Dr. Márcio GesterEndocrinologista · CRM-PA 14727 ← Início
Ilustração editorial sóbria em tons de azul-marinho representando a composição do peso perdido durante o emagrecimento, com uma proporção maior correspondendo à gordura e uma fração menor correspondendo à massa muscular, ao lado de elementos que remetem a alimentação rica em proteína e a exercício de força. Sem marcas, sem embalagens reais de medicamento e sem pessoas.

Canetas de emagrecimento e massa muscular: você perde músculo? Como se proteger

Em resumo: quando você emagrece com as canetas (semaglutida, tirzepatida), parte do peso que some é massa magra, e não só gordura. Em média, cerca de um quarto do peso perdido vem da massa magra, e o restante é gordura 12. A boa notícia é que essa proporção é parecida com a de qualquer emagrecimento grande, seja por dieta rigorosa ou por cirurgia, ou seja, não é um defeito exclusivo das canetas 2. O que decide o resultado não é só quanto você perde, e sim como: comer proteína suficiente e fazer treino de força ajuda a preservar o músculo enquanto você perde a gordura 45. Aqui eu explico, sem alarme e sem hype, o que a ciência realmente mostra e o que está no seu controle.

Por Dr. Márcio Gester, Endocrinologista, CRM-PA 14727, RQE 9424. Atualizado em 24/07/2026.

O que saiu na mídia

Em julho de 2026, três entidades europeias que estudam obesidade e nutrição publicaram um consenso internacional, na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology, sobre como cuidar de quem usa os medicamentos da classe das incretinas, o grupo das canetas de emagrecimento. O documento chamou a atenção para um ponto que virou manchete: parte do peso perdido durante o tratamento corresponde a massa muscular, e por isso o importante é acompanhar não apenas quanto peso a pessoa perde, mas como esse peso está sendo perdido.

A repercussão foi útil, porque tirou o foco só do número da balança. Mas, como quase sempre acontece, a manchete assustou mais do que explicou. Muita gente que usa a caneta, ou pensa em usar, ficou com a pergunta na cabeça: "então eu vou derreter meu músculo?". A resposta honesta tem duas partes. Sim, se perde algum músculo, como em qualquer emagrecimento. E não, isso não precisa ser um problema, porque há coisas simples e comprovadas que protegem a sua massa muscular. Vamos por partes.

Todo emagrecimento perde um pouco de músculo

Comece por um fato que vale para qualquer método, e não só para as canetas: quando o corpo perde peso, ele perde uma mistura de gordura e de massa magra. Massa magra é tudo que não é gordura, incluindo músculo, água e osso. Isso acontece com dieta, com cirurgia bariátrica, com jejum e também com os remédios. O corpo humano funciona assim: emagrecer de forma significativa quase sempre custa um pouco de músculo junto.

Por isso, a pergunta certa não é "as canetas fazem perder músculo?", porque a resposta seria a mesma para praticamente todas as formas de emagrecer. A pergunta que interessa é "elas fazem perder mais músculo do que os outros métodos?" e, principalmente, "o que eu posso fazer para perder o mínimo possível de músculo?". É nessas duas perguntas que a ciência recente traz respostas tranquilizadoras.

Quanto de músculo se perde de fato

Aqui os números ajudam a substituir o medo por informação. Revisões que reuniram os melhores estudos mostram que, com as canetas, em torno de um quarto do peso perdido vem da massa magra, e cerca de três quartos vêm da gordura. Uma metanálise de 2026, juntando vinte ensaios clínicos, estimou que a massa magra respondeu por cerca de 26% do peso total perdido 1. Uma revisão publicada nos Annals of Internal Medicine, no mesmo ano, encontrou um valor parecido, com mediana em torno de 28% 2.

Vale um cuidado com as palavras. Massa magra não é a mesma coisa que músculo: o músculo é aproximadamente metade da massa magra. Então a perda de músculo propriamente dita é menor do que esses números sugerem à primeira vista. E há um dado que costuma passar longe das manchetes: no estudo SURMOUNT-1, com a tirzepatida, a proporção de gordura e de massa magra perdida foi praticamente igual à observada com placebo, cerca de 75% de gordura para 25% de massa magra, mesmo com uma perda de peso total muito maior 3. Ou seja, a caneta ajudou a pessoa a perder bastante peso, mas na mesma "receita" de composição que o corpo já seguiria.

A parte que a manchete esquece

Duas nuances mudam bastante a interpretação. A primeira: como a perda de massa magra é proporcional, quem perde muito peso perde mais massa magra em quilos, mas não necessariamente em proporção. Em vários estudos, a relação entre músculo e gordura no corpo até melhora depois do tratamento, porque a gordura perdida é muito maior. A segunda: a qualidade do músculo pode melhorar mesmo com alguma redução de volume. Em substudos de imagem, a tirzepatida reduziu a gordura infiltrada dentro do músculo, um sinal de músculo mais saudável, e não apenas menor.

Nada disso quer dizer que a perda de músculo seja irrelevante. Ela merece atenção, especialmente em idosos e em quem já tem pouca massa muscular, porque músculo é força, equilíbrio e proteção contra quedas. O ponto é que a situação está longe do "derretimento" que a palavra assusta, e que existe um plano claro para proteger o que importa. É o que a ciência recomenda a seguir.

Como proteger o seu músculo: proteína e treino de força

Se há uma mensagem para levar deste texto, é esta: dá para preservar bastante músculo enquanto se perde gordura, e as duas ferramentas principais estão no seu controle.

A primeira é comer proteína suficiente. As canetas reduzem muito o apetite, e o consumo total de comida pode cair de forma expressiva, o que aumenta o risco de faltar proteína e outros nutrientes se a pessoa apenas "come menos de tudo" 6. Por isso, um documento conjunto de sociedades de nutrição e de obesidade recomenda priorizar proteína em cada refeição durante o tratamento, justamente para segurar a massa muscular enquanto o peso baixa 4. Na prática, com menos volume de comida, cada refeição precisa render mais em qualidade, com uma boa fonte de proteína no centro do prato.

A segunda ferramenta é o exercício de força, a musculação ou os treinos com carga. O estímulo de força é o sinal que diz ao corpo para manter o músculo mesmo em fase de emagrecimento. A literatura recente reforça que combinar a medicação com atividade física, em especial o treino de resistência, é a estratégia mais sensata para que a perda de peso seja de gordura, e não de músculo 5. Não é preciso virar atleta: constância vale mais do que intensidade, e começar leve, com orientação, já faz diferença.

Sinais de que vale conversar com o seu médico

O consenso europeu também lembra que o acompanhamento existe para ajustar o caminho quando algo sai do esperado. Alguns sinais merecem uma conversa com quem prescreveu a caneta, sem pânico, apenas para reavaliar: enjoo ou vômitos que não passam, dificuldade de se hidratar e de comer, uma perda de peso rápida demais, ou a sensação de fraqueza e de estar comendo muito pouco ao longo do dia. Nesses casos, pode ser hora de rever a dose, reforçar a alimentação ou dar mais atenção ao treino. A ideia não é parar por conta própria, e sim ajustar com orientação.

Isso conversa com o espírito do documento: o objetivo do tratamento não é o menor número possível na balança a qualquer custo, e sim uma perda de peso saudável, que preserve força e funcionalidade. Peso que some rápido demais, com pouca comida e sem treino, tende a levar mais músculo junto. Peso que some de forma acompanhada, com proteína e força, protege o que interessa.

Quando procurar um endocrinologista

Se você usa uma caneta de emagrecimento, ou pensa em usar, e ficou em dúvida sobre a massa muscular, vale conversar com um médico que acompanhe o seu caso, seja comigo ou com outro profissional habilitado. Uma boa avaliação verifica como está a sua alimentação, se a proteína está adequada, se faz sentido incluir ou ajustar o treino de força, e se a dose e o ritmo de perda de peso estão certos para você. Se você percebe fraqueza, perda de peso muito rápida, ou dificuldade de comer direito, esse é um bom motivo para revisar o tratamento. A intenção deste texto não é indicar, trocar ou suspender medicação pela internet, e sim ajudar você a fazer as perguntas certas na sua próxima consulta e a emagrecer de um jeito que também cuide do seu músculo.

Fontes científicas

  1. Eisa N, Barood O. Lean mass changes with incretin therapy versus lifestyle intervention: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. Diabetes Obes Metab. 2026;28(6):4818-4827. doi:10.1111/dom.70666.
    https://doi.org/10.1111/dom.70666 · PubMed 41877354
  2. Batsis JA, Gavras A, Gross DC, Cheever C, Da Silva B, Meira Filho L, et al. Effect of incretin-based and nonpharmacologic weight loss on body composition: a systematic review. Ann Intern Med. 2026;179(7):996-1013. doi:10.7326/annals-25-00478.
    https://doi.org/10.7326/annals-25-00478 · PubMed 41996180
  3. Look M, Dunn JP, Kushner RF, Cao D, Harris C, Gibble T, et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes Obes Metab. 2025;27(5):2720-2729. doi:10.1111/dom.16275.
    https://doi.org/10.1111/dom.16275 · PubMed 39996356
  4. Mozaffarian D, Agarwal M, Aggarwal M, Alexander L, Apovian CM, et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and the Obesity Society. Am J Clin Nutr. 2025;122(1):344-367. doi:10.1016/j.ajcnut.2025.04.023.
    https://doi.org/10.1016/j.ajcnut.2025.04.023 · PubMed 40450457
  5. Lieberman DE, Aslan DH, Heymsfield SB. The conundrum of exercise for weight management in the GLP-1 receptor agonist era. JAMA. 2026;335(21):1841. doi:10.1001/jama.2026.5537.
    https://doi.org/10.1001/jama.2026.5537 · PubMed 42081217
  6. Spreckley M, Ruggiero CF, Brown A. Nutrition strategies for next-generation incretin therapies: a systematic scoping review of the current evidence. Obes Rev. 2026;27(6):e70079. doi:10.1111/obr.70079.
    https://doi.org/10.1111/obr.70079 · PubMed 41500509
  7. ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica)
    https://abeso.org.br/

Fontes jornalísticas

Dúvidas dos leitores

Como eu sei se estou perdendo músculo e não só gordura?

A balança comum não responde a isso, porque ela mostra só o peso total e não separa gordura de músculo. Dois sinais práticos ajudam a perceber: a força e a disposição no dia a dia. Se subir escada, carregar compras, levantar da cadeira ou abrir um pote começaram a ficar visivelmente mais difíceis, vale investigar. Para uma resposta objetiva existem avaliações de composição corporal, como a bioimpedância e a densitometria, além de testes simples de força que fazemos na consulta. O que eu oriento é não se guiar apenas pelo número da balança durante o tratamento: acompanhe também força e funcionalidade, junto com a sua equipe.

Quanta proteína eu preciso comer usando a caneta?

Não existe um número único que sirva para todo mundo, porque a necessidade varia com o seu peso, o seu nível de atividade física e a sua saúde, especialmente a função dos rins. O princípio que vale para todos é este: como a caneta reduz bastante o apetite e você passa a comer um volume menor, cada refeição precisa render mais em qualidade, com uma boa fonte de proteína no centro do prato, e não apenas comer menos de tudo. A quantidade certa para o seu caso é definida na avaliação, de preferência com apoio de nutricionista. E vale um cuidado: sair usando suplemento por conta própria não substitui esse ajuste e nem sempre é o que você precisa.

Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.