pessoas com o anticorpo passa anos, às vezes a vida inteira, sem precisar de tratamento.

Hashimoto é o anticorpo, não o hipotireoidismo

Hashimoto é o nome da inflamação da tireoide causada pelo próprio sistema de defesa. O exame que denuncia essa inflamação é o anticorpo contra a TPO, sigla de tireoperoxidase, a enzima que a tireoide usa para fabricar hormônio 1. O hipotireoidismo é outra coisa: é quando a glândula já não produz hormônio suficiente, e isso se mede pelo TSH, que o cérebro manda em maior quantidade quando a tireoide começa a falhar.

As duas coisas andam juntas, mas não ao mesmo tempo. O anticorpo pode estar positivo por décadas com o TSH normal. Quanto mais alto o título do anticorpo, maior a infiltração de células de defesa na glândula e, mesmo dentro da faixa normal, mais alto tende a ser o TSH 1.

Na minha leitura, o erro mais caro nesse diagnóstico é tratar o resultado do anticorpo como se fosse o do TSH. Quem sai da consulta achando que "tem hipotireoidismo" e não tem passa a atribuir à tireoide cada cansaço, cada quilo e cada queda de cabelo, e para de procurar a causa real.

Com que velocidade a tireoide para

Devagar, e não para todos. Um acompanhamento populacional clássico seguiu adultos de uma comunidade inglesa por 20 anos. Nele, ter o anticorpo e ter o TSH elevado foram, cada um, fatores de risco para hipotireoidismo, e o risco mais alto estava em quem tinha os dois 2. A probabilidade de desenvolver hipotireoidismo subia a cada degrau do TSH acima de 2, e subia mais ainda quando o anticorpo estava presente 2.

Traduzido em números: em mulheres com o anticorpo positivo e o TSH normal, o risco de hipotireoidismo foi de cerca de 2,1% ao ano 1. Somado ao longo de muitos anos, é um risco real, mas que não justifica tratar hoje uma glândula que ainda está funcionando.

SituaçãoO que costuma significarO que se faz
Anticorpo positivo, TSH normalRisco aumentado ao longo dos anos, sem falta de hormônio agoraDosar TSH periodicamente
Anticorpo positivo, TSH pouco elevado, T4 livre normalHipotireoidismo subclínico, com risco maior de progressãoRepetir, confirmar e individualizar
TSH alto com T4 livre baixoHipotireoidismo estabelecidoTratamento com levotiroxina

A tabela resume o raciocínio geral. Os limites exatos e o intervalo entre exames dependem da idade, dos sintomas, do plano de gravidez e de outras doenças.

O cansaço é do anticorpo?

Pode haver relação, mas a evidência ainda não permite dizer que o anticorpo causa os sintomas. Um estudo comparou pessoas com Hashimoto e hormônios normais a pessoas sem a doença e encontrou mais queixas de cansaço, esquecimento, intestino e pele no primeiro grupo, com anticorpos mais altos acompanhando pior qualidade de vida e marcadores de inflamação mais elevados 3. É uma associação medida num único momento, e não prova que baixar o anticorpo aliviaria as queixas.

Uma pergunta que eu faço quando o cansaço aparece nesse contexto é quando foi o último TSH e o que mais mudou na vida da pessoa no mesmo período. Sono ruim, anemia, falta de vitamina B12, depressão e excesso de trabalho também explicam cansaço, e nenhum deles se resolve com hormônio da tireoide.

Por que a levotiroxina não entra com o TSH normal

Porque ela repõe um hormônio que não está faltando, e os ensaios não mostraram ganho. A análise conjunta de dois ensaios clínicos com 660 pessoas de 65 anos ou mais com hipotireoidismo subclínico comparou levotiroxina com comprimido sem efeito ao longo de um ano. Quem tinha o anticorpo positivo não melhorou mais dos sintomas de hipotireoidismo nem do cansaço do que quem não tinha, e também não teve mais força nem menos eventos cardiovasculares com o remédio 4. Esse estudo foi feito em pessoas com o TSH já um pouco elevado; com o TSH normal, a razão para esperar benefício é ainda menor.

O consenso da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) sobre hipotireoidismo subclínico recomenda levotiroxina para todos com hipotireoidismo subclínico persistente e TSH acima de 10, e deixa a indicação abaixo desse valor para subgrupos específicos 5. Com o TSH normal, não existe hipotireoidismo subclínico a tratar.

Selênio: o exame melhora, e o que isso vale

O selênio baixa o anticorpo, e esse é o dado mais sólido sobre ele. Uma revisão com metanálise de 2024 reuniu 35 estudos em que parte das pessoas recebeu selênio e parte não. O suplemento reduziu o anticorpo contra a TPO, reduziu discretamente o TSH em quem não tomava levotiroxina, e os efeitos adversos foram semelhantes entre os grupos, com certeza da evidência classificada como moderada 6.

O que não mudou importa tanto quanto o que mudou: o T4 livre, o T3, o outro anticorpo da tireoide (contra a tireoglobulina) e o volume da glândula ficaram iguais 6. O desfecho principal da revisão foi o TSH, um exame. Nenhum dos resultados mostra que tomar selênio evita que a pessoa chegue ao hipotireoidismo ou precise de levotiroxina no futuro.

Na minha leitura, isso coloca o selênio numa categoria honesta: um suplemento que melhora números de laboratório sem prova de que muda a história da doença. Não é fraude e não é tratamento.

Dieta sem glúten, iodo e o que realmente se investiga

Glúten: a primeira metanálise sobre dieta sem glúten em Hashimoto, em pessoas sem doença celíaca, reuniu 4 estudos e 87 pacientes acompanhados por cerca de 6 meses. A queda dos anticorpos ficou no limite, sem se firmar, e o efeito apareceu sobretudo em quem tinha alguma condição relacionada ao glúten. Os próprios autores concluíram que a evidência não basta para recomendar a dieta a todos com Hashimoto 7. Um estudo genético de 2026 também não encontrou efeito protetor da dieta sem glúten sobre a doença autoimune da tireoide 8.

Doença celíaca: o mesmo estudo genético reforçou que o Hashimoto aumenta o risco de doença celíaca 8, e uma revisão de 2024 publicada na revista Gastroenterology inclui o Hashimoto entre as condições em que a doença celíaca deve ser pesquisada, começando por um exame de sangue 9. A ordem certa, portanto, é investigar a doença celíaca antes de tirar o glúten, e não o contrário: a dieta feita antes do exame pode esconder o diagnóstico.

Iodo: tanto a falta quanto o excesso de iodo se associaram a mais autoimunidade da tireoide, numa relação em forma de U 10. Para quem já tem Hashimoto, a consequência prática é evitar suplemento de iodo e cápsulas de algas por conta própria, sem cortar o sal iodado da alimentação comum.

Selênio, dieta ou nada: uma escolha que é sua

Com a tireoide funcionando, não tomar nada e acompanhar o TSH é a conduta que a evidência sustenta, e as outras duas opções são legítimas quando a pessoa entende o que está comprando. O selênio custa a compra mensal, mais um comprimido na rotina e a disciplina de não aumentar a dose por conta própria; o que ele entrega de medido é um anticorpo mais baixo no próximo exame 6. A dieta sem glúten, sem doença celíaca, custa restaurante, viagem, almoço de família e a leitura de rótulo em todo mercado, em troca de um efeito que não se firmou nos estudos 7,8. Não fazer nada não custa dinheiro e poupa rotina, mas cobra conviver com um anticorpo alto no exame sem mexer nele.

O que costuma decidir não aparece em nenhuma metanálise. Para algumas pessoas, ver o anticorpo cair no papel traz uma tranquilidade que tem valor próprio, mesmo sabendo que o desfecho não foi provado. Para outras, tomar um suplemento todos os dias é lembrar todos os dias de uma doença que não dá sintoma nenhum. Há quem viva bem com a ideia de só observar e há quem sinta que observar é não fazer nada. Quem tem uma relação difícil com comida paga um preço alto por mais uma regra alimentar, e quem gosta de cozinhar talvez nem sinta a troca. Os números estão na mesa; o peso de cada custo, só a pessoa sabe.

Em resumo, o que eu diria numa consulta

O anticorpo positivo com o TSH normal mostra uma tireoide sob ataque lento, com risco de parar de funcionar ao longo dos anos que fica em torno de 2 em cada 100 mulheres por ano 1 e que cresce quando o TSH já está alto 2. Não há hormônio faltando, e ter o anticorpo não fez a levotiroxina aliviar mais os sintomas em ensaio clínico 4. O selênio baixa o anticorpo sem prova de mudar a evolução 6; a dieta sem glúten não se sustenta para quem não tem doença celíaca 7,8; excesso de iodo atrapalha 10; e a doença celíaca merece ser investigada 9.

A frase para levar: Hashimoto com a tireoide normal se acompanha com TSH, e o tratamento começa quando falta hormônio, não quando aparece o anticorpo. Se você tem o diagnóstico e ninguém explicou o que ele significa, essa conversa cabe inteira numa consulta.

Quando procurar um endocrinologista

Vale marcar uma avaliação se você recebeu o resultado de anticorpo positivo e não sabe quando repetir o TSH; se está planejando engravidar ou já está grávida e tem Hashimoto; se o TSH veio acima do normal em algum exame; se surgiram cansaço persistente, intolerância ao frio, ganho de peso sem explicação, prisão de ventre, pele seca ou menstruação irregular; se o pescoço aumentou de volume ou apareceu um nódulo; se alguém da família tem doença celíaca ou você tem sintomas intestinais; e se você começou suplemento ou dieta restritiva por conta do diagnóstico. Este texto não substitui a avaliação individual e não prescreve tratamento pela internet.


Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o exame clínico nem a avaliação individual. Levotiroxina, selênio e dietas de restrição não devem ser iniciados, ajustados ou suspensos por conta própria.

Se você tem Hashimoto e quer entender o que acompanhar e quando tratar, agende uma avaliação com um endocrinologista.

Leia também

Fontes científicas

  1. Prummel MF, Wiersinga WM. Thyroid peroxidase autoantibodies in euthyroid subjects. Best Pract Res Clin Endocrinol Metab. 2005;19(1):1-15.
    https://doi.org/10.1016/j.beem.2004.11.003 · PubMed 15826919
  2. Vanderpump MP, Tunbridge WM, French JM, Appleton D, Bates D, Clark F, et al. The incidence of thyroid disorders in the community: a twenty-year follow-up of the Whickham Survey. Clin Endocrinol (Oxf). 1995;43(1):55-68.
    https://doi.org/10.1111/j.1365-2265.1995.tb01894.x · PubMed 7641412
  3. Li J, Huang Q, Sun S, Zhou K, Wang X, Pan K, et al. Thyroid antibodies in Hashimoto's thyroiditis patients are positively associated with inflammation and multiple symptoms. Sci Rep. 2024;14(1):27902.
    https://doi.org/10.1038/s41598-024-78938-7 · PubMed 39537841
  4. Lyko C, Blum MR, Abolhassani N, Stuber MJ, Del Giovane C, Feller M, et al. Thyroid antibodies and levothyroxine effects in subclinical hypothyroidism: A pooled analysis of two randomized controlled trials. J Intern Med. 2022;292(6):892-903.
    https://doi.org/10.1111/joim.13544 · PubMed 35894851
  5. Sgarbi JA, Teixeira PF, Maciel LM, Mazeto GM, Vaisman M, Montenegro Junior RM, et al. The Brazilian consensus for the clinical approach and treatment of subclinical hypothyroidism in adults: recommendations of the thyroid Department of the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2013;57(3):166-83.
    https://doi.org/10.1590/s0004-27302013000300003 · PubMed 23681263
  6. Huwiler VV, Maissen-Abgottspon S, Stanga Z, Mühlebach S, Trepp R, Bally L, et al. Selenium Supplementation in Patients with Hashimoto Thyroiditis: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Clinical Trials. Thyroid. 2024;34(3):295-313.
    https://doi.org/10.1089/thy.2023.0556 · PubMed 38243784
  7. Piticchio T, Frasca F, Malandrino P, Trimboli P, Carrubba N, Tumminia A, et al. Effect of gluten-free diet on autoimmune thyroiditis progression in patients with no symptoms or histology of celiac disease: a meta-analysis. Front Endocrinol (Lausanne). 2023;14:1200372.
    https://doi.org/10.3389/fendo.2023.1200372 · PubMed 37554764
  8. Pu YH, Long CY, Yue RS, Zhang BX, Jiang YY, Li ZH. Autoimmune thyroid diseases, celiac disease and gluten-free diet: a Mendelian randomisation study. Br J Nutr. 2026;135(1):31-39.
    https://doi.org/10.1017/S0007114525103917 · PubMed 40676996
  9. Zingone F, Bai JC, Cellier C, Ludvigsson JF. Celiac Disease-Related Conditions: Who to Test? Gastroenterology. 2024;167(1):64-78.
    https://doi.org/10.1053/j.gastro.2024.02.044 · PubMed 38460606
  10. Wang B, He W, Li Q, Jia X, Yao Q, Song R, et al. U-shaped relationship between iodine status and thyroid autoimmunity risk in adults. Eur J Endocrinol. 2019;181(3):255-266.
    https://doi.org/10.1530/EJE-19-0212 · PubMed 31252413

Fontes jornalísticas

Dúvidas dos leitores

Preciso repetir o exame de anticorpo todo ano?

Em geral, não. O anticorpo contra a tireoperoxidase serve para mostrar quem tem mais chance de a tireoide perder função com o tempo, e por isso indica quem deve seguir fazendo TSH 1. Uma vez positivo, quem mostra se a tireoide está dando conta é o TSH, não a variação do anticorpo de um exame para o outro. Repetir o anticorpo costuma gerar ansiedade com números que sobem e descem sem mudar nenhuma conduta.

Tenho Hashimoto e quero engravidar. Muda alguma coisa?

Muda o acompanhamento. Mulher com anticorpo positivo que planeja engravidar ou já está grávida é justamente um dos grupos em que dosar o TSH antes e durante a gestação faz diferença, porque o anticorpo ajuda a prever falta de hormônio no primeiro trimestre e alteração da tireoide depois do parto 1. A necessidade de hormônio da tireoide aumenta na gravidez, e uma tireoide que funcionava no limite pode deixar de dar conta. Por isso vale conversar com o endocrinologista antes de tentar engravidar, e não só depois do teste positivo.

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