Dr. Márcio GesterEndocrinologista · CRM-PA 14727 ← Início
Ilustração editorial sóbria em tons de azul-marinho representando o perfil de ação de duas insulinas ao longo de 24 horas: uma linha branca baixa, plana e estável, sem picos, correspondendo à insulina de ação prolongada aplicada uma vez ao dia, e três curvas azuis em forma de sino que se sobrepõem e se cruzam, cada uma correspondendo a uma dose da insulina intermediária aplicada ao longo do dia, mostrando o início, o pico e o término de cada aplicação. Sem marcas, sem embalagens reais de medicamento e sem pessoas.

Insulina glargina no SUS: ela é melhor que a NPH? O que muda para quem usa

Em resumo: a insulina glargina, agora ofertada pelo SUS, é um análogo de ação prolongada que controla a glicose de forma parecida com a NPH que já existia, com valores muito semelhantes de hemoglobina glicada 13. A diferença que realmente importa não está no controle médio da glicose, e sim na segurança: a glargina reduz de maneira consistente as hipoglicemias, em especial as noturnas e as graves, aquelas que assustam e às vezes levam ao pronto-socorro 4. Aqui eu explico, sem hype, o que essa insulina faz de diferente, para quem a mudança tende a valer mais a pena, e por que ampliar o acesso a ela pelo SUS é uma boa notícia.

Por Dr. Márcio Gester, Endocrinologista, CRM-PA 14727, RQE 9424. Atualizado em 23/07/2026.

O que saiu na mídia

Em julho de 2026, o Ministério da Saúde anunciou que o SUS passaria a oferecer a insulina glargina para crianças, adolescentes e idosos com diabetes. É uma mudança relevante de acesso, porque a glargina é um análogo de insulina de ação prolongada que, até então, boa parte dos pacientes só conseguia na rede privada ou por meio de pedido judicial. Para muita gente que depende da rede pública, essa insulina deixa de ser um privilégio de quem podia pagar.

A repercussão foi positiva, e com razão. Mas junto com a boa notícia veio uma pergunta natural, que ouço bastante no consultório: essa insulina é melhor do que a NPH que o SUS já fornecia? A resposta honesta é que "melhor" depende do que você está medindo. Em uma coisa as duas empatam; em outra, a glargina leva vantagem. Vale entender exatamente onde, porque isso muda a expectativa e ajuda você a conversar com a sua equipe de saúde.

Antes de tudo: o que é uma insulina basal

Quem usa insulina costuma precisar de dois tipos de ação. A insulina das refeições, de ação rápida, cobre o açúcar que sobe depois de comer. E a insulina basal, de ação lenta, é a que segura a glicose ao longo do dia e da noite, no intervalo entre as refeições e durante o sono. Tanto a NPH quanto a glargina são insulinas basais. A diferença entre elas está no formato dessa ação ao longo do tempo.

A NPH é uma insulina humana que age por um período intermediário, em geral de 12 a 18 horas, e tem um pico, um momento em que age mais forte, algumas horas após a aplicação. A glargina é um análogo, quer dizer, uma insulina modificada em laboratório para ser liberada de forma mais lenta e mais constante, com ação que se aproxima de 24 horas e praticamente sem pico. Essa curva mais plana é a raiz de quase tudo que muda entre as duas, como você vai ver a seguir.

Controle da glicose: aqui elas empatam

Este é o ponto que costuma surpreender. Quando o assunto é o controle médio da glicose, medido pela hemoglobina glicada, glargina e NPH entregam resultados muito parecidos. Uma revisão Cochrane, que reúne e avalia criteriosamente os melhores estudos disponíveis, analisou ensaios em adultos com diabetes tipo 2 e não encontrou diferença relevante de hemoglobina glicada entre os análogos de ação prolongada e a NPH 1. No diabetes tipo 1, outra revisão Cochrane chegou à mesma conclusão: o controle glicêmico foi essencialmente igual entre os dois 3.

Uma análise que juntou dados individuais de seis ensaios clínicos em diabetes tipo 2 confirmou isso, com quedas de hemoglobina glicada quase idênticas entre quem começou glargina e quem começou NPH 2. Ou seja, se a única pergunta fosse "qual baixa mais a glicose na média", a resposta seria que as duas baixam de forma equivalente. Por isso não é correto dizer que a glargina é uma insulina "mais forte". Ela não é. A diferença dela está em outro lugar.

A vantagem real: menos hipoglicemia, sobretudo à noite

Se o controle médio empata, o que separa as duas é a segurança, e essa diferença é clinicamente importante. Por não ter aquele pico de ação, a glargina reduz o risco de hipoglicemia, que é a queda excessiva da glicose. E o benefício é maior justamente nas hipoglicemias que mais preocupam.

Uma metanálise clássica em diabetes tipo 2 mostrou que, comparada à NPH, a glargina reduziu a hipoglicemia grave em cerca de 46% e a hipoglicemia grave noturna em cerca de 59% 4. A revisão Cochrane no tipo 2 caminhou na mesma direção, encontrando menos episódios de hipoglicemia confirmada em comparação com a NPH 1. No diabetes tipo 1, a tendência também favoreceu a glargina, com menos episódios noturnos 3. Traduzindo para a vida real: é a diferença entre passar a noite mais tranquilo e acordar de madrugada suando, tremendo e confuso por causa de uma queda de açúcar.

Isso importa muito porque a hipoglicemia não é um detalhe. Ela causa sofrimento imediato, medo de repetir o episódio e, nos casos graves, risco de convulsão, queda e ida ao pronto-socorro. Nos grupos que o SUS priorizou, crianças, adolescentes e idosos, esse risco pesa ainda mais, e é aí que a glargina mais mostra o seu valor.

Por que crianças, adolescentes e idosos entram primeiro

A escolha desses grupos não é aleatória, e conversa diretamente com a ciência. As diretrizes de endocrinologia recomendam preferir insulinas com menor risco de hipoglicemia especialmente nas pessoas mais vulneráveis a ela e às suas consequências 6. Crianças e adolescentes têm rotinas, apetite e níveis de atividade que variam muito de um dia para o outro, o que torna o pico da NPH mais difícil de prever e as quedas noturnas mais frequentes. Nos idosos, uma hipoglicemia grave pode significar uma queda, uma fratura ou uma internação, com impacto muito maior do que em um adulto jovem.

Para esses perfis, uma insulina de ação mais plana e previsível, com menos hipoglicemia noturna, é uma escolha sensata. Os grandes documentos de referência sobre tratamento do diabetes reconhecem que tanto a NPH quanto os análogos basais atingem as metas de glicose, mas que os análogos oferecem essa vantagem de segurança que pode ser decisiva em quem tem mais risco 5. Levar a glargina a esses grupos pelo SUS é, portanto, uma decisão alinhada com a melhor evidência.

NPH continua sendo uma boa insulina

Um recado importante, para não jogar a NPH no lixo. A NPH é uma insulina eficaz, com décadas de uso, que salvou e segue salvando muitas vidas. Ela controla a glicose tão bem quanto a glargina na média 12, é mais barata e, para muitos pacientes bem ajustados, funciona muito bem. Trocar de NPH para glargina não é obrigatório para todo mundo, nem é garantia automática de um controle melhor da hemoglobina glicada.

A conversa correta não é "qual insulina é a melhor do mundo", e sim "qual é a mais adequada para você, no seu momento". Se você usa NPH, está com a glicose bem controlada e sem episódios de hipoglicemia, provavelmente está tudo certo. A glargina brilha sobretudo quando as hipoglicemias, principalmente as noturnas, estão sendo um problema, ou quando o perfil de risco pede mais previsibilidade. Essa é uma decisão individual, para tomar com o seu médico.

Uma ressalva honesta sobre "melhor"

Vale um cuidado com a palavra "melhor", porque ela promete mais do que a ciência entrega. A vantagem da glargina em hipoglicemia é real e consistente, mas, na maior parte dos estudos, ela não se traduziu em uma hemoglobina glicada muito menor nem, por si só, em menos infarto ou menos morte 13. O ganho é sobretudo de segurança e de qualidade de vida no dia a dia, o que já é bastante, especialmente para quem sofre com quedas de açúcar. Prometer que a nova insulina vai resolver o diabetes ou substituir os outros cuidados seria exagero.

O controle do diabetes continua dependendo do conjunto: a insulina certa na dose certa, a alimentação, a atividade física, o monitoramento da glicose e o acompanhamento regular. A glargina é uma peça a mais, melhor encaixada para certos perfis, e não uma solução mágica. Entender isso evita tanto a decepção de quem esperava um milagre quanto a resistência de quem acha que "é tudo igual".

Quando procurar um endocrinologista

Se você ou alguém da sua família usa insulina e tem dúvidas sobre a glargina agora disponível no SUS, vale conversar com o médico que acompanha o caso, seja comigo ou com outro profissional habilitado. Uma boa avaliação verifica como está o seu controle, se há episódios de hipoglicemia que estão passando despercebidos, e se faz sentido, para o seu perfil, ajustar a insulina basal. Se você tem diabetes tipo 1 ou tipo 2 em uso de insulina, sente quedas de açúcar frequentes, principalmente à noite, ou nunca conseguiu estabilizar a glicose, esse é um bom motivo para revisar o tratamento. A intenção deste texto não é indicar troca de medicação pela internet, e sim ajudar você a fazer as perguntas certas na sua próxima consulta.

Fontes científicas

  1. Semlitsch T, Engler J, Siebenhofer A, Jeitler K, Berghold A, Horvath K. (Ultra-)long-acting insulin analogues versus NPH insulin (human isophane insulin) for adults with type 2 diabetes mellitus. Cochrane Database Syst Rev. 2020;(11):CD005613. doi:10.1002/14651858.CD005613.pub4.
    https://doi.org/10.1002/14651858.CD005613.pub4 · PubMed 33166419
  2. Porcellati F, Lin J, Lucidi P, Bolli GB, Fanelli CG. Impact of patient and treatment characteristics on glycemic control and hypoglycemia in patients with type 2 diabetes initiated to insulin glargine or NPH. Medicine (Baltimore). 2017;96(5):e6022. doi:10.1097/MD.0000000000006022.
    https://doi.org/10.1097/MD.0000000000006022 · PubMed 28151905
  3. Hemmingsen B, Metzendorf MI, Richter B. (Ultra-)long-acting insulin analogues for people with type 1 diabetes mellitus. Cochrane Database Syst Rev. 2021;(3):CD013498. doi:10.1002/14651858.CD013498.pub2.
    https://doi.org/10.1002/14651858.CD013498.pub2 · PubMed 33662147
  4. Rosenstock J, Dailey G, Massi-Benedetti M, Fritsche A, Lin Z, Salzman A. Reduced hypoglycemia risk with insulin glargine: a meta-analysis comparing insulin glargine with human NPH insulin in type 2 diabetes. Diabetes Care. 2005;28(4):950-955. doi:10.2337/diacare.28.4.950.
    https://doi.org/10.2337/diacare.28.4.950 · PubMed 15793205
  5. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 9. Pharmacologic Approaches to Glycemic Treatment: Standards of Care in Diabetes-2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S183-S215. doi:10.2337/dc26-S009.
    https://doi.org/10.2337/dc26-S009 · PubMed 41358900
  6. McCall AL, Lieb DC, Gianchandani R, MacMaster H, Maynard GA, Murad MH, et al. Management of individuals with diabetes at high risk for hypoglycemia: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2023;108(3):529-562. doi:10.1210/clinem/dgac596.
    https://doi.org/10.1210/clinem/dgac596 · PubMed 36477488
  7. Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD): diretrizes sobre insulinização e análogos de insulina
    https://diretriz.diabetes.org.br/

Fontes jornalísticas

Dúvidas dos leitores

Ainda não há dúvidas publicadas neste artigo. As boas perguntas viram tema de novos textos.

Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.